A Vingança Veste Alta Costura
Cap. 4 de 20 · 15%

Uma Nova Identidade, Uma Nova Roupa

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O dia seguinte à sua ruína não começou com promessas, mas com o rangido de um elevador de carga e o cheiro de poeira e metal. Thomas Croft não disse para onde iam, e Helena não perguntou. O silêncio no cubículo ascendente era um acordo tácito: o passado estava no térreo; o futuro, em algum lugar acima. Quando as portas se abriram, não revelaram um escritório, mas um santuário. Uma luz leitosa, vinda de claraboias monumentais, banhava um loft no Marais tão vasto que parecia conter o céu inteiro. Pilhas de tecido escalavam as paredes como uma biblioteca de cores e texturas, mapas de seda e veludo esperando por um explorador. E no centro daquele caos ordenado, um homem de costas para eles, envolto em um casaco de veludo vinho, desenhava em um tablet com a fúria de um maestro regendo uma tempestade. Ele não se virou quando o elevador anunciou a chegada deles. Thomas a guiou para dentro daquele domínio, o som dos seus passos abafado pela imensidão. — Henri, esta é Helena. — Thomas, meu caro, já lhe disse que só trabalho com inspiração divina, não com interrupções mortais — a voz do homem era cortante, sem desviar o olhar da tela. — A inspiração que você procura — Thomas rebateu, a voz impassível, um contraste gelado à teatralidade do outro — está no sangue dela. O homem, Henri Leclerc, finalmente parou. Ele se virou, e seus olhos, de um azul surpreendente emoldurado por óculos vermelhos, percorreram Helena. Não era um olhar de boas-vindas. Era uma autópsia. Ele a dissecou da cabeça aos pés, avaliando, julgando. Helena sentiu o impulso primitivo de se encolher, mas se forçou a encontrar aquele olhar, a espinha ereta. A humilhação de ontem havia lhe roubado tudo, menos a postura. — O que você usava na noite em que foi expulsa? — Henri perguntou, a voz abrupta, dispensando formalidades. Helena piscou, pega de surpresa. — Um vestido que eu fiz. Preto. Simples. — E elas? Beatrice e Isabelle? — Beatrice, um tafetá vermelho. Isabelle... dourado, com lantejoulas. Henri estalou a língua, um som de puro desdém. — Grosseiro. Previsível. O barulho tentando se passar por música. — Ele largou o tablet e avançou, circulando-a como um predador. — Thomas me disse que você possui o toque. Que pode transformar tecido em poder. Prove. Ele parou diante de uma mesa de corte vazia, onde repousavam um bastão de carvão e um rolo de papel virgem. O gesto com que apontou para eles era um desafio. Um duelo em seu território sagrado. Ao longe, apoiado em um pilar de ferro com os braços cruzados, Thomas observava. Um espectador silencioso na arena que ele mesmo montara. As mãos de Helena tremeram. Aquele era Henri Leclerc, o gênio recluso cujas criações eram lendas. E ela... a costureira anônima. A filha esquecida. Contudo, o cheiro do lugar — giz, seda crua, a eletricidade da criação — era o seu idioma nativo. Era o ar que ela nasceu para respirar. Ela ignorou o carvão. Seus olhos varreram o ateliê e pousaram em uma caixa de retalhos. Com a determinação de quem reconhece suas verdadeiras ferramentas, ela se aproximou, mergulhou a mão e tirou um pedaço de organza cinza-pérola e um fragmento de veludo negro. Voltou à mesa e, em vez de desenhar, começou a trabalhar sobre um pequeno manequim esquecido ali. Suas mãos se moveram com memória própria, uma dança de dobras, torções e alfinetes. Não era um desenho; era uma declaração. A fluidez etérea da organza contra a gravidade do veludo. A promessa de movimento contido, uma elegância que sussurrava em vez de gritar. Henri observava, os olhos semicerrados. Thomas não se moveu, mas Helena sentia seu olhar como um peso físico, uma atenção tão concentrada que queimava mais que o escrutínio de Leclerc. Depois de um minuto suspenso no tempo, a mão de Helena parou. A pequena escultura de tecido era uma frase inacabada, uma pergunta feita em seda e sombra. Henri se aproximou devagar. Estendeu uma mão trêmula e tocou a dobra que ela criara no veludo, um toque quase reverente. — A garota tem a mão da mãe — ele sussurrou para o nada, sua voz um fio de espanto. Então, seus olhos azuis encontraram os de Helena, e pela primeira vez, brilhavam com algo além de arrogância. Reconhecimento. — Mas o fogo... o fogo é todo dela. O ar escapou dos pulmões de Helena. Era o alívio e o pânico de ser verdadeiramente vista. — Certo! — Henri bateu palmas, o som estalando no silêncio. — Vamos criar um fantasma. Uma marca nascida das cinzas, sem rosto, sem história. Apenas uma assinatura tão poderosa que fará o resto de Paris parecer cópia barata. — Ele voltou ao seu tablet, os dedos agora voando com um propósito renovado. — Pense, garota. Quem é você, agora que não é mais uma Moreau? Helena olhou para Thomas, que lhe deu um aceno quase imperceptível. *A sua vez.* — Sou anônima — respondeu ela, a voz firme. — Mas meu trabalho não será. Quero vestidos que se movam como segredos. Que sejam armaduras disfarçadas de seda. Que prometam poder, não submissão. — Armaduras — Henri repetiu, e um sorriso genuíno finalmente quebrou sua fachada. — Gosto disso. As horas seguintes foram um borrão febril. O ateliê se tornou um vórtice de criatividade, com Henri traduzindo as ideias de Helena em croquis que eram poesia e guerra. Um casaco com um ombro que se erguia como um escudo. Um vestido de noite cuja cauda escorria como tinta no chão. Cada linha de Henri era um prego no caixão da antiga Helena; cada ideia dela, a fundação de um novo império. A dor ainda estava lá, mas agora era combustível. Thomas permaneceu, seu silêncio uma presença constante e enigmática. Ele não via mais a garota destruída na calçada. Via a arma que estava forjando tomar consciência do próprio poder, da sua letalidade. Ao final da tarde, uma coleção inteira estava espalhada sobre a mesa. Uma nova identidade pronta para nascer. — Isto tudo — disse Henri, exausto e radiante — precisa de um nome. Thomas se aproximou, os olhos passando pelos desenhos e pousando em um em particular: o vestido que Helena imaginara para o acerto de contas. — Um nome que não revele nada — disse ele. — Mas que signifique tudo. Helena olhou para as armaduras de papel à sua frente. Eram o legado de sua mãe, a arma de Thomas e sua própria dor transformada em beleza. Eram sua justiça. Seu propósito. Seu olhar encontrou o de Thomas sobre a mesa, uma corrente elétrica passando entre eles. — Nêmesis. O nome pairou no ar, carregado de fúria e promessa. Henri sorriu, satisfeito. Mas Thomas ficou sério, seu olhar se intensificando, perscrutando o fundo da alma dela. Ele deu um passo, diminuindo a distância entre eles até que ela pudesse sentir o calor que emanava dele. Sua voz foi um sussurro baixo, destinado apenas a ela. — Nêmesis era a deusa da retribuição. Da vingança inevitável. Mas ela exigia equilíbrio. Um preço. Você está pronta para pagar?
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