As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 4 de 13 · 23%

Rafael para Lídia

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A régua de metal ficou entre Helena Duarte e Miguel Vasconcelos como uma fronteira. De um lado, as cartas antigas, a lupa, os pesos de restauração e o livro azul já aberto. Do outro, o caderno dele, a caneta e o celular virado com a tela para baixo, como se até a tela precisasse provar inocência. Miguel tinha aceitado a regra sem discutir. Mesmo assim, Helena deixou a régua ali. — Uma semana — ela repetiu. — Com coleira e horário de visita — ele disse. — Se preferir, posso chamar de período de observação com materiais sensíveis. — Fica pior quando você tenta ser simpática. Helena puxou uma caixa baixa debaixo do balcão. Dentro havia livros com lombadas partidas, capas soltas e costuras frouxas. Na manhã anterior, aquela caixa iria para avaliação. Agora, parecia esconder a única coisa capaz de adiar sua fuga. O cheiro de papel fechado subiu quando ela afastou a primeira camada. Poeira, cola velha, um resto de mofo seco. Miguel tirou o casaco e o dobrou no encosto de uma cadeira, sem encostar em livro nenhum. Helena notou. Fingiu que não. — Posso ajudar sem levar bronca? — Pode começar lavando as mãos. — Direto ao afeto. — Direto à higiene. Ele foi até a pia dos fundos. A torneira chiou antes de cuspir água. Enquanto isso, Helena examinou um volume pequeno, de capa verde, com as bordas comidas pelo tempo. A livraria estava silenciosa demais. Do lado de fora, uma bicicleta rangia na rua. Dentro, qualquer folha virada parecia uma confissão. Miguel voltou secando as mãos em papel toalha. — Luvas? — Para você, não. Luva tira sensibilidade e faz gente sem prática rasgar papel achando que está protegendo. — Gente sem prática. — Você pediu para ajudar. — Pedi. Só estou catalogando os insultos. Ela empurrou um bloco de fichas para ele. — Anote título, estado da lombada e qualquer sinal de abertura anterior. Não force nada. Miguel pegou a caneta. Escreveu devagar, com uma letra menor que a dela. Helena passou a espátula pela lombada do livro verde. A cola resistiu um pouco, depois cedeu num estalo seco. Nada. — Este aqui foi remendado — Miguel disse. Ela levantou os olhos. — Aurora remendava tudo. — Aqui tem linha nova por cima de linha antiga. Helena estendeu a mão, mas parou antes de tomar o livro dele. — Mostra. Miguel virou o volume na luz, mantendo-o apoiado na mesa. — Aqui. A linha clara. E por baixo, essa mais escura. Parece que alguém abriu, fechou mal e depois tentou corrigir. Helena pegou a lupa. O vidro aumentou uma cicatriz fina no papel de guarda. Não era só desgaste. Havia marca de lâmina. Ela trouxe o livro para o centro do balcão. A régua de metal foi afastada um palmo. Miguel viu o gesto. Dessa vez, teve inteligência de não sorrir. — Se tiver carta aí dentro — ele disse —, prometo não comemorar. — Ótimo. Papel antigo não gosta de plateia. — Nem você. — Eu gosto de plateia quieta. Ele ergueu as mãos e recuou. Helena cortou o fio antigo com uma lâmina fina. O couro abriu pouco, teimoso, como se ainda obedecesse a quem o fechara anos antes. Entre o miolo e a lombada havia uma dobra de papel presa com cola escurecida. Pequena demais para ser reforço. Reta demais para ser acaso. Ela trabalhou com a pinça. A cola soltou em grãos. Um deles caiu sobre a mesa e se desfez como areia. Miguel inclinou a cadeira para trás, ansioso. A madeira rangeu. Helena olhou para ele. Ele colocou os quatro pés no chão. — Desculpa. — Se cair, eu deixo você no chão até terminar. — Justo. O papel saiu inteiro. Era um envelope estreito, sem iniciais. Só uma mancha oval onde talvez tivesse havido cera. Helena o pousou sobre o mata-borrão e tirou de dentro três folhas dobradas. A primeira trazia a mesma letra das cartas anteriores. Minha Lídia, Helena não leu em voz alta. Seus olhos seguiram as linhas, e o polegar empurrou um grão de cola de um lado para outro até formar uma risca escura no papel manteiga. Miguel deixou a caneta parada. — Posso? Ela virou a carta para ele sem entregar. Miguel se inclinou sobre o balcão, perto o bastante para ler, longe o bastante para não invadir. Hoje passei em frente à escola só para ouvir sua voz pela janela. Você explicava o mapa do país como quem abre uma porta. Minha querida professora, se algum dia eu esquecer o caminho, hei de lembrar primeiro da sua mão segurando o giz. Miguel baixou a cabeça e escreveu uma palavra na ficha: professora. Helena continuou. Não aceito que te chamem de coisa menor por ensinar meninas a ler e meninos a perguntar. Eles têm medo do que você faz com uma sala cheia de crianças: você dá nome ao mundo, e mundo com nome não se deixa mandar tão fácil. A livraria pareceu maior depois daquela frase. Mais funda. Mais viva. Helena olhou para a marca de uma goteira antiga no teto. Aurora costumava colocar uma bacia ali quando chovia. O som das gotas marcava tardes inteiras de dever de casa, enquanto Helena reclamava e a avó fingia não ouvir. — Ela era professora — Miguel disse baixo. — Ou ele gostava de chamá-la assim. — Minha querida professora não soa como fantasia. Soa como alguém tentando proteger uma verdade. Helena anotou: carta 2 — referência à escola — minha querida professora. — Não escreva proteger. — Por quê? — Porque ficha é para o que existe. O resto espera. Miguel prendeu a caneta atrás da orelha, errou, e ela caiu no colo. O riso que escapou dele foi curto. Quase sem defesa. — Sim, chefe. — Não sou sua chefe. — Ainda bem. Eu pediria aumento em vinte minutos. Helena virou a segunda folha. A letra nela era menos bonita. Mais apertada. As palavras se esmagavam nas margens, como se o papel tivesse acabado antes da coragem. Se não entreguei esta carta, foi por falta de coragem de te ver lendo o que todo mundo aqui quer arrancar de mim. Não sou homem de posses, Lídia. Não tenho sobrenome que abra porta, não tenho anel de doutor, não tenho bênção de quem acha que cidade é quintal. Tenho só o que te prometi perto da figueira: se você me chamar, eu vou. Miguel passou a mão pela nuca. — Sobrenome. Anel de doutor. Isso não é sobre qualquer pessoa. — Pode ser sobre muita gente. — Pode. Mas ele pensava em alguém específico. Helena não respondeu. Pegou a terceira folha. Essa tinha apenas meia página escrita. No canto direito, uma assinatura finalmente fechava a carta. Guarde estas linhas se não puder guardar minha voz. Não as mande de volta. Não me escreva na escola. Se Aurora Duarte perguntar, diga que entreguei o pacote errado. Ela vai entender antes de você explicar. Seu, para sempre, R. A inicial ficou no papel como uma porta entreaberta. Miguel se levantou rápido demais. A cadeira raspou no chão. Helena ergueu a mão, e ele parou. — Onde você vai? — Ali — ele apontou para a mesa menor, perto da vitrine. — Pesquisar. Daqui. Sem sair. Sem publicar. Sem respirar em cima das cartas. — O computador é velho. — Eu também tenho fases ruins. Ela fechou as cartas em uma pasta de papel neutro, mas deixou a terceira por cima, presa com dois pesos. O R permaneceu visível. Miguel abriu o notebook na mesa da vitrine. A máquina demorou a acordar. O ventilador interno fez um ruído sofrido. — Data mais antiga? — ele perguntou. Helena conferiu as folhas já catalogadas. — Maio de 1968. — Mais recente? — Julho. Talvez agosto. Uma carta sem data fala do primeiro trem. — Estação, escola, professora, iniciais L. A., um R. e Aurora no meio. — Isso não é pouco. — Não. É o tipo de pouco que dá trabalho. Miguel abriu um acervo digital de jornais antigos. As páginas carregaram tortas, manchadas, com letras falhadas. A primeira busca não trouxe nada. A segunda, também não. — L. A. é buraco — ele murmurou. — Lídia — Helena disse. Ele parou com os dedos sobre o teclado. Ela manteve os olhos nas cartas. — A primeira dizia Minha Lídia. Eu já tinha lido. Miguel digitou o nome. Nada. Tentou variações. Nada. Acrescentou professora. A tela travou, girando um pequeno círculo. Enquanto esperavam, Helena pegou outro livro da caixa. Não o abriu. Só passou a mão pela capa manchada, tirando poeira com cuidado. Havia um recibo antigo marcando uma página, com a letra de Aurora Duarte no verso: não misturar. Duas palavras simples. Uma ordem. Helena colocou o recibo ao lado das cartas. — Aurora separou por algum motivo. — Ou recebeu em momentos diferentes. — Ela não deixaria isso espalhado sem razão. Miguel olhou para ela, não para a tela. — Você fala dela como se ainda estivesse tentando acompanhar o raciocínio dela. A frase acertou um lugar que Helena não queria entregar. Ela fechou a mão ao redor do pincel de limpeza. Algumas cerdas entortaram. — Continue pesquisando. Miguel obedeceu. Sem piada dessa vez. A tela finalmente abriu. Ele aproximou o rosto, ajustou o zoom. Helena foi até a mesa. Ficou atrás da cadeira dele, perto o bastante para ler, longe o bastante para fingir distância. Na página digitalizada, a manchete vinha quebrada por uma mancha escura. Professora deixa cidade sem aviso Abaixo, em letras menores: Lídia Alves, responsável por turmas da escola local, não compareceu às aulas desde terça-feira. Helena leu uma vez. Depois outra. O cheiro do notebook quente se misturou ao papel antigo, plástico e poeira, presente e passado na mesma mesa. — Ela não fugiu — Helena disse. Miguel não corrigiu. Usou o cursor para destacar o trecho. — O jornal disse que deixou a cidade. Não disse que alguém a viu sair. — Não compareceu às aulas é ausência. Não é fuga. — Exato. Ele rolou a página. O texto era curto. Falava de comportamento discreto, rotina quebrada, surpresa entre pais. Nenhuma busca. Nenhuma pergunta. Só uma versão arrumada para caber na coluna. Helena voltou ao balcão e pegou a carta assinada. — Não me escreva na escola — ela leu baixo. — Ele sabia que a escola era vigiada. — Ou que cartas lá seriam abertas. Miguel digitou Lídia Alves desaparecida. Surgiram poucos resultados, todos com o mesmo tom cuidadoso demais. Saída voluntária. Caso encerrado. Nenhum nome de família. Nenhum detalhe. — Agora o R — ele disse. — Rafael? Helena abriu a primeira carta, aquela em que já havia visto a sombra de dois nomes. — Rafael Monteiro. Miguel digitou. A busca demorou menos. O primeiro resultado tinha data de dois dias depois da notícia sobre Lídia Alves. Jovem aprendiz não retorna para casa Miguel clicou. A página abriu em preto e cinza, com uma fotografia quase sem rosto no canto. A legenda falhada dizia: Rafael Monteiro, morador da cidade, visto pela última vez próximo à estação. Helena encostou a lateral da perna na mesa. A madeira gemeu sob o peso. — Próximo à estação. Miguel puxou o caderno e juntou as datas. — Carta fala de encontro antes do primeiro trem. Lídia Alves some numa terça. Rafael Monteiro desaparece dois dias depois, perto da estação. As cartas ficam com Aurora Duarte. — E a cidade conta que ela fugiu. — A cidade contou a versão de alguém. Helena segurou a carta assinada. O papel era leve demais para carregar dois desaparecimentos. Mesmo assim, pesou nos dedos. — Rafael para Lídia — ela disse. Miguel escreveu no alto de uma página nova: Rafael Monteiro para Lídia Alves. Reforçou o traço duas vezes. — Não era tesouro — ele falou. — Era pior. Ele olhou para ela. A resposta que vinha em sua boca morreu antes de nascer. Talvez fosse uma pergunta. Talvez fosse cuidado. Helena não quis descobrir. — Posso salvar a página? — ele perguntou. — Não. — Imprimir? — Também não. — Fotografar a tela? Helena apontou para o caderno. — À mão. — Você é uma pessoa difícil. — Sou uma pessoa com cartas que sobreviveram cinquenta anos porque alguém não deixou homem curioso fazer cópia. Miguel abriu a boca, fechou e puxou o caderno. — Essa foi merecida. — Foi. Ele anotou título, data, página, trecho. A letra dele perdeu firmeza em algumas palavras. Não por pressa. Por cuidado demais. A tarde entrou pela vitrine mais amarela. O pó no ar brilhava em pontos pequenos. Helena ajeitou as cartas novas ao lado das antigas. Pela primeira vez, a sequência formava um caminho: escola, livraria, estação. Lídia Alves guardando cartas que não podia responder. Rafael Monteiro pedindo que ela não escrevesse. Aurora Duarte recebendo um pacote errado que nunca fora errado. Miguel continuou vasculhando. De repente, parou. — Tem outro artigo. Helena não se mexeu. — Sobre Rafael? — Sobre Lídia. Publicado no dia seguinte ao primeiro. Ela foi até ele. A tela mostrava uma coluna curta, dessas que se vestem de moral para não parecer ataque. O título vinha sujo, mas legível. Quando a juventude confunde liberdade com falta de juízo Helena apoiou os dedos na borda da mesa, longe do teclado. Miguel rolou devagar. — Quer que eu leia? — Aumente. Ele aumentou. As letras cresceram. A mancha no meio engoliu parte de uma frase, mas algumas palavras apareciam limpas demais. A professora, embora vista por muitos como moça instruída, vinha sendo motivo de comentários por sua proximidade com um rapaz sem posição... Helena sentiu o rosto esquentar. Não era raiva simples. Era vergonha emprestada. Aquelas palavras tinham sido escritas para sujar uma mulher que talvez nem pudesse se defender. Miguel continuou rolando. Fonte respeitável, ligada aos bons costumes e ao futuro jurídico da cidade, afirmou que Lídia Alves demonstrava inclinação leviana e poderia ter partido por vontade própria para evitar constrangimentos... — Fonte respeitável — Helena repetiu. A voz saiu baixa. Firme. Miguel desceu mais um pouco. No rodapé, havia uma nota pequena, quase escondida pela dobra da página digitalizada. Depoimento colhido com o jovem advogado Augusto Brandão. Nenhum dos dois falou. Do lado de fora, alguém passou rindo pela calçada. Dentro da livraria, o nome ficou suspenso entre eles, pesado como uma ameaça que atravessara décadas para bater, enfim, à porta de Helena.
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