A Lancaster Tower tinha vidro demais para uma noite construída sobre coisas que ninguém queria mostrar.
Isabella Moretti saiu do carro antes que o motorista desse a volta. Ergueu o queixo, ajeitou o punho do vestido e deixou os flashes encontrarem um rosto firme. Por dentro, ainda ouvia a voz do conselho falando em responsabilidade enquanto empurrava a Moretti Group para uma venda apressada. Só tinham parado quando Nicholas Lancaster colocou sobre a mesa um contrato assinado e dinheiro suficiente para calar o pânico.
Não era salvação.
Era um freio.
E agora, menos de doze horas depois, ela subia os degraus da torre dele com uma aliança fina no dedo e um sorriso que machucava.
Nicholas a esperava na entrada, impecável de um jeito quase ofensivo. Terno grafite, camisa branca, sem gravata. A falta dela parecia calculada: acessível para as câmeras, perigoso de perto.
Ele baixou os olhos para a mão dela.
— Ficou grande?
Isabella moveu o dedo só o bastante para o aro pegar a luz.
— Ficou conveniente.
O canto da boca dele ameaçou ceder.
— Bom dia para você também.
— É?
— Não. Mas a gente finge.
Do outro lado das portas de vidro, jornalistas, investidores e executivos se amontoavam em torno de um palco montado no saguão. Atrás dele, o nome da Sterling Innovations brilhava enorme na parede.
Isabella parou.
— Onde está o nome da Moretti Group?
Nicholas acompanhou o olhar dela.
— Na apresentação.
— Eu perguntei onde está.
Ele ficou em silêncio por um segundo longo demais.
— Mandei trocar o painel ontem à noite. A equipe não terminou a tempo.
— Claro.
— Isabella.
Ela virou o rosto para ele.
— Hoje eu entro ali como sua noiva. Não como decoração da sua crise.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Nicholas deu um passo mais perto. Não tocou nela. Pior: parou perto o bastante para o ar entre os dois mudar.
— Se você entrar com essa faca nos dentes, eles vão fotografar a faca. Não a empresa.
— E se eu entrar sorrindo para a Sterling, eles enterram a Moretti em pé.
O olhar dele caiu na boca dela por um segundo. Rápido demais para virar intenção. Lento demais para ela fingir que não viu.
Isabella desviou primeiro.
Nicholas ofereceu o braço.
— Então entra comigo e segura a faca embaixo da mesa.
Ela olhou para o braço dele como se fosse uma cláusula mal escrita.
— Você fala isso para todas as noivas de contrato?
— Só para as que ameaçam investidores antes do café.
Um flash estourou do lado de dentro. Tinham sido vistos.
Isabella respirou devagar e pousou a mão no braço dele.
O tecido do paletó era macio. Quente. Quando Nicholas ajustou a postura, a pele dele roçou de leve nos dedos dela. Não houve intenção. O corpo dela, traidor, demorou meio segundo a mais para entender isso.
Nicholas percebeu.
Ela soube porque ele não sorriu.
As portas se abriram, e o barulho veio como uma onda: perguntas, cliques, murmúrios, passos no piso polido. A mão de Nicholas cobriu a dela por um instante, conduzindo sem apertar. Não era posse.
Era aviso público.
Ela odiou o quanto aquilo funcionava.
— Senhor Lancaster, a fusão já foi aprovada?
— Isabella, o casamento tem data?
— A Moretti Group estava mesmo à venda?
— Isso é um resgate?
A palavra bateu nela como um tapa pequeno e preciso.
Nicholas inclinou a cabeça.
— Continua — murmurou.
— Não me mande continuar.
— Não estou mandando. Estou pedindo sem parecer que peço.
Ela soltou um riso curto, seco. Um fotógrafo pegou o momento. Ótimo. A manchete talvez chamasse de cumplicidade.
No palco, Nicholas ficou diante do microfone. Isabella deveria permanecer meio passo atrás, segundo o cerimonial. Ela mudou de posição e ficou ao lado dele.
Nicholas notou.
Não corrigiu.
— Obrigado por virem com tão pouco aviso — começou ele.
A voz dele mudava em público. Não ficava falsa. Ficava maior. Preenchia o saguão como se cada parede tivesse sido construída para obedecer.
— Ontem à noite, iniciamos uma nova fase para duas empresas que, por muito tempo, foram vistas como opostas. A Sterling Innovations e a Moretti Group têm histórias fortes, famílias conhecidas, equipes brilhantes. A partir de hoje, escolhem construir uma ponte onde antes existia disputa.
Ponte.
Isabella apertou a unha contra a palma.
— Essa união não é apenas estratégica — continuou Nicholas. — É pessoal. É a prova de que duas famílias podem deixar velhas rivalidades para trás e olhar na mesma direção.
Velhas rivalidades.
Como se o pai dela tivesse brigado com fantasmas por capricho. Como se contratos perdidos, boatos plantados e portas fechadas fossem birra de sobrenome.
Nicholas virou levemente para ela, ensaiando um gesto de noivo satisfeito.
Isabella deu um passo até o outro microfone.
O saguão aquietou.
Nicholas parou no meio da frase.
Ela sorriu para a plateia. Não para ele.
— A Moretti Group não está deixando nada para trás — disse. — Nem sua história, nem seus funcionários, nem o nome construído por quem veio antes de mim.
As câmeras se moveram como um bicho só.
Nicholas permaneceu imóvel ao lado dela.
— O que começa hoje é uma fusão entre empresas, com responsabilidades claras, auditoria conjunta e proteção das equipes durante a transição. Não é compra. Não é favor. E não é um conto de fadas corporativo.
Um murmúrio correu pelo saguão.
Isabella segurou o microfone com firmeza. A aliança brilhou pequena, quase insolente.
— E, já que a pergunta vai aparecer de qualquer forma, sim, Nicholas Lancaster e eu estamos noivos. O contrato empresarial existe. O casamento será tratado com a discrição que nossa vida pessoal merece. O que importa, hoje, é que nenhuma empresa será desmontada em silêncio.
Nicholas olhou para ela.
Dessa vez, Isabella não desviou.
Um repórter levantou a voz:
— Então o casamento é parte da fusão?
Ela inclinou a cabeça.
— O casamento não substitui governança. Próxima pergunta.
Alguém tossiu. Alguém riu baixo.
Nicholas voltou ao microfone. Havia algo diferente na linha do maxilar dele. Não era irritação simples. Era atenção.
— Como Isabella disse — retomou, com uma calma mais afiada —, essa parceria não será construída por cima de nenhuma das duas histórias. Será construída com as duas.
Ela percebeu a troca.
Pequena. Pública. Importante.
Ele corrigira o discurso por causa dela.
E isso a incomodou de um jeito novo.
Depois vieram fotos oficiais, apertos de mão, água com gás e frases vazias embaladas em perfume caro. Nicholas circulava ao lado dela sem tentar tomar espaço. Quando alguém falava apenas com ele, ele devolvia a pergunta para Isabella. Quando um investidor insinuou que ela devia estar aliviada por ter suporte masculino num momento tão delicado, Nicholas abriu a boca.
Isabella encostou dois dedos no pulso dele.
Um aviso.
Ela respondeu sozinha:
— Estou aliviada por ter cláusulas bem escritas. Elas costumam ser mais úteis.
O homem ficou vermelho. Nicholas bebeu água para esconder alguma coisa parecida com um riso.
— Você vai transformar metade da sala em inimigos antes do almoço — disse ele, baixo.
— Economiza tempo.
— E a outra metade?
— Aprende rápido.
Nicholas se aproximou um pouco para que ninguém ouvisse.
— Você me complicou no palco.
— Seu discurso parecia escrito para apagar meu pai.
A expressão dele fechou.
— Não foi essa a intenção.
— Intenção é uma palavra bonita para quem tem microfone.
Ele segurou a taça com mais força. O vidro fez um som baixo contra o anel dele.
— Eu precisava vender estabilidade.
— Venda. Mas não venda mentira usando meu sobrenome.
Um grupo se aproximou, e a conversa morreu antes de mostrar os dentes. Nicholas colocou a mão nas costas dela, acima da cintura, apenas para guiá-la entre duas pessoas. Foi rápido. Educado. O suficiente para qualquer câmera acreditar em intimidade.
O suficiente para a pele dela guardar o calor depois.
Isabella ficou com raiva da própria nuca, que parecia mais atenta do que devia.
Quando o evento começou a esvaziar, Nicholas a conduziu para um corredor lateral. As portas grossas cortaram os flashes e o ruído. O silêncio veio frio, com cheiro distante de café.
Ela tirou a aliança e a girou entre os dedos.
Nicholas olhou para o gesto.
— Já desistiu?
— Estou conferindo se não tem microchip.
— Se tivesse, eu teria escolhido um modelo mais discreto.
— Você acha graça de tudo?
— Não. Só do que impede você de me jogar pela janela.
Isabella ergueu os olhos.
Sem plateia, Nicholas parecia menos polido. Havia sombra sob os olhos, um botão do punho aberto, uma cicatriz fina na mão. Detalhes que não combinavam com o homem liso que ele fingia ser.
— Por que veio ontem? — perguntou ela.
— Porque sua empresa precisava de dinheiro.
— Não. Por que você já tinha o contrato pronto?
O silêncio dele respondeu antes da boca.
Isabella fechou os dedos em torno da aliança.
— A reunião do conselho foi convocada antes da minha assinatura. Você sabia que eles iam tentar vender.
— Suspeitava.
— Suspeitava com um contrato de casamento de doze meses na pasta?
Nicholas olhou para o chão por um segundo. Quando voltou a encará-la, a voz saiu mais baixa.
— Eu sabia que alguém estava acelerando a queda da Moretti Group.
A frase ficou no corredor entre eles.
Fria.
Pesada.
— Alguém quem?
— Ainda não sei.
— Mas sabe que não era só mercado. Nem má gestão. Nem meu pai ficando velho demais para lutar.
Nicholas não respondeu rápido o bastante.
Isabella deu um passo para perto dele. A aliança marcou a palma de sua mão.
— Você me colocou diante de câmeras, falou de união, família e futuro, mas entrou nisso antes de eu saber que estava afundando.
— Eu entrei nisso porque, se esperasse você confiar em mim, não sobraria nada.
A distância entre os dois ficou perigosa.
O olhar dele caiu de novo para a boca dela. Dessa vez, não foi acidente. Isabella sentiu o próprio fôlego encostar no dele antes de perceber que tinha chegado perto demais.
Ela recuou primeiro.
Nicholas não se moveu. Só abriu a mão.
— Coloque a aliança de volta antes que alguém veja.
Isabella olhou para o aro dourado. Devia devolver. Devia jogar no bolso dele. Devia transformar aquela conversa numa briga simples, fácil de vencer.
Em vez disso, encaixou a aliança no dedo.
Serviu sem folga.
Sem ajuste.
Sem surpresa.
Ela levantou a mão devagar entre os dois.
— Há quanto tempo você estava planejando se casar comigo?