As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 5 de 13 · 31%

O Guardião da Cidade

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O nome de Augusto Brandão ainda estava aberto sobre a mesa quando o sino da porta tocou. Helena Duarte não precisou levantar os olhos para saber que não era um cliente. Cliente entrava com dúvida. Aquele toque veio firme, seguro, como se a pessoa do outro lado conhecesse cada tábua da Livraria Aurora e tivesse direito a atravessá-la. Miguel Vasconcelos fechou o caderno antes dela pedir. Foi rápido. Um gesto pequeno. Mas Helena viu. A página onde ele copiara o artigo antigo desapareceu sob a capa gasta de um livro de poesia. O lápis ficou parado entre os dedos dele, como uma pergunta que ainda não devia ser feita. — Senhora Duarte — disse Augusto Brandão, tirando o chapéu. A voz era macia. Polida demais. O tipo de voz que pedia licença enquanto já ocupava a sala inteira. Helena saiu de trás do balcão. Não correu para esconder a pasta das cartas. Não seria tão ingênua. Apenas puxou o mata-borrão sobre ela e alinhou a régua de metal por cima, como se estivesse interrompendo um trabalho comum. — Augusto Brandão. Ele sorriu. Cabelos brancos penteados para trás, terno escuro sem uma dobra, bengala brilhando mais por vaidade do que por necessidade. A livraria parecia menor com ele dentro. — Eu devia ter vindo antes. No funeral, tudo fica tão confuso. Sua avó merecia condolências ditas com calma. — O senhor já as apresentou. — Nunca de forma suficiente para Aurora Duarte. O nome da avó, na boca dele, fez Helena prender os dedos na beirada do balcão. Miguel percebeu. Não olhou para ela, mas virou o corpo um pouco, deixando a cadeira menos presa à mesa. Se precisasse se levantar, conseguiria. A gentileza dele era silenciosa. Por isso incomodava tanto. Augusto caminhou devagar entre as estantes. Não tocou em nada. Mesmo assim, parecia avaliar tudo: a infiltração perto do teto, as caixas no chão, os livros separados para inventário. — Sua avó era uma instituição — ele continuou. — Uma das poucas pessoas desta cidade que entendia o valor da memória. — Curioso — Helena disse. — Nem todo mundo gosta de memória. O sorriso dele não saiu do lugar. — Depende do que se faz com ela. Miguel baixou os olhos para o livro aberto. Estava de cabeça para baixo. Augusto notou. — Miguel Vasconcelos, não é? — Às vezes. — A cidade comenta quando chegam pessoas fazendo perguntas. Miguel ergueu uma sobrancelha. — E comenta quando algumas respostas envelhecem mal? O castão da bengala tocou o assoalho uma vez. Baixo. Controlado. — Jornalistas têm uma relação romântica com ruínas. — Advogados também. Só chamam de patrimônio. Helena desviou o rosto antes que a vontade de sorrir a traísse. Augusto viu mesmo assim. O olhar dele passou de Miguel para ela, e algo pequeno mudou no ar. — Vim ajudar — ele disse, voltando-se para Helena. — Aurora Duarte deixou mais do que livros. Deixou responsabilidades. E, às vezes, responsabilidade vira peso. — Estou acostumada a peso. — Seu trabalho é restaurar objetos, não carregar uma casa inteira nas costas. Ele falava com cuidado, mas cada frase empurrava Helena um passo para fora dali. Como se a livraria já não fosse dela. Como se Aurora tivesse deixado apenas goteiras, poeira e problema. Helena pegou um pano limpo e dobrou em quatro. Uma dobra perfeita. Depois outra. — O senhor veio falar da minha avó ou do imóvel? Augusto soltou uma risada curta. — Direta como ela. — Aprendi alguma coisa. — Então talvez também tenha aprendido que há batalhas que não valem a pena. Miguel parou de fingir leitura. Helena apoiou o pano no balcão. — Que batalha? Augusto abriu as mãos, como se não houvesse nada demais no que dizia. — Esta livraria exige dinheiro. Tempo. Presença. Você tem sua vida fora daqui. Tem talento. Encomendas. Futuro. Não precisa se prender a paredes úmidas e histórias que já deram o que tinham de dar. A pasta sob o mata-borrão pareceu pesar. Cartas antigas. Nomes escondidos. Uma professora chamada Lídia Alves. Um homem chamado Rafael Monteiro. E Aurora, no centro de tudo, guardando o que ninguém mais tivera coragem de guardar. — Histórias incomodam o senhor? — Helena perguntou. — Histórias mal contadas incomodam qualquer pessoa decente. — E quem decide se foram mal contadas? Dessa vez, Augusto demorou meio segundo antes de responder. — A verdade costuma aparecer sozinha, quando não é forçada por curiosos. Miguel fechou o livro. O som foi discreto, mas cortou a sala. Augusto ignorou o aviso e tirou um envelope do bolso interno do paletó. Papel grosso, brasão discreto, aba lacrada. Caro demais para ser apenas condolência. — Existe uma fundação interessada em preservar espaços de valor histórico — ele disse. — Comprariam o imóvel e avaliariam o acervo. Sem burocracia para você. Sem exposição desnecessária. O nome de Aurora Duarte poderia permanecer em uma sala de leitura, talvez numa placa bonita. Helena olhou para o envelope. Não pegou. — Que fundação? — Pessoas sérias. Com recursos. — Pessoas ligadas ao senhor? — Pessoas ligadas ao bem da cidade. Miguel tossiu baixo. Augusto virou o rosto. — Algo errado? — Só alergia. — À poeira? — À palavra vaga. Helena apertou a boca. Augusto também, mas por outro motivo. — Senhor Vasconcelos, a discrição às vezes protege mais do que uma manchete. — E às vezes enterra. O olhar de Augusto esfriou. Por um instante, o homem gentil sumiu e ficou apenas alguém acostumado a fechar portas. — Você deveria saber o preço de publicar antes de entender. O lápis escorregou da mão de Miguel e caiu no chão. Ele levou um segundo a mais do que o necessário para se abaixar. Quando voltou, o rosto estava calmo, mas os dedos seguravam o lápis com força. Helena viu. E entendeu que aquela ferida não era rumor. Era carne. Antes que Augusto usasse o silêncio contra ele, ela tomou o envelope da mão do visitante. — Qual é a oferta? Augusto abriu a proposta e apontou o valor. Alto. Alto o bastante para pagar contas, transporte, meses de aluguel, uma saída limpa. Alto o bastante para fazer a culpa parecer prática. Helena leu as linhas pequenas. Prazo de três dias. Avaliação sem inventário completo. Cláusula de confidencialidade. Ela tocou a palavra com a unha. — Confidencialidade para comprar uma livraria? — Para evitar especulações. Você sabe como as pessoas inventam. — Sei — ela disse, e pensou no artigo antigo. Miguel não falou. Apenas virou o caderno fechado na mesa, escondendo melhor a anotação. Não era só prudência. Era parceria. Ele estava deixando a decisão com ela. Helena dobrou a proposta, colocou de volta no envelope e o levou até a gaveta. Não a gaveta das cartas. Outra. Trancou com uma chave pequena. — Vou analisar depois do inventário. Augusto piscou devagar. — A oferta tem prazo. — O inventário também. — Helena, sua avó tinha orgulho. Muito orgulho. Mas nem todo hábito dela merece ser herdado. — Que hábito? — Apego. — A livros? — A versões. A palavra ficou entre eles como poeira no sol. Miguel se mexeu na cadeira. Helena percebeu a vontade dele de intervir e, pela primeira vez desde que aceitara aquela parceria de uma semana, não se irritou com isso. A presença dele não invadia. Sustentava. Ela saiu de trás do balcão e foi até a porta. Abriu. — Obrigada pela visita. Augusto não se moveu de imediato. — Você é mais parecida com Aurora Duarte do que imagina. — Hoje vou considerar isso um elogio. Ele recolocou o chapéu. Ao passar por Miguel, parou. — Cuidado, rapaz. Nem toda ruína merece ser reaberta. Miguel ergueu o livro, agora do lado certo. — Nem toda casa em pé está limpa. O maxilar de Augusto apertou. Foi rápido, quase nada. Mas Helena viu. E Miguel também. Na soleira, Augusto se voltou uma última vez. A chuva fina deixava a rua cinza atrás dele. O sorriso voltou, doce, antigo, venenoso. — Não perca tempo com fantasmas, minha cara. Veja Lídia Alves. Uma moça leviana, que partiu porque quis. Helena sentiu o sangue esfriar. Miguel abriu o caderno sem dizer uma palavra. Na página, sublinhada duas vezes, estava a mesma frase de vinte e cinco anos antes.
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