A estrada para a Villa Casadei não subia, isolava. A cada curva, o asfalto silencioso apagava um pedaço de Livorno, deixando o porto para trás até que ele se tornasse uma maquete distante. A pista decifrada no laudo do pai, a rasura que transformava erro em armação, vibrava contra a pele de Marina, guardada no bolso interno do blazer. Um vestígio de tinta a levara até ali.
Os portões de ferro forjado, monumentais, não rangeram. Deslizaram para dentro em um silêncio oleoso, como se obedecessem a uma vontade, não a um motor. O carro de Marina avançou pelo cascalho branco que estalava sob os pneus, um som agudo e solitário em meio a fileiras de oleandros. A beleza tóxica de suas flores, brancas e rosas, ladeava o caminho até uma casa que parecia ter nascido do próprio topo da colina.
A villa era uma fortaleza de mármore branco que bebia a luz do sol sem devolvê-la. Austera, geométrica, menos um lar que um mausoléu erguido para alguém ainda vivo. Na escadaria, um homem a esperava. Não era um funcionário. Era Valerio Casadei, a personificação daquele poder frio.
Ele desceu os degraus com a fluidez de quem nunca tropeça, o terno de linho claro imune ao calor da tarde. O sorriso era uma peça de ourivesaria, polido e caro, mas os olhos azuis, da cor do mar antes de uma tempestade, permaneceram intocados.
— Doutora Sereni. Uma honra. — A mão que ele estendeu era seca, o aperto firme e cirurgicamente breve. — Estava à sua espera. Por favor.
O interior era um eco gelado do exterior. Um vestíbulo de mármore polido que refletia o vazio, tão silencioso que os saltos de Marina soavam como uma infração. O ar era frio e carregava o cheiro de cera de abelha e um perfume floral pesado, vindo de fora. Não havia retratos, apenas bustos de imperadores romanos em nichos escuros. Cada passo de Valerio era inaudível.
— Aceita algo? Uma água, um café?
— Não, obrigada, senhor Casadei. Tenho pouco tempo. Vim pelos documentos de Dante.
Valerio inclinou a cabeça, o sorriso mecânico intacto. — Direto ao ponto. Gosto disso. Foco é essencial. Dante sempre precisou de alguém com foco. — Ele se virou, um convite mudo para que ela o seguisse. — Meu sobrinho tem uma alma de artista, doutora. Generoso, intenso, mas... pouco afeito à disciplina que nosso mundo exige. Uma combinação que costuma atrair problemas.
A versão oficial da história, servida com a elegância de um veneno em taça de cristal. Ele a guiava por um corredor onde as palavras flutuavam e morriam sem encontrar eco. O tio benevolente, o sobrinho trágico. A promotora Ricci aceitaria aquela versão sem pestanejar.
— Os aposentos dele ficam no andar de cima — disse Valerio, subindo a escadaria monumental. A mão de Marina roçou a balaustrada de mármore, e o frio da pedra pareceu sugar o calor de sua pele.
Diante de uma porta de madeira escura, ele parou. Girou a maçaneta e abriu, recuando para dar passagem. — Gosta de sua privacidade. Sinta-se em casa.
O quarto de Dante era uma ilha de desordem em um mar de perfeição. Era a primeira coisa viva que Marina via na casa. A cama desfeita, uma jaqueta de couro gasta jogada sobre uma poltrona, pilhas de livros no chão que eram lidos, não exibidos. O cheiro não era de cera, mas de maresia, madeira e papel velho. Era o cheiro do homem que ela conhecera na prisão.
— As pastas com os extratos bancários e os registros da empresa estão na mesa. O que precisar. — A voz de Valerio vinha do umbral da porta, um lembrete constante de sua vigilância.
Marina cruzou o quarto, cada passo uma invasão calculada. Sobre a escrivaninha de madeira, ao lado das pastas prometidas, sua atenção foi desviada. Um bloco de mármore branco, inacabado, com as marcas brutas de um cinzel. Ferramentas de escultura dispostas ao lado, e uma fina camada de pó branco, como geada, cobrindo parte da superfície. Com a ponta do indicador, ela tocou o pó. A textura era fina, granulada, real.
Seus olhos varreram o quarto. Numa prateleira, em meio a livros de arte, uma única fotografia. Dante, com uns dezessete anos, o rosto aberto em um sorriso que ela nunca vira. Ele abraçava um homem mais velho, de cabelos grisalhos e mãos grossas, ambos cobertos daquele mesmo pó branco. O homem não era Valerio.
— Ele sempre gostou de pôr a mão na massa. Um traço rústico que, felizmente, não herdou de mim. — Valerio não se movera da porta. — O mestre dele. Um velho artesão. Ensinou Dante a procurar a forma dentro da pedra. Uma pena. Tanta sensibilidade desperdiçada em um hobby.
A palavra “hobby” pairou no ar, carregada de um desprezo aveludado.
Marina se obrigou a olhar para as pastas. Abriu a primeira, os dedos folheando extratos bancários enquanto sua mente catalogava a cena: o mármore, as ferramentas, a foto, o desprezo de Valerio. O homem que se sujava de pó de pedra e lia livros até as páginas se curvarem não combinava com o monstro do Armazém 7.
Com um clique assertivo, ela fechou a maleta de couro, aprisionando os documentos lá dentro.
— Tenho o que preciso por enquanto.
— Excelente. — Valerio se endireitou, o caminho para a saída subitamente livre.
Ele a escoltou de volta pelo corredor silencioso. Na porta da frente, enquanto a luz da tarde invadia o mármore e o perfume enjoativo dos oleandros se infiltrava, ele a fez parar.
— Doutora Sereni. — Ele esperou que ela o encarasse. — Ouvi dizer que a senhora é implacável quando acredita em uma causa.
— Sou implacável na busca pela verdade, senhor Casadei.
Um brilho diferente passou pelos olhos dele, rápido demais para ser analisado. Não era respeito. Era reconhecimento. Um predador que identifica outro.
— A família — ele disse, a palavra caindo com o peso de uma lápide no ar frio — confia que a senhora fará o que é melhor para Dante.
A frase era suave, paternal. Mas a mão que ele pousou em seu ombro era pesada, um gesto que não oferecia apoio, mas fixava-a no lugar. Uma ordem revestida de cortesia.
Marina não moveu um músculo. Manteve o olhar firme no dele, um segundo a mais que o necessário, antes de dar um passo para trás, quebrando o contato físico. O recado fora entregue. E recebido.
De volta ao carro, ela acelerou pelo caminho de cascalho, observando a villa encolher no retrovisor até se tornar um cubo branco e opressivo. Mas o cheiro doce e venenoso dos oleandros parecia ter se agarrado a ela, um perfume que prometia apodrecer de dentro para fora.