Casada com o Inimigo da Minha Família
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O Contrato Inevitável

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Isabella Moretti descobriu que a empresa da família estava falida pelo som de uma caneta. Tec. Tec. Tec. O contador batia a ponta contra a mesa como se aquele ruído pudesse tornar os números menos vermelhos, menos cruéis, menos definitivos. Não tornou. A Moretti Group não sobreviveria a mais um mês. Quando ele saiu, levou consigo a voz baixa, a pena mal disfarçada e a última esperança de que tudo não passasse de um erro contábil. Isabella ficou sozinha na sala de reuniões, diante de pastas separadas por cores bonitas para desastres feios: dívidas, ações trabalhistas, garantias vencidas, fornecedores ameaçando parar entregas. A xícara de café frio, esquecida desde cedo, deixava um círculo escuro sobre a madeira. Do outro lado da parede de vidro, funcionários passavam evitando olhar para dentro. Ainda não sabiam de tudo. Mas empresas farejavam ruína antes dos comunicados oficiais. Isabella fechou a pasta. Abriu de novo. Os números continuavam lá. Ela passou o polegar na borda de uma folha e o papel cortou sua pele. Uma linha fina de sangue surgiu, pequena demais para doer daquele jeito. — Perfeito — murmurou. O celular vibrou. Uma amiga insistente, provavelmente perguntando se ela tinha comido, dormido ou chorado. Isabella virou a tela para baixo. Não tinha resposta para nenhuma dessas coisas. A porta se abriu sem aviso. — Eu não estou recebendo ninguém — disse, antes mesmo de levantar os olhos. — Foi o que me disseram. A voz fez sua coluna endurecer. Nicholas Lancaster entrou como se a sala tivesse sido construída para recebê-lo. Terno escuro, gravata discretamente frouxa, uma pasta de couro na mão. CEO da Sterling Innovations. Herdeiro do sobrenome que seu pai pronunciava como quem cuspia vidro. Ele parou perto da mesa e olhou primeiro para os documentos, depois para o dedo dela. — Você deveria pressionar isso. — Você deveria ter batido. Nicholas inclinou a cabeça. Quase desculpa. Quase insolência. — A recepcionista disse que você estava ocupada. — E isso pareceu um convite? — Parece que você está sem tempo. Isabella soltou uma risada curta. — Que generoso vir assistir ao enterro. Algo passou pelo rosto dele, rápido demais para ser lido. Não era triunfo. Isso a irritou mais do que se fosse. — Sinto muito pelo seu pai. A mão dela fechou sobre a pasta até a capa dobrar. — Não use essa voz comigo. — Não era uma arma. — Tudo em você é uma arma. Nicholas aceitou o golpe sem piscar. Colocou a pasta de couro sobre a mesa com cuidado, como se soubesse que qualquer gesto mais brusco poderia fazê-la quebrar alguma coisa. — Então vou ser direto. — Pela primeira vez. Ele abriu a pasta. Dentro havia um contrato grosso, preso por um clipe prateado. Isabella nem precisou ler o título para sentir o gosto amargo subir. — Não. — Você ainda não viu. — Você entrou aqui no dia em que descobri que a Moretti Group está sangrando, com um contrato na mão. Eu vi o suficiente. Nicholas puxou uma cadeira, mas não se sentou. — Seu conselho quer votar a venda dos ativos até sexta. O banco não vai esperar. Os fornecedores estão prontos para cortar entregas. E há compradores oferecendo centavos por partes da empresa. — Compradores como você. — Se eu quisesse comprar os pedaços, teria mandado alguém. — E perderia o prazer de ver minha cara? — Eu não vim por prazer. A frase caiu seca. Sem charme. Sem defesa. Isabella se levantou. A cadeira arrastou alto demais. — Sua família passou anos arrancando clientes dos Moretti, Nicholas. Contratos desapareceram. Campanhas sujas surgiram. Meu pai teve que lutar por cada centímetro que vocês tentaram tomar. E agora você aparece com cara de solução? — Eu não vim falar do passado. — Claro que não. O passado só incomoda quem sobreviveu a ele. A boca dele endureceu por um segundo. Viu. Pequeno, mas viu. Nicholas empurrou o contrato para o centro da mesa. — Uma fusão. Ela olhou para o papel. — Um resgate com perfume caro. — Uma parceria estruturada. — Com você no controle. — Com nós dois no controle. — Você espera mesmo que eu acredite nisso? — Espero que leia. Isabella não se mexeu. Nicholas virou a primeira página e apontou uma cláusula. — O nome Moretti fica. A equipe principal fica. A carteira ativa fica. Nada de liquidação. Nada de venda fatiada. A Sterling Innovations injeta capital imediato para folha de pagamento e fornecedores críticos. As dívidas são reestruturadas em noventa dias. A palavra “folha” acertou onde ele provavelmente queria. Isabella pensou nos rostos atrás daquele número. Pessoas que trabalhavam ali havia vinte anos. Gente que chamava seu pai pelo primeiro nome. Gente que, naquela manhã, ainda esperava que ela soubesse apagar incêndios como ele. Ela odiou Nicholas por saber onde apertar. — E você ganha o quê? Ele virou outra página. — Entrada em contratos que a Sterling não consegue fechar sozinha. Acesso a um setor em que vocês ainda têm peso. Estabilidade pública depois de meses de rumores contra nós. — Está bonito demais. Onde está a faca? Nicholas sustentou o olhar dela. — O mercado não vai acreditar numa fusão limpa entre Moretti e Lancaster. Não depois de tantos anos de guerra. Os bancos também não. Para segurar investidores, conselho e imprensa, precisamos de uma aliança pública mais forte. Isabella levou dois segundos para entender. Quando entendeu, não deu um passo para trás. Só cruzou os braços com mais força. — Você está me propondo casamento. — Por conveniência. — Que romântico. — Com prazo, separação total de bens pessoais e cláusulas de proteção para os dois. — Você ensaiou essa parte? — No carro. Ela pegou o contrato e folheou rápido. Como advogada, lia armadilhas onde outros viam formalidades. Prazos. Penalidades. Termos vagos. Espaços perigosos. — Dezoito meses — disse. — É o mínimo para estabilizar a fusão. — Doze. — Quinze. — Doze, com revisão aos dez. Qualquer prorrogação só com meu consentimento por escrito. Nicholas a observou. Um canto da boca quase subiu. — Você negocia melhor do que seu conselho imagina. — Meu conselho achava que meu pai era imortal. Não serve como parâmetro. Ele abaixou os olhos para o contrato. — Doze meses. Revisão aos dez. — Sem obrigação de dividir quarto, cama, rotina privada ou qualquer encenação fora do estritamente necessário para imprensa, bancos e conselho. — Concordo. — Eu mantenho poder de veto sobre demissões na Moretti Group pelos primeiros seis meses. — Isso pode travar a reestruturação. — Não pedi para ser confortável. — Veto limitado a cortes acima de determinado número. — Acima de um. Nicholas soltou o ar pelo nariz. — Isabella. Foi a primeira vez que disse o nome dela naquela sala. Sem pressa. Sem ironia. O som ficou tempo demais no ar. Ela pegou a caneta apenas para ocupar a mão. — Não use meu nome para parecer razoável. — Não estou tentando parecer nada. Estou tentando evitar que você prometa o que não pode cumprir. Se a empresa ficar de pé, algumas mudanças vão doer. — Mudança não é desculpa para covardia. — Concordo. A resposta veio rápida. Sem disputa. Isso a desarmou por meio segundo, e ela odiou também esse meio segundo. Nicholas finalmente se sentou. — Quatro meses de veto total. Depois disso, qualquer corte precisa de justificativa assinada por nós dois. — Por que aceitaria isso? — Porque, se você achar que entrei aqui para destruir o que sobrou, esse casamento acaba antes de começar. — Eu não me importo se você perde. — Eu sei. O silêncio que veio depois não era paz. Era uma trégua segurando uma faca atrás das costas. Isabella voltou ao contrato. — Auditoria conjunta. Minha equipe jurídica participa de tudo. — Você é a equipe jurídica. — Então eu participo de tudo. Nicholas passou dois dedos pela sobrancelha, escondendo algo que parecia perigosamente perto de um sorriso. — Você pretende dormir em algum momento deste ano? — Não está no contrato. — Posso incluir como recomendação. — Posso riscar sua recomendação. Ele pegou a própria caneta e começou a anotar as alterações. A manga do paletó subiu, mostrando uma cicatriz fina no pulso. Antiga. Discreta. Humana demais para combinar com ele. Nicholas percebeu o olhar. Isabella virou a página. — Cláusula de confidencialidade ampla demais. Eu não assino nada que me impeça de denunciar crime se encontrar um. Os olhos dele subiram. — Você espera encontrar um? — Com um Lancaster? Eu espero encontrar vários. — Então escreva a exceção. Ela parou. — Sem briga? — Você brigaria pelos dois. A caneta dela tocou o papel. Por um instante, a raiva quase virou outra coisa. Curiosidade, talvez. Perigosa. Inútil. — Meu pai dizia que os Lancaster sorriem enquanto contam as facas. Nicholas ficou quieto tempo demais. — O meu dizia que os Moretti sangram antes de admitir que foram cortados. Não houve orgulho na frase. Nem pedido de desculpa. Só uma parede do lado de lá da parede dela. Isabella escreveu a exceção com letra firme. Cortou duas cláusulas. Ajustou três. Acrescentou multa pesada caso Nicholas tentasse assumir sozinho a Moretti Group. Ele questionou, cedeu, recusou parte, aceitou outra. Nenhum dos dois levantou a voz. A briga morava nas pausas, no papel riscado, nos olhares que duravam um pouco além do seguro. Quando as luzes da sala acenderam sozinhas, a tarde já tinha ido embora. — Última cláusula — disse Isabella. — A narrativa pública será de fusão estratégica. Não resgate. Não caridade. Não homem rico salvando herdeira falida. Nicholas fechou o contrato devagar. — Eu jamais usaria essas palavras. — Mas deixaria outros usarem. — Não. Não deixaria. A firmeza veio tão limpa que ela quase acreditou. Quase era um problema. Isabella olhou para a linha de assinatura. A caneta pesava pouco, mas parecia presa ao teto, ao passado, ao túmulo recente do pai. Se assinasse, entregaria ao inimigo o direito de entrar em sua vida, seus corredores, seu sobrenome. Se não assinasse, talvez na segunda-feira não houvesse salário para ninguém. Nicholas se levantou, mas não se aproximou. — Você pode dizer não. Ela encarou o rosto dele. — E você iria embora? — Iria. — E voltaria com uma proposta de compra em três dias. Ele não negou. A honestidade doeu mais que uma mentira. Isabella pensou no pai naquela mesma sala, mangas arregaçadas, dizendo que uma empresa não era feita de paredes, mas de gente que confiava em alguém para apagar a luz por último. Ela destampou a caneta. Assinou. Isabella Moretti. Sem tremor. Quando empurrou o contrato, os dedos de Nicholas tocaram os dela. Foi um esbarrão pequeno. Pele quente contra pele fria. Mesmo assim, nenhum dos dois se afastou no primeiro segundo. Ele baixou os olhos para a assinatura. — Anunciamos amanhã. — Amanhã eu viro sua noiva. — Amanhã você salva o que é seu. Ela queria odiar a frase. Conseguiu só odiar o quanto precisava dela. O celular vibrou de novo. Isabella pegou o aparelho para desligar, mas parou ao ler a mensagem. O sangue sumiu do rosto antes que ela pudesse impedir. Nicholas percebeu. — O que foi? Ela virou a tela para ele. Reunião emergencial do conselho hoje, às vinte horas. Pauta: venda integral da Moretti Group. Nicholas leu em silêncio. Depois guardou o contrato na pasta, a expressão fechando de um jeito que já não parecia proposta. Parecia guerra. — Então não temos até amanhã. Isabella olhou para a própria assinatura, ainda fresca ao lado de uma pequena mancha de sangue. — Não confunda minha assinatura com confiança. Nicholas abriu a porta para ela. — E não confunda meu sobrenome com o seu único inimigo.
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