Cinzas Sobre o Mármore
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O Contrato das Cinzas

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A foto no jornal era um borrão de grãos escuros, mas o homem dentro dela era nítido. Cabelos pretos grudados na testa, o corpo tenso sendo empurrado para uma viatura, o rosto virado para o lado. Não o suficiente. Marina Sereni conseguia ver a mancha roxa na mandíbula, um hematoma que parecia florescer na pele pálida. O nome sob a imagem era uma sentença: *Dante Casadei. O Monstro do Armazém 7.* O som de uma porta se abrindo não a fez desviar o olhar. Passos familiares, o cheiro conhecido de café amargo. Seu sócio, um homem cujos ombros carregavam o peso dos casos que ele sempre a aconselhava a evitar, pousou uma xícara na beirada da mesa, longe dos papéis. O café que ele trouxera mais cedo continuava lá, intocado e frio. — Você vai furar o papel se continuar encarando — ele disse, a voz mansa de quem já perdera incontáveis batalhas contra a teimosia dela. — Não se meta nisso, Marina. Ela finalmente levantou a cabeça. Seus olhos tinham a cor do mar de Livorno antes de uma tempestade. — Alguém precisa. — Não você. É o caso errado, a família errada. A promotora, Giuliana Ricci, vai triturá-lo. As testemunhas, o histórico dele... já o condenaram. A própria família Casadei lavou as mãos. Valerio soltou uma nota para a imprensa o chamando de 'desgraça'. Marina deslizou um dedo sobre a foto, o gesto quase uma carícia. — A perícia do incêndio foi inconclusiva. Ele soltou um riso cansado. — Inconclusiva para um santo. Um armazém de tecidos vira cinzas, um vigia morre, e o herdeiro renegado é encontrado nos escombros, bêbado e com um isqueiro no bolso? É um roteiro bom demais para qualquer júri ignorar. Deixe que um defensor público cumpra a formalidade. Cada palavra dele era um prego no caixão do rapaz da foto. E uma pá de terra sobre a memória de outro homem. — Ele merece uma defesa — ela afirmou, a voz baixa, irredutível. — Ele precisa de um milagre, não de uma mártir. Sua carreira finalmente está onde deveria. Por que arriscar tudo por ele? Por um nome que só te trouxe problemas? Ele não precisava dizer mais nada. O nome *Sereni* ainda ecoava com desgraça em alguns corredores do Fórum. A menção do pai dela pairava entre eles, pesada e antiga. Marina virou o rosto para a janela, onde os guindastes do Porto de Livorno se moviam, lentos e majestosos. Franco Sereni amava aquela vista. Ele dizia que ali, no encontro da terra com o mar, a verdade e a mentira se embaralhavam. — Seu pai... — o sócio começou, e parou, sabendo que era um golpe baixo. — Franco também acreditava que a verdade sempre aparecia. Nós dois sabemos como essa história terminou. A pontada veio, precisa como a de um estilete. A mão de Marina, por conta própria, foi para a estante atrás de si, os dedos encontrando a lombada de um pesado volume de direito penal. O presente de formatura dele. A assinatura de Franco Sereni na folha de rosto, a mesma que um dia fora o selo de ouro da perícia criminal e, depois, de um laudo contestado num incêndio de dez anos atrás. Um laudo que o destruiu. Ela se levantou, o movimento fluido e final. O blazer escuro se ajustou aos seus ombros como uma armadura. — Eu vou pegar o caso. Seu sócio apenas balançou a cabeça, um gesto de derrota resignada. Ele pegou sua própria xícara de café e se dirigiu à porta. — Não diga que eu não avisei. O clique suave da porta soou como o fechar de uma cela. Sozinha, Marina dobrou o jornal com um vinco preciso e o guardou em uma gaveta. Fora de vista. Não da mente. Discou o número da secretaria do presídio. — Preciso agendar uma visita. Hoje. — Uma pausa tensa. — O nome do detento é Dante Casadei. O ar da sala de visitas cheirava a desinfetante e tempo perdido. Uma mesa de metal, duas cadeiras parafusadas no chão e um vidro espesso dividindo a realidade em duas. Marina sentou-se, a pasta de couro sobre o colo, a postura impecável. Cada fio do seu coque, cada linha de sua roupa, era uma declaração de controle. Ele entrou, escoltado. Era mais alto do que as fotos sugeriam, os ombros largos preenchendo o uniforme laranja. Havia uma contenção em seu andar, não a de um homem derrotado, mas a de um predador numa jaula pequena demais. O roxo na mandíbula era ainda mais feio sob a luz fria. Ele se sentou e a encarou. O silêncio era sua primeira defesa. Os olhos dele a estudaram. Não eram frios, nem furiosos. Eram... queimados. Olhos que já tinham visto o fogo por dentro. Marina empurrou seu cartão de visitas pela fresta na base do vidro. — Meu nome é Marina Sereni. Sou advogada. Ele olhou para o pequeno retângulo de papel e depois para ela. Um canto de sua boca se ergueu, mas não era um sorriso. Era o fantasma de um. — Não pedi uma advogada. — Você não está em posição de pedir. Está em posição de precisar. A cidade inteira quer ver você queimar. — Que vejam — a resposta foi um sussurro áspero, tão desprovido de medo que a desarmou por um segundo. — Eu li o processo — ela continuou, recuperando o tom profissional. — A narrativa é conveniente. Simples demais. Incêndios nunca são simples. Pela primeira vez, algo vacilou na quietude dele. Uma faísca. Não de esperança, mas de curiosidade atenta. Ele não esperava aquelas palavras. — E o que você quer? — ele perguntou, a voz rouca pelo desuso. — Uma confissão para fazer seu nome às custas do último Casadei a afundar? — Quero a verdade. — As palavras saíram cruas, perigosamente honestas, despidas de qualquer jargão legal. O olhar dele se tornou mais agudo, avaliador. Percorreu o terno caro, as mãos firmes, o rosto que não demonstrava piedade nem repulsa. Ele não via uma salvadora. Via outra jogadora em uma partida cujas regras ele desconhecia. — Todo mundo quer alguma coisa — disse ele, lentamente. — E o que você quer, Dante? Ele riu, um som seco, quebrado. — Eu? Eu queria um cigarro. E que o mundo explodisse. Marina manteve o olhar fixo no dele, deixando o eco da risada amarga morrer no ar estéril. Este era o ponto de virada. — Posso conseguir um julgamento justo. Fazer com que ouçam além dos gritos da promotoria. Mas para isso, eu preciso entrar. — Ela tocou o vidro com a ponta do dedo. — E você precisa me deixar. Dante Casadei se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. A distância física entre eles diminuiu, mas o vidro permaneceu, um abismo transparente. A luz fluorescente cavava sombras sob seus olhos, revelando um cansaço que ia além da exaustão. Ele não era um monstro. Era algo muito mais complicado. Era ruína. Ele a encarou, e pela primeira vez Marina sentiu o peso daquele olhar. Não era vazio. Estava cheio de cinzas. — Por que você? — perguntou ele, a voz tão baixa que era quase um pensamento. — De todos os advogados em Livorno que venderiam a alma para ficar longe de mim... por que diabos foi você que veio?
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