A porta dos fundos bateu uma vez. Não fechou. O vento entrou com cheiro de sal, ergueu a proposta de Beatriz Alencastro e espalhou etiquetas pela sala como se o farol também quisesse escolher um lado.
Gael Monteiro já estava no primeiro degrau lá fora quando Elara Vargas pegou uma etiqueta em branco, amassou entre os dedos e escreveu, sem apoiar em nada: ficar. A caneta falhou no meio da palavra. Ela encarou o risco quebrado por um segundo. Depois levantou a voz.
— Beatriz Alencastro também escreveu uma carta.
O degrau rangeu.
Gael não voltou na hora. A chuva escorria do telhado em fios grossos, batendo na pedra com uma pressa irritante. Elara foi até a mesa, abriu uma das pastas menores e puxou um envelope amarelado, mais pesado que os outros. Não era o de Liana Vargas. Esse continuava guardado, lacrado, quieto demais dentro da gaveta.
— O remetente está aqui — ela disse. — Beatriz Alencastro. A letra é diferente da proposta, mas o nome é o mesmo.
As botas de Gael apareceram primeiro. Depois a caixa de ferramentas. Ele entrou sem pedir licença, mas parou no tapete, tirou o boné molhado e deixou a água pingar no chão antes de se aproximar.
— Mostra.
Elara não entregou. Colocou o envelope sobre a mesa, em cima do papel-manteiga, com a frente virada para cima.
— Achei que você não soubesse de nada.
— Mostra, Elara.
Dessa vez, a voz dele não veio dura. Veio baixa. Pior.
Gael se inclinou sobre a mesa. Leu o nome. A expressão dele mudou antes que ele conseguisse esconder. A ironia saiu do rosto como luz apagada. A mão livre abriu e fechou ao lado da perna, procurando apoio no ar.
Elara cruzou os braços.
— Agora você conhece?
Ele apoiou a caixa de ferramentas no chão com cuidado demais.
— A carta está aberta?
— Não.
— Ainda bem.
— Você fala como se ela mordesse.
— Algumas mordem depois de velhas.
— Engraçado. Quando eu falei de Liana Vargas, você mandou guardar. Quando eu falo de Beatriz Alencastro, você volta para dentro.
Gael tirou um pano do bolso da jaqueta e secou a palma da mão. Dobrou o pano uma vez. Depois outra. Os dedos dele pareciam precisar de uma tarefa para não tremer.
— Tem data?
Elara pegou a lupa e inclinou o envelope sem tocar no lacre.
— Aqui. O mês dá para ler. O ano está manchado.
Gael chegou mais perto. O cheiro de chuva veio com ele, misturado a madeira molhada e metal. O cotovelo dele roçou de leve no dela quando ambos se aproximaram da mesma linha. Elara recuou só o bastante para não derrubar a lupa.
— Você ocupa espaço demais para alguém que vive mandando os outros embora.
Ele pegou a régua e a usou como peso na ponta do papel.
— E você organiza demais para alguém que acabou de receber uma ameaça com perfume caro.
— Eu organizo porque papel velho não espera a pessoa criar coragem.
— Gente também não.
A frase ficou entre eles. A chuva tentou engolir, mas não conseguiu.
Elara puxou uma cadeira com o pé e sentou.
— Se vai ficar pingando em cima do meu inventário, pelo menos sente.
Gael olhou para a cadeira como se ela fosse uma armadilha. Ainda assim, sentou na beirada, sem encostar as costas. A bota deixou um rastro escuro no assoalho. Ele reparou, levantou de novo, pegou um pano perto da janela e limpou.
Elara acompanhou em silêncio.
Gael Monteiro entrava como tempestade. E limpava a própria marca.
Quando ele voltou, ela abriu o caderno de registro.
— Eu vou fazer perguntas. Você pode responder com palavras inteiras, só para variar.
— Depende das perguntas.
— Depende das respostas.
Ele soltou um riso curto, sem mostrar os dentes.
— Começa.
Elara escreveu no topo da página: carta lacrada — remetente Beatriz Alencastro. A caneta falhou no sobrenome. Ela sacudiu uma vez. Nada.
Gael puxou um lápis de trás da orelha e colocou ao lado do caderno.
— Não pergunta.
— Eu nem abri a boca.
— Ia perguntar por que eu ando com lápis.
— Agora não preciso. Já entendi que você conserta telhado e carrega papelaria no corpo.
— E você escreve etiqueta para não gritar.
A ponta do lápis parou sobre a página.
Elara levantou o rosto devagar.
Gael desviou o olhar para o envelope.
— Foi chute.
— Ruim.
— Acertei?
Ela riscou o começo da palavra e reescreveu por cima com força.
— O que aconteceu com essa carta?
Gael empurrou a cadeira um centímetro para trás. O pé arranhou o assoalho.
— Não sei o que tem dentro.
Elara fechou o caderno.
Ele ergueu a mão, pedindo um segundo.
— Mas sei o que esse nome costuma trazer quando aparece perto de Artur Vargas.
— E o que traz?
— Uma tragédia antiga daqui. Daquelas que todo mundo conhece, mas ninguém conta do mesmo jeito.
O ar da sala pareceu encolher.
— Beatriz estava envolvida?
— Beatriz sempre está perto o bastante para dizer que não viu nada.
— Isso é resposta ou covardia?
Gael encarou Elara. Pela primeira vez, não pareceu ofendido. Pareceu cansado.
— É o máximo que eu consigo dizer sem abrir uma porta que talvez não feche depois.
— A porta já está aberta. Ela veio aqui, ofereceu dinheiro demais, me deu prazo até meio-dia e fingiu que era gentileza. Você quer que eu faça o quê? Venda o farol e vá embora porque uma mulher rica sorriu bonito?
— Quero que você pare de tratar carta como se fosse só papel.
— Eu trabalho com isso.
— Com cartas?
— Com coisa que alguém tentou apagar.
Gael ficou quieto. O relógio velho bateu uma vez, errado como sempre, mas ainda teimoso.
Ele pegou o lápis, girou entre os dedos e empurrou de volta para ela.
— Então trabalha direito.
Elara estreitou os olhos.
— Isso foi um insulto ou um convite?
— Uma condição.
Ela abriu o caderno outra vez.
— Fala.
— Ninguém além de nós dois pode saber que essa carta existe.
— Beatriz sabe das cartas.
— Não desta. Se soubesse, teria pedido por ela. Beatriz não rodeia o que quer. Ela aponta.
Elara anotou: não mencionar carta específica.
— Mais?
— Nada de levar envelope para fora. Nada de mostrar para curioso. Nada de abrir sem foto, registro do lacre, das manchas, das dobras.
— Isso eu já faria.
— E nada de Liana Vargas hoje.
O lápis quebrou.
Elara ficou imóvel. Depois levantou a ponta partida entre dois dedos.
— Você não manda nessa carta.
Gael pegou o canivete do bolso e abriu a lâmina pequena. Apontou o lápis sobre a tampa da caixa de ferramentas. As lascas caíram em caracóis finos, cheirando a madeira nova no meio daquele ar de mofo.
— Não estou mandando. Estou pedindo uma troca.
— Qual?
— Eu ajudo com o contexto. Você segura a carta de Liana Vargas até a gente entender por que Beatriz está com tanta pressa.
Elara olhou para a gaveta onde o envelope da mãe estava guardado. A vontade de abri-lo doeu nos dedos. Não era curiosidade. Era fome. Era medo. Era uma criança esperando atrás de uma porta.
— Você fala a gente quando quer me controlar?
Gael fechou o canivete.
— Falo a gente quando sozinho vira burrice.
A resposta saiu seca. Sem defesa. Mais honesta do que todas as recusas dele até ali.
Elara pegou o lápis recém-apontado. A ponta fina manchou seu dedo de cinza.
— Discrição — ela disse. — Em troca de contexto. E você para de fingir que não sabe quando sabe.
— Eu não prometo contar tudo.
— Eu não prometo obedecer sempre.
— Imaginei.
Por um instante, a chuva pareceu baixar. A sala ganhou outros sons: o lápis correndo no papel, a madeira velha cedendo sob o peso dos dois, a respiração de Gael perto demais do silêncio dela.
Elara escreveu as condições. Gael leu por cima de seu ombro, sem tocar nela. Mesmo assim, ela sentiu a presença dele como calor.
— Não escreve segredo — ele disse.
— Por quê?
— Segredo chama gente.
— E eu escrevo o quê?
— Reserva.
Ela soltou ar pelo nariz.
— Você é supersticioso?
— Sou prático.
— Claro. Todo homem prático tem medo de uma palavra.
— Escreve reserva, restauradora.
Ela escreveu. Pequeno. Quase escondido.
Gael puxou uma das cartas abertas para longe da umidade que avançava pela mesa. Usou dois pesos de vidro com cuidado inesperado para mãos cheias de calos. Elara observou seus dedos medindo distância, respeitando margem, evitando a tinta antiga.
— Quem te ensinou isso? — ela perguntou.
Gael não olhou para ela.
— Artur Vargas.
O nome do avô mudou a temperatura da sala.
— Ele dizia que carta velha merece cuidado porque gente viva ainda pode pedir desculpa.
Elara tocou o lacre do envelope de Beatriz Alencastro com a unha, sem pressionar.
— E carta que nunca foi enviada?
Gael demorou a responder.
— Essa cobra dos dois lados.
O relógio bateu de novo. Errado. Insistente.
Elara fechou o caderno e empurrou para o centro da mesa.
— Amanhã ao meio-dia, Beatriz volta.
— Antes disso, a gente lê o que der para ler sem destruir nada.
— E começamos por esta.
Gael puxou a cadeira para mais perto da mesa. Não pegou a caixa de ferramentas. Não foi embora.
— Começamos pela carta de Beatriz Alencastro.
Elara colocou dois pesos de vidro nas bordas do envelope. O nome da remetente ficou imóvel sob a luz fraca.
Gael encarou o lacre como quem reconhece uma ferida antiga.
— Mas, se essa carta for a que eu acho que é, Elara... depois dela, vender o farol não vai ser o seu maior problema.