Nos bastidores da Semana de Moda de Paris, o ar era uma cacofonia de laquê, egos e pânico contido. Helena ignorava tudo, a respiração presa, a agulha fina dançando entre os dedos. Ela ajustava uma costura invisível no forro de um vestido que sua meia-irmã, Isabelle, usaria para fechar o desfile da Maison Moreau. Um detalhe que ninguém veria, mas que para Helena era a alma da peça. Era seu sangue naqueles croquis, suas noites em claro naquelas costuras.
— Pronto. — Sua voz foi um sopro de alívio contra o zumbido dos secadores. Isabelle girou diante do espelho, o tecido abraçando-a com uma perfeição que não era dela, mas de Helena. Ela se admirou, o olhar vago e satisfeito. — A cintura... você tem certeza? — A pergunta era puro tédio, um pretexto para prolongar seu reflexo. — Está perfeito. Foi feito para você — respondeu Helena, engolindo a pontada de ressentimento.
A porta do camarim se abriu de repente, e o caos pareceu congelar. Beatrice Moreau entrou, um espectro de seda marfim e silêncio calculado. Sua madrasta. A CEO. Seu olhar, frio como gelo polido, ignorou a própria filha, a estrela da noite, e cravou em Helena.
— O que você ainda está fazendo aqui? — A voz era um veludo polido, mas a pergunta cortou o ar.
Helena sentiu um calafrio. — Estou finalizando o vestido. Isabelle entra em três minutos.
Um sorriso mínimo tocou os lábios de Beatrice. — Não. O trabalho dela aqui terminou. Isabelle não precisa mais de você. Ninguém aqui precisa.
O som ambiente morreu nos ouvidos de Helena. Pelo espelho, ela viu um brilho de triunfo nos olhos de Isabelle, que agora a encarava abertamente. — Beatrice, do que você está falando? O desfile…
— O desfile será o triunfo da *minha* filha. — Beatrice deu um passo à frente, sua presença dominando o pequeno espaço. Com um gesto preciso, ela agarrou a credencial pendurada no pescoço de Helena — *Estilista Assistente* — e a arrancou com um puxão seco. O cordão arrebentou. — Sua ajuda não é mais necessária. Nem hoje, nem nunca.
O ar fugiu dos pulmões de Helena. Ela buscou os olhos de Isabelle, implorando por uma palavra, um protesto, qualquer coisa. A meia-irmã apenas ajeitou a alça do vestido. O vestido que Helena criara.
— Meus desenhos... meu pai… — a voz dela era um fio.
— Seu pai não está aqui para proteger a órfã talentosa, querida. E a Maison Moreau não é um projeto de caridade. — Beatrice jogou a credencial rasgada no lixo como se fosse um lenço de papel usado. — Seguranças.
Dois homens de terno, postados do lado de fora, entraram com uma eficiência silenciosa. Um deles pousou a mão no braço de Helena. O toque não era violento, mas era final. Humilhante. — A bolsa dela. E o casaco. E a acompanhem até a saída de serviço.
Sua bolsa. Seus cadernos de esboço. O trabalho de uma vida. — Não, por favor... meus cadernos...
Beatrice antecipou-se ao segurança, pegou a bolsa, abriu-a e retirou os cadernos. Ela os folheou com desprezo calculado antes de jogá-los sobre a penteadeira, ao lado das joias de Isabelle. Então, estendeu a bolsa vazia para Helena.
— Você não vai precisar mais deles.
O mundo desabou em silêncio. Conduzida por um corredor de serviço, ela passou por modelos que desviavam o olhar e assistentes que a fitavam com uma mistura de pena e medo. Ninguém ousou dizer uma palavra. A porta de metal bateu atrás dela com um som pesado, definitivo, trancando-a do lado de fora. O ar frio de Paris cheirava a lixo molhado e à chuva fina que começava a cair. Do outro lado da parede, a música da passarela explodiu, seguida por uma onda de aplausos ensurdecedora. O som do seu sucesso sendo roubado.
As lágrimas, contidas pela adrenalina e pelo choque, vieram de uma vez, quentes e amargas. Ela se encolheu contra os tijolos frios, o corpo tremendo com soluços que ninguém ouviria. Foi quando os faróis de um carro varreram a ruela escura, parando a poucos metros. Um Rolls-Royce prateado, silencioso como uma aparição.
A porta traseira se abriu. Um homem surgiu, alto, impecavelmente vestido com um terno escuro que parecia ter sido esculpido em seu corpo. Ele se moveu com uma calma predatória, o rosto uma máscara de traços angulares e indiferença polida. Parou sob a luz fraca de um poste, e Helena o reconheceu das colunas sociais: Thomas Croft. O bilionário recluso. O predador corporativo.
Ele não perguntou se ela estava bem. Seus olhos escuros a avaliaram metodicamente, do rosto manchado de lágrimas à roupa simples de trabalho. A voz dele, quando veio, era um barítono grave que parecia absorver a luz ao redor.
— Elas nem esperaram os aplausos terminarem para descartar a arquiteta de tudo.
Helena congelou, as lágrimas parando em seu rosto. Como ele sabia? Ele deu mais um passo, o cheiro de seu perfume sutil e caro — terra e ozônio depois da chuva. Uma distância íntima e, ainda assim, impessoal.
— Eu não… — ela tentou, a voz rouca. — Eu não sei quem o senhor é.
— Não. — O olhar dele a prendeu, afiado, analítico. — O que você precisa saber é que o que aconteceu ali não foi o fim. Foi um teste.
Um riso quebrado, sem humor, escapou dos lábios de Helena. — Um teste? Não me sobrou nada. Elas levaram tudo.
— Elas levaram seus cadernos. Seu emprego. — Thomas Croft inclinou a cabeça, e pela primeira vez, um brilho perigoso acendeu em seus olhos. — Mas deixaram seu talento. E, mais importante, seu nome. O nome que seu pai construiu.
Ele tirou um cartão de visita do bolso interno do paletó. Preto fosco, pesado. Gravado em prata, apenas um nome e um número. Ele o estendeu. A mão de Helena tremeu quando ela o pegou. O cartão estava gelado como a promessa em sua voz.
— Há duas formas de sair desta rua, Helena — disse ele, o tom baixo, um segredo compartilhado na noite fria. — Esquecida e destruída… ou entrando neste carro para construir um império tão grande que a Maison Moreau pareça uma lojinha de bairro.
Sem esperar resposta, ele deu as costas e retornou ao Rolls-Royce. A porta traseira permaneceu aberta, derramando uma luz quente e dourada sobre o asfalto molhado. Um convite. Um desafio.
Helena olhou para o cartão em sua mão trêmula e depois para a porta aberta. O som dos aplausos ainda ecoava em sua mente, mas agora, sob o frio da humilhação, algo novo começava a arder. E, pela primeira vez naquela noite, o fogo queimou mais forte que as lágrimas.