O ar do Porto de Livorno era uma mistura densa de sal, diesel e peixe podre que se agarrava à garganta. Marina o inspirou, seu blazer de linho uma peça de museu no meio daquele caos funcional. O cascalho estalava sob os saltos e, para cada guindaste que rangia, uma dezena de olhares se desviava dela no segundo em que notavam sua presença. A ordem de Valerio, polida como uma arma, ainda ecoava em sua mente, mas ali o poder dele era diferente: uma névoa invisível e sufocante, presente no silêncio dos homens.
Ela se aproximou de um grupo de estivadores que dividiam uma garrafa de água à sombra de um contêiner. As risadas morreram no instante em que parou a poucos metros. O silêncio que se instalou era uma resposta antes mesmo da pergunta.
— Meu nome é Marina Sereni. Gostaria de falar sobre a noite do incêndio no Armazém 7.
Um dos homens, o mais velho, de pele queimada como couro, cuspiu no chão. Não perto dos pés dela, mas com uma deliberada falta de respeito que era igualmente clara. Outro virou-se de costas, subitamente fascinado pela ferrugem de uma corrente. Ninguém a olhava nos olhos.
— Sou a advogada de Dante Casadei — ela insistiu, a voz firme. Foi a frase errada. O nome era uma chave que trancava, não abria.
O mais velho finalmente a encarou, os olhos pequenos e duros.
— Não temos nada para falar, doutora. Estávamos trabalhando. Como sempre.
Ele se virou, e o gesto foi um comando. O grupo se dispersou sem outra palavra, deixando-a sozinha na poeira levantada por suas botas.
Frustrada, Marina apertou a alça da pasta de couro. Esperava resistência, não uma conspiração de silêncio. Tentou com um capataz, que ouviu o nome dela, lançou um olhar nervoso para um escritório com persianas semicerradas e balançou a cabeça. “Fale com o escritório.” Lá em cima, a porta permaneceu fechada. O medo tinha uma hierarquia clara.
Enquanto caminhava de volta pelo cais, sentindo o peso dos olhares hostis, uma voz a fez parar.
— Sereni.
A voz era feminina, rouca de exaustão e raiva. Uma mulher de macacão azul manchado de graxa estava parada perto de uma pilha de redes de pesca. O cabelo preto, preso num coque frouxo, escapava em mechas suadas. O rosto era marcado por algo mais profundo que o tempo.
— Eu sou Sofia Moretti.
O nome fez o ar ficar frio. Moretti. Um dos mortos. Franco, o irmão dela, um dos homens do armazém.
— Eu sinto muito pela sua perda, senhora.
Sofia soltou uma risada curta, um som quebrado.
— Você sente? Defendendo um Casadei? Você sente o cheiro do dinheiro deles, isso sim.
As palavras a atingiram em público. Alguns trabalhadores diminuíram o passo, assistindo ao espetáculo.
— Senhora Moretti, meu trabalho é buscar a verdade. Se o homem que eu defendo é inocente…
— Inocente? — A voz de Sofia subiu, vibrando com uma dor palpável. — Meu irmão trabalhou aqui por vinte anos. Vinte anos! Ele só queria se aposentar, ver os netos crescerem. Ele não tinha nada a ver com a sujeira de vocês.
O “vocês” a arrastou para dentro do mesmo círculo de culpa dos Casadei. A defensora do monstro. Marina abriu a boca para responder, para citar a lei, o direito à defesa, mas as frases ensaiadas soaram ocas, patéticas, diante daquela dor.
— Ele estava com medo — continuou Sofia, os olhos escuros brilhando de lágrimas contidas. — Na última semana, mal dormia. Dizia que as coisas estavam estranhas no porto, que gente que não era daqui rondava à noite. E agora ele está morto. E você vem aqui, com seu terninho caro, defender o homem que acendeu o fósforo. Me diga, doutora. Quanto pagam para limpar o sangue das mãos deles?
O mundo de Marina encolheu e se resumiu ao rosto de Sofia. Os sons do porto se tornaram um zumbido distante. Ali, exposta no cais, ela não era uma advogada. Era a mulher que lucrava com a tragédia. As defesas legais, a presunção de inocência, tudo virou cinza na boca. Ela não conseguiu dizer nada.
Sofia esperou uma resposta que não veio. O desprezo em seu rosto era absoluto. Ela se virou e se afastou, os ombros curvados sob um peso que Marina só agora começava a entender.
Marina ficou parada. A pasta de couro pareceu pesar uma tonelada. Os trabalhadores agora a encaravam abertamente. Ela deu as costas e caminhou depressa para o carro, o som dos seus saltos no cascalho rápido demais, quase uma corrida.
***
A sala de visitas do presídio parecia mais fria. Dante estava do outro lado da mesa de metal, imóvel. Mas quando ela entrou, o olhar dele não foi para o rosto dela. Foi para a mão com que ela ajeitou uma pilha de papéis que já estava perfeitamente alinhada, e que mesmo assim tremeu por uma fração de segundo.
Marina pigarreou, forçando o tom profissional.
— Analisei os extratos bancários. Não há nada…
— O porto não foi gentil com você.
Não era uma pergunta. Era uma constatação. Ele a observava agora, os olhos cinzentos focados nela, como se a visse pela primeira vez sem os filtros da desconfiança.
Ela ergueu o queixo, o corpo se enrijecendo para retomar a postura.
— Consegui o que precisava.
— Não — ele disse, a voz baixa e sem hesitação. — Não conseguiu.
Theatrics desmoronaram. O ar escapou dos seus pulmões num suspiro que ela não conseguiu conter.
— Fui recebida com… nada. Silêncio. E uma mulher… — a voz dela quase falhou — a irmã de uma das vítimas. Sofia Moretti. Ela me encontrou.
Dante recostou-se na cadeira, um movimento lento, o primeiro que quebrava sua quietude de estátua. Desviou o olhar para a janela gradeada, para o pedaço de céu sujo. Ficou em silêncio, mas não era o silêncio hostil de antes. Era um silêncio que processava.
Quando ele falou, a aspereza habitual em sua voz havia se dissipado.
— Ela culpou você.
Marina apenas assentiu, incapaz de dar voz à humilhação.
— Eles sempre precisam de um rosto para a culpa — ele disse, quase para si mesmo. — O meu. Agora, o seu. É mais fácil do que culpar o medo.
Ele a encarou de novo. O ceticismo tinha sumido. No lugar, havia uma atenção quieta, um entendimento que não precisava de palavras. Ele não a via mais como uma advogada tentando usar seu nome, mas como alguém que acabara de ser arrastada para os mesmos escombros que ele.
Marina ajeitou-se, pronta para forçar o retorno ao caso, mas ele ergueu a mão, um gesto mínimo que a deteve.
— Você está procurando no lugar errado. Falar com os homens do dia não adianta. Eles têm família, contas para pagar. O medo sempre paga mais que a verdade.
O coração dela deu uma batida forte, pesada. Uma abertura.
— Me dê alguma coisa, Dante. Uma fresta, só isso.
Ele a estudou, o silêncio se esticando, tenso como uma corda de violino. Parecia pesar a promessa que lhe arrancara contra a cena que ela acabara de descrever. Por fim, inclinou-se para a frente, a voz um sussurro que mal atravessava o metal da mesa.
— Procure pelo vigia da noite. O velho Enzo.