Beatriz Alencastro entrou como se o farol já fosse dela.
Não pediu licença. Não precisou. Fechou o guarda-chuva com um gesto limpo, deixou a ponta molhada no canto da soleira e atravessou a sala sem olhar para trás, seca demais para aquela chuva, calma demais para quem acabava de aparecer falando das cartas de Artur Vargas.
Elara Vargas sentiu a mão ir, por instinto, até a pasta onde havia escondido o envelope endereçado a Liana Vargas. Cobriu o nome com uma folha em branco antes que Beatriz se aproximasse da mesa.
Gael Monteiro permaneceu perto do corredor. A lona que ele trouxera ainda estava dobrada sobre uma cadeira. O martelo, esquecido na beirada da janela. Ele não disse nada, mas também não foi embora.
Beatriz olhou as cartas espalhadas. Não tocou em nenhuma. Isso, de algum modo, incomodou Elara mais do que se ela tivesse mexido em tudo.
— Artur sempre teve o péssimo hábito de transformar obrigação em segredo — disse Beatriz.
Elara fechou a porta com o calcanhar.
— A senhora conhecia meu avô?
— Todo mundo conhecia Artur Vargas.
— Não foi isso que eu perguntei.
Um quase sorriso apareceu no rosto de Beatriz, rápido e sem calor.
— Conheci o bastante para saber que ele guardou coisas que não devia.
A chuva bateu no vidro em pancadas miúdas. Elara apoiou as duas mãos na mesa, entre Beatriz e as cartas.
— A senhora veio falar sobre uma carta específica ou sobre todas?
— Vim evitar um estrago.
Gael soltou uma risada curta.
— Começou bem.
Beatriz virou só o rosto para ele.
— Gael Monteiro. Você continua achando que grosseria é prova de caráter.
— E você continua confundindo porta aberta com convite.
Elara olhou de um para o outro. Havia uma história ali. Antiga o bastante para os dois saberem onde ferir sem fazer força.
Beatriz abriu a pasta preta que trazia junto ao corpo. Tirou um envelope grande, algumas folhas presas por clipe e uma caneta prateada. Colocou tudo sobre um espaço vazio da mesa, longe das cartas, com precisão demais para parecer casual.
— Recebi a notícia de que o farol seria vendido — disse. — Quero comprá-lo.
Elara não pegou os papéis.
— O anúncio foi suspenso.
— Por isso vim depressa.
— Depressa demais.
Beatriz inclinou a cabeça.
— Imóveis assim não esperam. E casas fechadas atraem cupim, infiltração, curiosos e perguntas que ninguém precisa fazer.
— Ninguém quem?
A caneta rolou um centímetro. Beatriz a segurou antes que caísse.
— Famílias que ainda vivem por aqui.
— A minha também viveu.
— Viveu — repetiu ela. — Há diferença.
A palavra ficou no ar, pequena e cruel.
Gael deu um passo. O assoalho gemeu sob a bota dele. Elara percebeu, sem querer, que ele ficara mais perto dela do que da porta.
Ela puxou uma cadeira e se sentou. Não por conforto. Para obrigar a conversa a descer do tom de ameaça.
— Quanto?
Beatriz virou a primeira folha.
O número ocupava uma única linha.
Elara leu. Depois leu de novo.
O silêncio da sala mudou. Era muito mais do que o corretor havia estimado. Mais do que ela esperava receber. Dinheiro suficiente para quitar dívidas, recomeçar sem aperto, comprar os equipamentos que vinha adiando havia meses. Dinheiro suficiente para fechar aquela porta e nunca mais ouvir passos no corredor, nem goteiras, nem o nome de Liana preso num envelope que ela não tinha coragem de abrir.
Ela empurrou a folha de volta com a ponta do dedo.
— É alto.
— É justo.
— Não é a mesma coisa.
Beatriz apoiou a caneta sobre o contrato.
— Posso transferir um sinal ainda hoje. O restante em poucos dias. Sem visitas, sem anúncio, sem exposição. Você leva os objetos pessoais de Artur, assina, e encerra isso com dignidade.
Gael cruzou os braços. A camisa úmida colava no ombro dele.
— Ela acabou de encontrar cartas escondidas nesta casa.
— Cartas que talvez pertençam a pessoas que nunca autorizaram uma desconhecida a remexer nelas.
Elara ergueu o rosto.
— Desconhecida?
Beatriz não piscou.
— Para muita gente, sim.
A palavra atravessou Elara mais fundo do que deveria. Ela pegou uma etiqueta em branco da mesa, dobrou ao meio, desdobrou. O vinco saiu torto.
— A senhora chegou aqui sabendo das cartas antes de eu contar a qualquer pessoa.
— Artur deixou rastros.
— Que tipo de rastros?
— Os suficientes.
— Isso também não responde.
Beatriz recolheu uma das folhas, alinhando as bordas com calma.
— Respostas levam tempo. Tempo estraga papel. Também estraga reputações.
Gael mexeu o maxilar.
— Agora chegamos na parte sincera.
— Não estou ameaçando.
— Não precisa. Você embrulha bem.
Beatriz encarou Gael por um instante.
— E você continua parado ao lado de uma lâmpada quebrada, chamando isso de lealdade.
A frase acertou nele. Elara viu pelo jeito como os dedos dele fecharam devagar em torno do martelo.
Ela bateu a etiqueta dobrada sobre a mesa. Baixo, mas firme.
— A conversa é comigo.
Beatriz voltou os olhos para ela.
— Então vamos simplificar. A oferta vale até amanhã ao meio-dia. Depois, retiro as condições especiais e sigo pelo caminho comum. Vistoria, contestação do estado do imóvel, advogado. Tudo dentro da lei. Tudo demorado.
— Parece um favor estranho.
— É um favor, Elara Vargas.
O nome completo, naquela voz, fez o farol parecer menor.
Elara viu a letra de Artur nos envelopes. Viu a folha fina escondendo o nome de Liana Vargas. Viu também a caneta prateada esperando sua mão como se já conhecesse o fim da história.
Ela pegou a caneta.
Beatriz ergueu o queixo.
Gael não se moveu, mas o silêncio dele pesou na sala.
Elara destampou a caneta, puxou uma folha de rascunho e escreveu no canto: oferta recebida — não aceitar antes de inventário completo. Depois tampou a caneta e a devolveu.
— Preciso de tempo.
O rosto de Beatriz não mudou. Só os dedos dela apertaram o clipe até marcar o papel.
— Amanhã ao meio-dia.
— Tempo de verdade.
— Você não faz ideia do que está segurando.
— Então me explique.
— Não aqui.
— Conveniente.
Beatriz fechou a pasta.
— Não transforme lembrança em espetáculo.
Elara endireitou um envelope que a pasta havia deslocado.
— Não transforme compra em limpeza.
Pela primeira vez, Beatriz perdeu meio segundo. Foi pouco, mas Elara viu. Gael também.
Beatriz pegou o guarda-chuva.
— Vou deixar uma cópia da proposta.
— Eu não pedi.
— Ainda não.
Ela colocou a folha dobrada na ponta da mesa. Longe das cartas. Perto o bastante para incomodar.
Na porta, parou com a mão no trinco.
— Algumas cartas não foram enviadas por bondade, Elara. Outras, por vergonha. As piores ficam no meio.
Saiu sem bater a porta.
O farol pareceu prender a respiração.
Elara ficou imóvel, a caneta de Beatriz ainda lembrada nos dedos, embora já não estivesse ali. Gael foi até a janela e pregou a lona. Uma martelada. Outra. Madeira cedendo. Vento perdendo espaço.
— Você conhece ela — disse Elara.
— Conheço gente demais.
— Gael.
Ele guardou o martelo na caixa.
— Beatriz quer o que quer. Sempre quis.
— E agora quer o farol.
— Agora quer que você venda.
Elara pegou a cópia da proposta. O papel tinha cheiro leve de perfume caro e tinta fresca. Ela dobrou em quatro sem reler.
— Por quê?
Gael não respondeu. Foi até a porta dos fundos, como se a chuva do lado de fora tivesse virado tarefa urgente.
Elara cruzou a sala e ficou no caminho dele.
— Ela sabe das cartas. Sabe de Artur. Talvez saiba de Liana Vargas.
O nome da mãe caiu entre os dois como uma xícara quebrada.
Gael passou a mão pela nuca. Depois pegou o boné pendurado num prego e amassou a aba entre os dedos.
— Não mexe nisso hoje.
— Não foi o que eu perguntei.
— Foi a resposta que eu tenho.
— Não serve.
— Nem tudo aqui vai servir para você, Elara.
Ela abriu a pasta e tirou o envelope ainda lacrado. A sala pareceu perder som. Restou apenas uma goteira pingando em algum canto.
— Artur escreveu para minha mãe e escondeu. Beatriz aparece oferecendo dinheiro demais logo depois. Você me deixa chave, lona, aviso de porta, mas quando eu pergunto o que está acontecendo, vira parede.
Gael olhou para o envelope. Não para ela.
— Guarda isso.
— Então você sabe alguma coisa.
— Sei que papel antigo rasga fácil.
— Eu restauro papel antigo.
— Gente não.
A frase foi baixa. Ainda assim, Elara sentiu como se ele tivesse tocado num machucado sem pedir licença.
Ela apertou o envelope contra o peito, cuidando para não quebrar o lacre.
— Você é a única pessoa nesta casa que não tentou me comprar nem me expulsar.
Gael soltou uma respiração curta.
— Isso não é elogio grande.
— É o que eu tenho.
Por um instante, ela achou que ele fosse ceder. Havia algo nos olhos dele, uma culpa antiga tentando atravessar a raiva. Depois Gael pegou a caixa de ferramentas, e o som das dobradiças cortou o momento ao meio.
— Não sei das cartas.
— Mas sabe de Beatriz.
— Sei o bastante para não brincar com ela.
— Eu não estou brincando.
— Pior.
Elara bloqueou a saída de novo. Dessa vez, não levantou a voz.
— Me ajuda a entender por que Artur guardou isso.
Gael ficou parado, a caixa na mão. A água pingava da capa dele no chão. Um ponto escuro. Depois outro. Ele contou os pingos como se cada um comprasse mais um segundo de silêncio.
— Amanhã ela volta — disse. — Com papel melhor e gente pior.
— Então eu deveria aceitar?
Ele abriu a porta dos fundos. O vento entrou frio, levantando a ponta da proposta dobrada sobre a mesa.
Gael enfim olhou para ela. O rosto dele estava fechado. Mais frio do que a chuva.
— Eu não sei de nada, Elara. Venda esse farol e vá embora antes que a maré suba.