A Vingança Veste Alta Costura
Cap. 3 de 20 · 10%

O Segredo do Testamento

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A caneta de prata era pesada, fria. Uma arma disfarçada de instrumento de escrita. Helena a segurava sobre o documento no banco de couro do carro, a uma assinatura de entregar a um estranho o poder sobre o fantasma de sua mãe. O motor do carro roncava baixo, um monstro impaciente, enquanto Paris passava borrada pela janela, indiferente ao pacto que estava prestes a ser selado ali dentro. Thomas Croft não a apressou. Ele apenas a observava do outro lado daquele casulo de luxo, o olhar indecifrável. A confiança que ele pedia era cega, absoluta. Assinar era saltar de um penhasco, esperando que a promessa de vingança dele fosse o chão. Com a mão trêmula, ela traçou seu nome. A tinta preta pareceu sugar o pouco de luz que entrava no carro. Um sacrifício. Ele pegou o papel, verificou a assinatura com um aceno quase imperceptível e o guardou em uma pasta. O acordo estava feito. — Meu advogado é o melhor de Paris — disse Thomas, quebrando o silêncio enquanto o carro deslizava para uma parada. — O que significa que ele é discreto, eficiente e obscenamente caro. Não o decepcione. O escritório na Place Vendôme não tinha janelas, apenas paredes de mogno que pareciam ter absorvido segredos de séculos. O ar era rarefeito. O advogado, Monsieur Valois, era um homem esguio com um terno que valia mais do que tudo que Helena possuía. Ele cumprimentou Thomas com respeito contido e dirigiu a ela um olhar que a catalogou e a dispensou em um único segundo. Em uma mesa longa e polida, um único envelope selado a aguardava. A caligrafia elegante na frente fez seu coração parar. *Anne Dubois*. Era a letra de sua mãe, um eco de contos de ninar e conselhos sussurrados. Uma dor aguda, física, a atravessou, tão intensa que ela teve que cravar as unhas na palma da mão para não levar a mão ao peito. — O testamento principal é conhecido — começou Valois, sua voz lisa como seda velha. — Seu pai era o herdeiro. Com o casamento subsequente, o patrimônio do casal, incluindo a Maison Moreau, passou legalmente para a viúva, Madame Beatrice. Fatos. Frios e cruéis. A história de sua desgraça, resumida em uma frase. Helena assentiu, a garganta fechada. — Contudo... — Valois fez uma pausa, o timing de um dramaturgo. — Sua mãe deixou um anexo. Um codicilo, com instruções severas. Só poderia ser aberto a seu pedido expresso, senhorita, ou quando completasse vinte e cinco anos. Ela tinha vinte e três. O advogado pegou um estilete de prata e, com um gesto preciso, rompeu o selo de cera vermelha. O som cortou o silêncio da sala. Ele deslizou as folhas na direção dela. O texto era uma selva de jargão jurídico, impenetrável. Seus olhos corriam pelas páginas, procurando um número, um endereço, um nome que significasse salvação. Nada. A esperança frágil que a sustentara começou a se desfazer em pó. Era isso. Uma armadilha burocrática, uma última piada cruel do destino. — Eu... não entendo — sussurrou, a voz se quebrando. A humilhação da rua de serviço voltou com força, tingindo seu rosto de vergonha. O dedo de Thomas surgiu ao lado de sua mão. Longo, elegante, não a tocou, mas ela sentiu o calor dele mesmo assim. Ele bateu duas vezes em um parágrafo no final da segunda página, quase escondido. *“...a totalidade da propriedade intelectual registrada sob o protocolo 7.33B, incluindo, mas não se limitando a, patentes de composição de fibra e processos de tecelagem associados, conhecidos comercialmente como ‘Ethereal’, fica legada em sua inteireza à minha única filha, Helena Dubois.”* Ethereal. O nome floresceu em sua mente, arrancado de uma memória de infância. Um sussurro. O projeto secreto de sua mãe, o trabalho de uma vida. Um tecido que flutuava como fumaça e era forte como uma promessa. Todos diziam que tinha sido abandonado, que os cadernos haviam sido queimados. — A patente... — sua própria voz soou distante. — Ela registrou a patente. — E a renovou. Religiosamente. Todos os anos — confirmou Valois, pegando os óculos. — Através de um fundo fiduciário que sua mãe estabeleceu. O registro está ativo. E a propriedade é, inequivocamente, sua. Helena ergueu a cabeça. O mundo parecia inclinar, o chão de mogno a seus pés de repente instável. Ela não olhou para o advogado, mas para Thomas. E então, ela viu. A mudança. Não foi um choque, nem surpresa. Foi uma súbita e absoluta imobilidade. Ele não olhava mais para os papéis. Seus olhos, antes frios e calculistas, agora a estudavam com uma intensidade predatória, como se a visse pela primeira vez. Como se a costureira quebrada que ele recolheu da sarjeta tivesse se metamorfoseado diante dele. — Beatrice não faz ideia — a voz de Thomas era um murmúrio baixo, quase inaudível, mas carregado de um peso novo. Não. Beatrice só via valor no que podia ser ostentado. O trabalho de Anne era uma relíquia sentimental, um passado que ela se esforçava para enterrar sob camadas de cetim e vulgaridade. Um sorriso mínimo, quase invisível e totalmente desprovido de calor, tocou os lábios de Thomas. Era o sorriso de um mestre de xadrez que não apenas via a jogada vencedora, mas percebia que a peça que ele pensava ser um peão era, na verdade, a rainha. O silêncio no caminho de volta era diferente. Antes, era a quietude da desconfiança. Agora, era o silêncio de um cofre-forte recém-fechado, guardando um segredo de valor incalculável. Helena segurava a cópia do documento, o papel quente em seu colo. Ela não era só uma estilista talentosa. Era uma herdeira. A dona de um mito. De volta ao escritório dele, com a vista de Paris se acendendo para a noite, Thomas parou diante do vidro, de costas para ela. A cidade era um tabuleiro de joias a seus pés. — Meu plano era simples — ele disse, a voz calma. — Usar seu talento, seu conhecimento interno. Dar a você uma agulha para lutar em uma guerra de canhões. Ele se virou. O brilho perigoso em seus olhos estava lá, mas agora era mais nítido, mais focado. Ele não via mais uma vítima. Via uma arma. — Eu estava errado. Sua mãe não lhe deixou uma agulha, Helena. — Ele se aproximou, diminuindo o espaço entre eles até o ar se tornar denso. — Ela lhe deixou o fio do qual todos os tecidos do mundo são feitos. Beatrice acha que roubou a coroa, mas você... você é dona da mina. O queixo dela se ergueu. O aço na espinha de sua mãe era o mesmo que agora a sustentava. Ele parou a um passo dela, o olhar percorrendo seu rosto, avaliando a faísca nos seus olhos, o fogo que a humilhação não conseguiu apagar e que a verdade agora atiçava. A dinâmica entre eles havia se rompido e se refeito. Ele não era mais seu salvador. Ela não era mais sua protegida. Eram forças da natureza prestes a colidir. Thomas inclinou a cabeça, um predador reconhecendo outro. — O plano não é mais destruir a Maison Moreau. Isso é pequeno demais. — Sua voz baixou, íntima, um desafio lançado no crepúsculo. — A questão, agora, é outra. Beatrice Moreau roubou seu nome e seu trabalho. Ela acredita ter roubado seu futuro. Diga-me, Helena... o que, exatamente, você quer tomar dela?
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