O silêncio dentro do Rolls-Royce era mais denso que o veludo dos assentos. Helena não olhou para o homem ao seu lado. Seus olhos estavam fixos nas gotas de chuva que escorriam pelo vidro, distorcendo as luzes de Paris em borrões de neon. Cada gota era uma lágrima que ela não se permitia mais chorar. O cartão de visita de Thomas Croft pesava em sua mão, as bordas afiadas pressionando sua palma. Uma âncora ou uma pedra de afogamento. Ela ainda não sabia.
O carro deslizou para uma garagem subterrânea, de um branco clínico, e parou. Thomas saiu antes que um motorista pudesse abrir a porta e esperou por ela do lado de fora. Sem impaciência, apenas com uma quietude que era, em si, uma forma de pressão. Helena respirou fundo, o ar ainda com cheiro de couro novo e do perfume dele, e o seguiu para dentro de um elevador privado. As portas se fecharam, espelhando-a de volta para si mesma: o cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos, a expressão de quem havia perdido uma guerra. O homem ao seu lado parecia uma estátua de mármore polido.
O elevador abriu diretamente em um escritório que era menos um cômodo e mais um observatório. Uma parede inteira de vidro revelava Paris aos seus pés, as luzes da cidade cintilando como um tapete de diamantes. Não havia fotos, nem livros. Apenas uma mesa de ébano maciço, duas cadeiras e uma escultura de metal retorcido que parecia ter sido congelada no meio de uma explosão. Era o espaço de um homem que não precisava de lembranças.
— Sente-se. — A voz dele cortou o silêncio. Um comando, não um convite.
Helena sentou-se na borda da cadeira, a postura rígida, a bolsa vazia em seu colo. Thomas contornou a mesa e permaneceu de pé, as mãos nos bolsos, a cidade emoldurando sua silhueta escura.
— Beatrice Moreau é gananciosa e Isabelle é um eco. Juntas, elas são previsíveis. E a previsibilidade é uma fraqueza que eu gosto de explorar.
Helena ergueu o queixo. A dormência começava a dar lugar a uma raiva fria. — O que o senhor quer de mim?
— Não é o que eu quero de você. É o que eu quero *para* você. E, por consequência, para mim. — Ele se moveu, finalmente, servindo dois copos de água de uma jarra de cristal. Pousou um na frente dela. — Há quinze anos, meu pai tentou fechar uma parceria com a Maison Moreau, na época comandada pelo seu pai. Beatrice sabotou o acordo. Sutilmente. De forma que meu pai parecesse incompetente e o seu, traído. Custou-nos milhões. E a reputação dele.
A revelação a atingiu não como uma surpresa, mas como uma peça que se encaixa em um quebra-cabeça que ela nem sabia que estava montando.
— Vingança — ela sussurrou. A palavra tinha um gosto metálico.
— Justiça. — Ele a corrigiu, o olhar fixo no dela. — Elas roubaram você hoje à noite. Mas seu nome, o nome do seu pai, elas vêm roubando aos poucos há anos. Eu quero tirá-las do tabuleiro. Destruir a credibilidade da marca Moreau e expor Beatrice pelo que ela é. Para isso, preciso de uma arma que elas não vejam chegando. Preciso de você.
O copo de água suava sobre a madeira escura. A mão de Helena tremeu ao tocá-lo. — Eu não sou uma arma. Eu sou uma costureira.
— Você é a filha de Jean-Luc Dubois. Você sangra talento e conhece cada costura fraca daquela empresa, literal e figurativamente. — Ele se inclinou sobre a mesa, o poder em seus olhos era quase físico. — Eu ofereço os recursos. O capital. A estratégia legal. Crio uma nova marca do zero, com você como a força criativa anônima. Uma parceira fantasma. Nós sangraremos os fornecedores delas, interceptaremos seus clientes e, quando chegar a hora, daremos o golpe final. Você terá seu nome de volta. E eu, a minha dívida paga.
A mente de Helena girava. A proposta era monstruosa e perfeita. Era tudo o que a parte mais sombria de seu coração desejava. Mas a que custo? Usar o legado de sua mãe, a pureza de sua arte, como um instrumento de vingança?
— Por que não faz isso sozinho? O senhor tem dinheiro para comprar a Maison Moreau dez vezes.
Um brilho de algo que se parecia com respeito passou pelo rosto dele. — Porque comprar é grosseiro. E não ensina a lição. Eu não quero o império delas. Eu quero que elas o vejam desmoronar nas mãos da pessoa que elas mais subestimaram. Quero que a humilhação seja tão pública quanto a sua foi hoje.
A imagem de Beatrice jogando sua credencial no lixo voltou com força. A expressão triunfante de Isabelle no espelho. O som dos aplausos do outro lado da porta.
Helena empurrou o copo d’água para o lado. O pequeno ruído foi o único som no escritório por um longo momento. Era uma rejeição ao consolo. Uma escolha.
— Quais são as condições? — sua voz saiu firme, desprovida da fragilidade de horas atrás.
Thomas não sorriu. A satisfação dele era algo mais frio, mais interno. Ele se endireitou, voltando a ser a figura distante contra a janela. — Lealdade absoluta. Discrição total. E você fará exatamente o que eu disser, quando eu disser. Em troca, cinquenta por cento dos lucros de tudo o que construirmos. E a Maison Moreau em uma bandeja de prata.
Ela se levantou. O chão sob seus pés parecia mais firme. A garota que chorava na rua de serviço tinha ficado para trás, na chuva. Diante dele estava outra pessoa, forjada no fogo daquela noite.
— Eu aceito.
Ele a observou, a cabeça levemente inclinada, como se estivesse catalogando a mudança nela. Ele caminhou até um armário laqueado, abriu uma gaveta e retirou uma pasta fina de couro preto. Colocou-a sobre a mesa, entre eles.
— Ótimo.
Helena olhou para a pasta, depois para ele. A parceria estava selada. A aliança, forjada. O ar estava carregado com o peso do que viria a seguir.
Thomas fez um gesto com a mão em direção à pasta.
— Abra. O passado da sua mãe é o nosso futuro.