O mármore do Fórum de Livorno era frio sob a sola dos sapatos de Marina, polido a um brilho que refletia as figuras como fantasmas apressados. O ar cheirava a papel velho e a uma ansiedade coletiva que parecia infiltrada nas próprias paredes. Cada passo dela ecoava no corredor, um som nítido e solitário que marcava uma contagem regressiva.
A promotora Giuliana Ricci a aguardava na porta da sala de audiências, uma figura austera em um tailleur cinza-chumbo, braços cruzados. O cabelo loiro, preso num coque sem um único fio rebelde, era um capacete de perfeição.
— Sereni. — A palavra saiu como uma pedra. — Que desperdício de talento. Achei que tivesse mais bom senso.
— Bom senso não ganha casos impossíveis, Ricci. — Marina parou a um passo dela, o blazer escuro criando uma linha divisória contra o cinza da promotora. — É por isso que eles são mais interessantes.
Giuliana soltou uma risada que não aqueceu em nada o corredor. — Não há nada de interessante aqui. Apenas um final já escrito. Vou garantir que ele apodreça na cadeia pelo resto da vida medíocre que lhe resta. Poupe seu tempo. E sua reputação.
Marina não respondeu, apenas a encarou até que a outra desviou o olhar com um estalo de língua, virando-se para entrar na sala. A porta se fechou, abafando o mundo. A batalha nem começara, mas o primeiro golpe já deixara seu rastro no ar.
Um guarda a acompanhou por um corredor mais estreito até uma sala anônima: uma mesa de metal, duas cadeiras, uma janela gradeada exibindo um pedaço de céu indiferente. Dante Casadei entrou sem o som de correntes. Ele não a olhou. Arrastou a cadeira como se pesasse uma tonelada e sentou-se, o corpo tenso no uniforme laranja. Seus olhos se fixaram num arranhão na superfície da mesa. O silêncio que ele trouxe era uma muralha.
Marina abriu sua pasta sobre a mesa. O clique dos anéis do fichário foi o único som a quebrar a quietude.
— Na audiência, a promotora vai pedir a manutenção da sua prisão. Vai listar as provas: você na cena do crime, o isqueiro no seu bolso, seu histórico de brigas. Vai pintar você como um animal. — Ela fez uma pausa, estudando-o. Nenhuma reação. — O juiz vai ouvir. E, sem nada em contrário, vai concordar.
Ele finalmente levantou a cabeça. O fogo nos olhos do dia anterior dera lugar a uma camada de gelo.
— E o que você quer que eu diga? Que estava lá para regar as plantas?
A ironia era uma arma gasta.
— Eu quero a verdade. O que aconteceu naquela noite no Armazém 7?
Dante passou a língua nos lábios, um gesto lento, deliberado. Seus ombros largos estavam perfeitamente imóveis. Era a imobilidade de um predador.
— Eu não me lembro.
As palavras caíram na mesa. Marina não piscou.
— “Eu não me lembro” é uma confissão. Significa que você estava bêbado ou drogado demais para saber o que fazia. Ambas as opções te condenam.
— Talvez seja isso que eu mereça.
O clique seco da pasta de Marina se fechando o fez recuar um milímetro. Ela se inclinou sobre a mesa, o espaço entre eles diminuindo. O cheiro dele era de sabão antisséptico e algo metálico, como resignação.
— Escute bem, Casadei. Eu não trabalho com merecimento, trabalho com fatos. E o fato é que o laudo da perícia diz que o incêndio começou em dois pontos distintos. Usaram um acelerante profissional, do tipo que não deixa resíduo fácil. Isso não é trabalho de um bêbado. É trabalho de quem sabe o que está fazendo.
Algo se moveu nos olhos dele. Uma fresta na muralha. Ele não esperava que ela soubesse daquilo. Que tivesse ido tão fundo, tão rápido.
— Você precisa me dar alguma coisa — ela insistiu, a voz baixa, urgente. — Um álibi. Um nome. Uma razão. Qualquer fio que eu possa puxar. Sem a sua verdade, a versão da promotora Ricci se torna a única. E eles querem um monstro, não um quebra-cabeça. Eu não trabalho com histórias fáceis.
O olhar dele baixou para as mãos dela sobre a pasta. Nenhum anel, nenhum esmalte. Apenas dedos longos e firmes, um relógio funcional no pulso. Uma mulher sem adornos. Tudo nela era arma ou armadura. Ele ergueu os olhos de volta para o rosto dela, e a análise fria havia se transformado em outra coisa.
O tempo na sala pareceu esticar, rarefeito. Havia apenas a respiração dos dois no espaço confinado.
— Por que você se importa? — A pergunta não era mais um desafio. Era uma curiosidade genuína, exausta.
Marina pensou no nome do pai, numa assinatura vergonhosa em um laudo antigo. — Digamos que eu tenho uma dívida com a verdade. E com incêndios mal explicados.
A resposta, embora vaga, pareceu aterrissar com um peso específico para ele. Um aceno de cabeça quase invisível. Uma decisão.
— Está bem. — A voz dele era um fio de navalha. — Você me representa.
A caneta que Marina segurava, até então um bastão rígido entre os dedos, afrouxou o aperto minimamente. Era o primeiro passo.
— Mas com uma condição — ele acrescentou, e a tensão voltou, mais aguda que antes.
Ela esperou, o ar suspenso.
Ele se inclinou para a frente de novo, o rosto a centímetros do dela se não fosse a mesa fria. Cada palavra foi dita com uma precisão mortal.
— Você nunca me pergunta sobre a minha família. Não sobre meu tio, não sobre os negócios deles. Eles não existem para este caso. Para você, eu sou um homem sozinho no mundo.
A condição pairou no ar, pesada como uma lápide. Defender Dante sem poder tocar em Valerio era lutar com as mãos amarradas nas costas. Ele a observava, esperando. Aquele era o preço.
Seu instinto gritava para recusar. Sair dali, encontrar um caso onde a vitória fosse possível. Mas a imagem do nome de seu pai, manchado e derrotado, queimou atrás de seus olhos. A mentira já tinha vencido uma vez.
Ela deu um único e curto aceno de cabeça.
— Aceito.
O alívio no rosto de Dante não foi alívio. Foi algo mais sombrio, o reconhecimento de um cúmplice. Antes que qualquer outra palavra pudesse ser dita, um guarda bateu na porta. A hora da audiência. O pacto estava selado, não em tinta, mas no silêncio que se esticou entre eles enquanto se levantavam.