As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 3 de 13 · 15%

Um Estranho Interessado

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O sino da porta tocou pela terceira vez. Dessa vez, não era vento. Helena puxou o mata-borrão sobre as cartas e cobriu a tinta azul que manchava a luva branca. O gesto saiu rápido demais. Como se alguém pudesse enxergar, da rua, o segredo aberto sobre o balcão. Outro toque. Curto. Educado. Insistente. Ela levantou os olhos para a vitrine. O homem do lado de fora estava meio dividido pelo reflexo das estantes: casaco escuro, caderno debaixo do braço, sapatos com poeira na sola. O mesmo rosto que vira no funeral. O mesmo olhar que fingia não estar anotando tudo. Helena colocou o livro azul por cima dos envelopes e foi até a porta. Abriu só o bastante para a corrente esticar. — A livraria está fechada. Miguel Vasconcelos ergueu as mãos, uma delas segurando o caderno fechado. — Não vim comprar. — Piorou. Ele olhou para a corrente entre eles. — Miguel Vasconcelos. — Eu sei. — Então pulei a parte constrangedora. — Não pulou o suficiente. Ainda está na minha porta. A rua atrás dele tinha barulho de xícaras, passos apressados e um murmúrio distante que parecia sempre saber mais do que devia. Helena manteve a mão firme na madeira. Miguel inclinou um pouco a cabeça, sem tentar espiar por cima do ombro dela. — Posso entrar por cinco minutos? — Não. — Três? — Você vai reduzir até segundos ou tem um motivo real? — Tenho uma pergunta. — Guarde para a próxima pessoa que abrir. Ele não sorriu. Isso, por algum motivo, a incomodou. — Aurora Duarte escondia coisas para proteger pessoas ou para proteger as coisas? A corrente bateu de leve quando Helena puxou a porta meio centímetro para dentro. — Quem disse isso? — Ninguém que queira repetir em voz alta. — Então é fofoca. — Fofoca costuma errar detalhes. Medo, quase nunca. Helena ficou imóvel. O sino preso acima da porta balançou com a fresta, mas não tocou. Atrás dela, sobre o balcão, o livro azul parecia maior do que todos os móveis da loja. — Você é jornalista — disse ela. — Sou. Fui. Depende do dia e de quem ainda atende minhas ligações. — Que conveniente. — Conveniente seria ter uma reputação inteira. A frase saiu antes que ele pudesse segurá-la. Miguel desviou o olhar para a lateral da porta, como se tivesse revelado mais do que pretendia. Helena fechou a porta. Do lado de fora, ele não bateu de novo. Isso foi pior. Ela contou até cinco, apoiada na madeira descascada. Queria que ele insistisse para poder odiá-lo com mais facilidade. Queria que fosse embora para não precisar admitir que a pergunta tinha acertado um ponto fraco. Abriu a porta sem a corrente. — Três minutos. Miguel entrou e limpou os sapatos no capacho antes de pisar no assoalho. Um gesto pequeno. Quase um pedido de licença. Helena trancou a porta atrás dele. Ele acompanhou o clique da chave. — Costuma prender todos os visitantes? — Só os que fazem perguntas demais. — Então estou no lugar certo. Ele parou perto da entrada. Não avançou para o balcão, não tocou em nada. Os olhos passaram pelas estantes, pelas etiquetas escritas à mão, pela escada encostada ao fundo, pela caixa com papéis de venda mal escondidos. Helena voltou para trás do balcão e ficou entre ele e o livro azul. — Fale. Miguel abriu o caderno numa página limpa, mas não pegou a caneta. — Você encontrou alguma coisa ontem ou hoje. — Isso é uma pergunta? — É a parte em que você me manda sair se eu estiver errado. Helena apoiou as mãos na madeira. A fita no polegar repuxou quando ela dobrou o dedo. — Saia. — Não disse que eu errei. — Você também não disse por que veio. Ele fechou o caderno. — Quero propor uma parceria. Você tem acesso ao que Aurora guardou. Eu tenho método para descobrir o que aquilo significa sem transformar cada pessoa curiosa em fonte bêbada. — Parceria. A palavra saiu como se tivesse gosto ruim. — Eu ajudo a checar nomes, datas, boatos, registros. Em troca, quando houver uma história, tenho exclusividade. Helena soltou uma risada sem humor. — Quando houver uma história. Que delicado. — É melhor do que dizer quando eu publicar o segredo da sua avó. O silêncio caiu pesado. Helena pegou um pano de algodão, dobrou em quatro, depois em oito. A dobra ficou torta. Ela desfez tudo. — Você não sabe o que ela escondeu. — Não. — Não sabe se envolve gente viva. — Talvez envolva. — Não sabe se ela queria que alguém remexesse nisso. Miguel olhou para o livro azul sobre o balcão. — Se não quisesse, teria queimado. Helena parou. Ele continuou, mais baixo: — Quem esconde dentro de um livro não destrói. Só espera alguém com cuidado suficiente para abrir sem rasgar. Ela sentiu raiva por aquilo fazer sentido. Passou a unha numa marca antiga do balcão, uma meia-lua perto da caixa registradora. Aurora deixava marcas assim quando cortava fita com pressa e prometia consertar depois. — Você fala como se conhecesse minha avó. Miguel fechou a boca. Assentiu uma vez. — Não conheci. Desculpe. A desculpa não veio enfeitada. Não tentou comprar nada dela. Por isso entrou um pouco mais fundo do que Helena gostaria. — Você veio por causa dos rumores de tesouro — disse ela. — Vim por causa dos rumores. O tesouro descartei antes do café esfriar. — Rápido. — Tesouro deixa gente animada. Quando falaram desta livraria, ninguém sorriu. Helena alinhou o livro azul com a borda do balcão. O movimento descobriu, por um segundo, a ponta amarelada de um envelope. Miguel viu. Não apontou. Não se aproximou. Apenas virou o corpo na direção de uma estante, como se tivesse escolhido admirar livros velhos. — Vai fingir que não viu? — perguntou ela. — Isso melhora minha chance de ser parceiro ou só piora minha ficha como invasor? — Invasor, por enquanto. — Então não vi. — Mentira fraca. — Ética improvisada. Helena quase sorriu. Quase. O bastante para se irritar consigo mesma. Miguel arrancou uma folha em branco do caderno e colocou na ponta do balcão, longe do livro. — Faça um teste. Me dê uma informação mínima. Uma inicial, uma data, uma frase pela metade. Eu digo o que dá para fazer com ela. Se for inútil, vou embora. — E se não for? — Você ainda pode me pôr para fora. Só vai saber que deixou uma ferramenta do lado de fora. Ferramenta. A palavra funcionou onde confiança não funcionaria. Ferramentas eram úteis. Frias. Guardavam distância. Helena levantou o mata-borrão, escolheu o envelope menos aberto e virou apenas um canto. L. A. Miguel se inclinou, mantendo um palmo inteiro de distância do balcão. — Destinatária. Não assinatura. — Por quê? — Está no canto do envelope, como marca de identificação. Iniciais escondem mais do que revelam. E a letra do envelope é diferente da carta? Helena não respondeu. Ele tocou de leve a folha em branco. — Se for, alguém organizou depois. Talvez Aurora. Talvez outra pessoa. Cartas guardadas por quem não escreveu. A torneira ao fundo pingou uma vez. Miguel olhou para a gaveta, onde a luva manchada ainda aparecia pela fresta. — Tinta azul. Você tocou em algo úmido? — A carta tem décadas. — A tinta não estava fresca. Foi reativada. Choveu ontem. Se manchou a luva, essas cartas pegaram umidade recente. Não estavam em caixa seca. Estavam perto de infiltração, parede fria ou dentro de um livro já danificado. Helena empurrou a gaveta com o quadril. — Você olha demais. — É uma das poucas coisas que ainda faço bem. — E a outra? — Irritar proprietárias de livraria. — Essa está impecável. Ele aceitou sem tentar transformar em charme. Melhor assim. Se tivesse sorrido daquele jeito fácil que homens usam quando querem abrir portas, ela o teria expulsado. Miguel apontou com o queixo para o livro azul. — A lombada foi aberta antes? Helena pegou a espátula de restauração e girou entre os dedos. — Foi. — Então não é um esconderijo esquecido. Alguém acessou depois. Foi usado. A espátula escapou e bateu no balcão. O som atravessou a loja. Miguel não preencheu o silêncio. Só esperou. Helena recolheu a espátula, odiando o próprio tremor. — Tem um nome nas cartas. Augusto Brandão. O rosto dele mudou pouco. Pouquíssimo. Mas o polegar parou de esfregar a borda do caderno. — Esse nome ainda fecha bocas. — Você conhece? — Conheço o peso. O resto eu teria que provar. — Jornalista sempre fala assim? — Jornalista ruim fala com certeza antes de ter prova. Eu já fiz isso uma vez. Helena ergueu os olhos. Miguel passou a mão pela capa do caderno, tirando um pó que não existia. — Não recomendo. Pela primeira vez desde que entrou, ele pareceu menos interessado na história e mais preso a alguma coisa que não queria contar. — Por que precisa disso? — perguntou ela. — Porque algumas portas não abrem mais quando eu bato com meu nome. — Então quer usar o da minha avó como chave. — Quero usar meu trabalho. O nome dela já está nisso, com ou sem matéria. — Resposta bonita. — A honesta é pior. — Tente. Ele demorou. — Publiquei algo antes da hora. Tinha documento, tinha fonte, tinha pressa. Faltou cuidado. Quem pagou a parte suja não fui eu. Helena largou a espátula. — E agora quer cartas antigas para limpar currículo? — Quero fazer uma coisa sem pular etapa. — Com exclusividade. — Com exclusividade — disse ele. — Ainda pago contas. — Quase me comovi. — Eu percebi que não. O canto da boca dele subiu por um segundo, e Helena teve vontade de mandar que parasse. Não porque fosse arrogante. Porque, por um instante, a livraria pareceu menos fria. Ela abriu uma das cartas e releu o trecho sobre a velha estação. Miguel acompanhou o movimento dos olhos dela, não o papel. — Tem um lugar marcado — disse ele. Helena fechou a carta. — Você não leu. — Não precisei. Quando alguém guarda cartas, o perigo costuma estar no encontro, não na saudade. E você protegeu essa parte com peso, não com o livro. É a parte que importa. — Você é irritante. — Também consta no currículo. Helena pegou uma ficha em branco na gaveta. Escreveu três linhas. Riscou uma. Depois outra. Ela não queria parceria. Parceria tinha cheiro de contrato ruim, mão alheia em papel frágil, gente opinando sobre o que não sentia. Mas a velha estação era um lugar. Lugar deixava registro, reforma, acidente, testemunha. Ela sabia cuidar de papel. Miguel sabia fazer perguntas que mudavam o ar de uma sala. A livraria rangeu ao redor deles, cheia de livros fechados demais. Helena empurrou a ficha pelo balcão. — Experimental. Miguel olhou a palavra escrita. — Defina experimental. — Uma semana. Você pesquisa fora daqui. Eu cuido das cartas. Nada sai da livraria sem minha autorização. Nada é fotografado sem eu saber. Nada de gravador escondido. — Nunca usei gravador escondido. Ela ergueu a ficha. — Quer discutir regra antes de assinar? — Não. Só registrando minha ofensa em silêncio. — Registre baixo. Ele pegou a caneta. Os dedos dos dois ficaram perto demais por um segundo, dividindo o mesmo pedaço de luz no balcão. Nenhum recuou rápido. Nenhum avançou. Miguel assinou. A letra dele era firme. Menor do que Helena esperava. — E minha exclusividade? — perguntou. — Existe se eu decidir que existe matéria. — Isso não é exclusividade. É uma coleira. — A porta está ali. Ele olhou para a porta. Depois para a ficha. Assinou a segunda linha, como se fosse testemunha de si mesmo. Helena guardou o papel na gaveta, por cima da luva manchada. — Miguel. Ele já dava um passo para trás quando parou. — Sim? Helena pousou a mão sobre a chave da livraria, sem soltá-la. — Primeira regra: você não publica nada sem minha permissão.
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