Nicholas não respondeu de imediato.
No corredor, o barulho do evento chegava abafado, como se o mundo inteiro tivesse ficado do outro lado de uma porta fechada. Ele olhou para a aliança no dedo de Isabella, depois para ela. Calmo demais. E isso, nela, acendia a vontade de quebrar alguma coisa.
— Tempo suficiente para saber que você diria não se eu pedisse do jeito errado — disse ele.
Isabella soltou um riso curto.
— Existe jeito certo de comprar uma noiva?
— Eu não comprei você.
— Que alívio. Eu já estava pensando em pedir nota fiscal.
A boca dele continuou séria. Os olhos, não. Nicholas Lancaster tinha aquela irritante expressão de quem sempre guardava uma carta escondida na manga.
— Eu preparei outras opções — ele disse. — Fusão sem casamento. Compra parcial. Empréstimo ponte. Entrada de capital sem controle acionário.
— E escolheu casamento porque é romântico?
— Porque era o único plano que o conselho não conseguiria destruir antes da segunda página.
O conselho. A Moretti Group. O nome invisível do pai dela sentado entre os dois.
— Você fala como se conhecesse minha empresa por dentro.
— Conheço o suficiente.
— Isso não é resposta.
— É a que eu posso dar agora.
Isabella deu um passo para trás. O ar frio passou entre eles e desfez o quase contato que vinha se formando sem permissão.
Nicholas tirou um cartão do bolso. Sem brasão, sem enfeite. Apenas um endereço e um horário escrito à mão.
— Hoje. Oito horas.
Ela nem pegou.
— O que é isso?
— A casa.
— Sua casa?
— A mansão Lancaster.
Isabella levantou os olhos devagar.
— Não.
— Você nem ouviu.
— Ouvi o bastante. Você quer me colocar dentro da sua casa como se eu fosse mais uma cláusula da fusão.
— Quero impedir que amanhã algum fotógrafo descubra que minha noiva mora do outro lado da cidade, cercada de caixas, e transforme isso em manchete.
— Eu lido com manchetes.
— A Moretti Group, agora, não.
O golpe acertou onde ele queria. Isabella odiou ter ficado em silêncio.
Nicholas não avançou. Apenas manteve o cartão entre os dedos.
— Ala leste. Entrada separada, escritório próprio, segurança discreta. Você mantém sua rotina. Não precisa dividir quarto.
— Que generoso. Quase parece um sequestro com serviço de quarto.
— Estou tentando não falar como noivo.
— Pela primeira vez, uma decisão sensata.
Ele respirou pelo nariz.
— Nós vendemos estabilidade ao mercado. Se cada detalhe parecer uma mentira mal costurada, o dinheiro que entrou ontem evapora em uma semana.
Isabella pegou o cartão. O papel era grosso demais para uma imposição tão feia.
— Uma semana — disse ela.
— Até o casamento?
— Até eu decidir se incendiar sua casa ajuda ou atrapalha a fusão.
Nicholas inclinou a cabeça.
— Vou pedir para tirarem os fósforos da ala leste.
— Peça para não mexerem nas minhas coisas.
— Já foram levadas.
A mão dela fechou no cartão.
— Como é?
— Suas caixas do arquivo privado da Moretti Group. Pedi para entregarem lá. Lacradas.
Ela chegou perto o bastante para sentir nele cheiro de sabonete e café.
— Nunca mais toque no que é meu sem me perguntar.
Nicholas sustentou o olhar.
— Certo.
— Não foi uma sugestão.
— Eu entendi.
Não havia desculpa bonita. Nem defesa. Isso a desarmou por meio segundo, e Isabella detestou até esse meio segundo.
Às oito e dez, ela entrou na mansão Lancaster com uma mala pequena, três pastas de trabalho e a certeza de que cada parede ali lembrava dinheiro antigo fingindo discrição.
A casa era grande demais para ser chamada de casa. Piso escuro, janelas altas, cortinas claras. Nada gritava riqueza. Tudo sussurrava que não precisava.
Um funcionário a levou até a ala leste, deixou a mala e sumiu antes que ela recusasse ajuda pela terceira vez.
O quarto parecia de hotel caro: lençóis brancos, flores sem cheiro, água, frutas. Sobre a escrivaninha, estavam as caixas.
Quatro caixas marrons. Lacradas. Etiquetadas pela Moretti Group. Não pela letra dela.
Isabella tirou o casaco, arregaçou as mangas e pegou uma tesoura.
Nas duas primeiras havia contratos antigos, livros contábeis e fotos de eventos. O pai aparecia em algumas, sempre com o sorriso cansado de fim de noite. Ela virou as fotos para baixo antes que a saudade tivesse tempo de se instalar.
Na terceira caixa, encontrou uma pasta azul sem etiqueta.
Dentro havia folhas soltas, cópias de e-mails, recortes de relatórios e anotações à mão. A letra do pai começava firme. Depois ficava inclinada, apressada.
Sterling Innovations — pagamentos duplicados.
Fornecedor sem lastro.
Repasses cruzados.
Datas circuladas. Valores sublinhados. Três setas apontando para uma sigla que Isabella não reconheceu.
Ela passou o dedo por uma linha riscada com tanta força que quase rasgara o papel.
Verificar antes de acusar.
A frase ficou presa entre os dedos dela.
Uma batida na porta a fez fechar a pasta por instinto.
— Posso? — perguntou Nicholas, do lado de fora.
Isabella olhou para a caixa aberta, para a pasta azul, para a própria mão em cima das folhas.
— Um segundo.
Enfiou a pasta sob um bloco de contratos e abriu a porta.
Nicholas estava sem paletó, mangas dobradas, sem gravata. Menos blindado. Mais perigoso por isso.
— O jantar está pronto.
— Você cozinha?
— Não vamos exagerar na intimidade.
— Pena. Eu queria saber se você também terceiriza o sal.
Ele olhou por cima do ombro dela. Não tentou entrar.
— As caixas chegaram inteiras?
— Depois conversamos sobre sua definição de inteiras.
— Isso é um sim?
— Isso é um aviso.
Nicholas assentiu, mas os olhos passaram pela escrivaninha por um segundo rápido demais.
Isabella fechou mais a porta com o corpo.
Ele viu. E, pior, fingiu que não.
A sala de jantar era bonita de um jeito quase triste. Uma mesa longa, apenas dois lugares postos numa das pontas. Luz baixa, vinho aberto, o jardim escuro atrás das janelas.
Isabella sentou sem esperar gentileza. Nicholas se sentou em frente, não na cabeceira.
Ela reparou.
— Então — disse, pegando o guardanapo. — É aqui que você prende suas vítimas até elas aceitarem cláusulas abusivas?
— Normalmente uso a sala de reuniões. A acústica ajuda.
— Faz sentido. Esta casa parece engolir som.
Nicholas cortou um pedaço do peixe. Demorou a responder.
— Ela sempre foi boa nisso.
A frase saiu baixa. Sem ironia.
Isabella observou a mão dele. A cicatriz fina no pulso apareceu quando a manga subiu. Um detalhe pequeno. Insistente.
— Você cresceu aqui?
— Entre estas paredes, sim.
— Isso foi um sim com ressalva.
— Era uma casa cheia de gente e pouca conversa.
Ela pousou o garfo.
— Gente com sobrenome Lancaster chama isso de tradição?
— Alguns chamam de educação.
— Você?
Nicholas apoiou os talheres com cuidado.
— Eu chamava de jantar.
O silêncio ficou à mesa com eles.
Isabella pegou a taça, mas não bebeu.
— Meu pai fazia o contrário. Falava demais. Contrato, fornecedor, funcionário, processo perdido, processo ganho. Às vezes eu fingia dormir no sofá só para ele parar.
— Funcionava?
— Nunca. Ele abaixava a voz e continuava.
Nicholas olhou para ela por tempo demais.
— Você sente falta disso.
O vidro da taça tocou a mesa com um estalo.
— Não faça isso.
— O quê?
— Essa cara de quem entendeu alguma coisa.
— Eu entendi uma.
— Guarde para você.
Ele ergueu as mãos, rendido. A delicadeza do gesto não parecia ensaiada. Isso a incomodou mais do que uma provocação.
— Por que você saiu daqui? — ela perguntou.
— Quem disse que eu saí?
— Esta mesa está posta como se estranhasse ter gente.
Nicholas olhou ao redor. Pela primeira vez, a mansão pareceu pesar nos ombros dele.
— Depois que assumi a Sterling Innovations, passei a morar perto da empresa. Aqui ficou para reuniões, eventos e datas que alguém acha importantes.
— E agora para abrigar noivas desconfiadas.
— Noivas desconfiadas dão menos trabalho que eventos.
— Você não conhece minha capacidade.
— Estou começando a respeitar.
A palavra ficou entre os dois.
Respeitar.
Isabella ergueu os olhos. Nicholas não sorriu. Não desviou. Havia ali a mesma atenção firme que, no evento, a deixara falar sem ser interrompida.
Ela mexeu no guardanapo no colo.
— Meu pai dizia que respeito de Lancaster vinha com juros.
— O meu dizia que confiança em Moretti era prazo vencido.
— Famílias saudáveis.
— Um brinde?
— Nem morta.
Nicholas quase sorriu. Aquele quase começava a ser um problema.
Uma corrente de ar fez as velas tremerem. Isabella se levantou para pegar a jarra de água no aparador. Nicholas se levantou ao mesmo tempo.
Chegaram juntos.
A mão dele tocou a dela no vidro frio.
Foi só um segundo. Um toque comum. Esquecível.
Isabella não esqueceu.
Nicholas soltou primeiro.
— Pode pegar.
— Que educado.
— Estou tentando sobreviver à semana.
Ela serviu a água, mas, ao voltar, o salto prendeu na borda do tapete. O corpo inclinou. Nicholas segurou seu cotovelo antes que o copo caísse.
O aperto foi firme. Quente. Não puxou demais. Não demorou demais. Ainda assim, quando ele soltou, a pele dela pareceu lembrar.
— O tapete é uma arma Lancaster? — ela perguntou.
— Herança de família.
Dessa vez, ela riu.
Pequeno. Traidor. Vivo.
Nicholas olhou como se ela tivesse lhe dado algo sem querer. Isabella parou na hora.
— Não se acostume.
— Nem deu tempo.
O jantar terminou sem paz e sem guerra aberta. Nicholas a acompanhou até o corredor da ala leste, mantendo distância suficiente para parecer respeito e perto o bastante para parecer escolha.
Na porta do quarto, Isabella segurou a maçaneta.
— Amanhã vou revisar a documentação da fusão.
— Eu esperava que fosse.
— Sem filtro da sua equipe.
— Sem filtro.
— E sem sumir com caixas.
Nicholas encostou o ombro no batente oposto.
— Você achou alguma coisa?
A pergunta veio calma.
Calma demais.
Isabella sentiu a pasta azul como se ela estivesse encostada na pele.
— Achei poeira.
Ele a estudou por um segundo. Depois assentiu.
— Boa noite, Isabella.
O nome dela, naquela voz baixa, não parecia ameaça. Esse era o problema.
Ela fechou a porta antes de responder.
Só então voltou à escrivaninha. Abriu a pasta azul e espalhou as folhas sob a luz amarela do abajur. Leu de novo as datas. Os valores. As setas. As palavras do pai, cada vez mais tortas, mais urgentes.
No verso da última folha, quase escondida pela dobra, havia uma frase curta, escrita com força suficiente para marcar o papel.
Nicholas sabe.