[EXPERIMENTO GEMINI PROMPT-HARDENED] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 2 de 5 · 20%

Tinta e Poeira

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O dedo de Helena Duarte parou sobre a tela do celular. Corretor. Vender. Ir embora. Três palavras simples, quase limpas, como se uma vida inteira coubesse dentro delas. Bastava tocar no número, marcar uma visita, assinar papéis e deixar a Livraria Aurora para alguém que não sentisse o peito fechar só de olhar para o balcão. Ela não tocou. O celular ficou virado para baixo sobre a madeira escura, bem ao lado da xícara de chá que já perdera o calor. Helena apoiou as duas mãos no balcão e respirou pelo nariz, devagar. O cheiro de papel antigo continuava ali. Teimoso. Familiar demais. Seu olhar caiu no coração torto entalhado perto da gaveta do caixa. Aos doze anos, ela tinha feito aquilo com um canivete escondido, certa de que Aurora Duarte ficaria furiosa. A avó apenas olhara o estrago, depois para ela, e dissera que alguns livros também carregavam marcas de amor malfeito. Helena passou o polegar pela ranhura. — Eu devia ter ligado de volta — murmurou. A livraria não respondeu. Só estalou em algum canto, como se acomodasse o próprio luto. Ela se afastou antes que a lembrança da última ligação de Aurora abrisse espaço demais. Precisava fazer alguma coisa com as mãos. Qualquer coisa que não fosse pegar o telefone. Na poltrona verde, uma pilha de livros aguardava conserto: capas soltas, lombadas feridas, páginas cansadas. A última fila de pacientes da avó. Helena escolheu o volume de cima. Um romance antigo, capa de couro verde-escuro, cantos gastos, lombada quase descolada. Pesado. Bonito. Do tipo que Aurora teria colocado no colo com cuidado, como quem segura um passarinho machucado. — Só um — disse, para ninguém. — Depois eu ligo. Levou o livro até a bancada dos fundos. As ferramentas de restauração estavam alinhadas dentro de um estojo de couro: espátulas finas, pincéis pequenos, agulhas, linha encerada, um peso de mármore. Tudo limpo. Tudo no lugar. Aurora deixara até a ausência organizada. Helena puxou o banco alto e sentou. Por alguns minutos, permitiu-se esquecer o funeral, as coroas de flores, os abraços apertados de gente que parecia saber mais sobre sua avó do que ela. Abriu o livro com cuidado. O couro reclamou num rangido baixo. As páginas, amareladas, ainda seguravam bem a costura. O dano maior estava na lombada. Então ela percebeu a saliência. Era discreta, quase nada: uma espessura irregular entre a guarda e o primeiro conjunto de folhas. Helena inclinou o livro sob a luz. A cola antiga tinha cedido num canto, formando uma bolsa estreita. Não era descuido. Ela conhecia a diferença. Pegou a espátula de ponta arredondada e a introduziu na abertura com paciência. O papel soltou um suspiro seco. Helena parou, como se o livro pudesse sentir dor. Depois continuou, milímetro por milímetro. Algo se moveu lá dentro. Seu coração deu um salto ridículo. Com dois dedos, puxou o conteúdo escondido. Primeiro veio uma ponta amarelada. Depois quatro envelopes finos, dobrados com tanto cuidado que pareciam ter sido colocados ali no dia anterior e, ao mesmo tempo, há uma vida inteira. Helena os depositou sobre a bancada. Não havia selo. Não havia endereço. Só uma caligrafia inclinada, elegante, feita com tinta azul já desbotada. Para minha Lídia. O mesmo nome no segundo envelope. No terceiro. No quarto. Helena ficou imóvel. Cartas. Não notas. Não recibos antigos. Cartas escondidas dentro de um livro que sua avó pretendia restaurar. Cartas que alguém escrevera para uma mulher chamada Lídia e, por alguma razão, nunca enviara. Ou enviara e recebera de volta. Ou escondera antes que alguém encontrasse. O pensamento a incomodou mais do que deveria. Ela olhou para o celular no balcão, distante o suficiente para fingir que não existia. Vender a livraria parecia fácil quando o lugar era só poeira, contas e lembranças doloridas. Mas agora havia uma pergunta sobre a bancada. Uma pergunta de tinta velha. Helena tocou o primeiro envelope. — Não é da sua conta — disse baixinho. A frase ficou no ar, fraca. Aurora guardava histórias. Guardava bilhetes de clientes dentro de caixas de chá. Guardava flores secas entre páginas. Guardava até ingressos de cinema de pessoas que já nem lembravam ter ido ao cinema. Mas esconder cartas dentro de um livro era diferente. Tinha intenção. Tinha medo. Helena encostou a unha na aba do envelope. Não estava lacrado. Apenas dobrado. Mesmo assim, pareceu uma porta. Ela se levantou, deu dois passos para longe, voltou. Pegou o envelope outra vez. O papel era áspero, delicado, e trazia um cheiro quase apagado de tinta antiga e perfume doce. — Desculpa — sussurrou, sem saber para quem. Antes de abrir, porém, um som vindo da rua a fez erguer a cabeça. Um carro passou devagar. Depois outro silêncio. A cidade parecia espiar pelas frestas. Helena dobrou o envelope com cuidado e o deixou sobre a mesa. Precisava de ar. Precisava não se sentir uma ladra de sentimentos mortos. Apanhou o casaco, trancou a porta da livraria e atravessou a rua em direção ao Café da Praça, levando consigo a sensação de que os quatro envelopes ainda pesavam em suas mãos. *** Miguel Vasconcelos estava havia vinte minutos mexendo uma colher dentro de uma xícara vazia. O café acabara. A vontade de ir embora também. À sua frente, um caderno aberto exibia uma página quase em branco. No canto inferior, ele desenhara um pássaro torto. Ou talvez fosse um guarda-chuva quebrado. Nem ele sabia. Miguel fechou os olhos por um segundo e ouviu o café ao redor: louça batendo, risada baixa, a máquina soltando vapor. Nada ali pedia investigação. Nada tinha urgência. Era exatamente por isso que ele viera para São Bento das Águas, dizia a si mesmo. Para viver sem urgência. A mentira já não convencia nem a colher. Ele abriu o caderno e escreveu uma frase. Riscou. Escreveu outra. Riscou também. Na mesa ao lado, duas senhoras conversavam com a liberdade de quem acredita ser parte da decoração. — A neta voltou tão magra — disse uma delas, mexendo o chá. — Tão fechada. Parecia que alguém tinha colocado vidro em volta dela. Miguel não olhou. Apenas parou de girar a colher. — E você esperava o quê? — respondeu a outra. — Anos sem aparecer. Aurora falava dela como quem segura uma vela no vento. Aurora. A dona da livraria. O funeral da manhã. Miguel viu, por um instante, a mulher de preto ao lado do túmulo. Helena Duarte. O nome tinha sido murmurado perto dele por alguém. Ela permanecera reta durante a cerimônia, mas os dedos apertavam tanto a alça da bolsa que os nós estavam brancos. Quando uma vizinha tentou abraçá-la, Helena deu meio passo para trás antes de se obrigar a aceitar. Dor, Miguel conhecia. Culpa também. As duas tinham jeitos diferentes de morder. — Agora ficou tudo para ela — continuou a primeira senhora. — A casa, a loja... e sabe-se lá o tesouro. A palavra acertou Miguel antes que ele pudesse se defender. Tesouro. Ele pousou a colher devagar. — Que tesouro, criatura? — perguntou a outra, baixando a voz. — Aurora mal cobrava pelos livros que vendia. — Não falo de dinheiro. Falo de segredo. Aquela livraria tem mais passado do que estante. Cartas, fotografias, diários... Aurora guardava coisas que muita gente preferia esquecer. Miguel sentiu o velho impulso acordar, perigoso e conhecido. O corpo inclinou um pouco para a frente. A mão procurou a caneta sem que ele mandasse. — E a menina sabe disso? — Se sabe, não demonstrou. Mas, se mexer onde deve, encontra. Miguel escreveu uma única palavra no caderno: livraria. Ficou olhando para ela. Houve um tempo em que uma palavra bastava para destruir alguém. Ele sabia disso melhor do que gostaria. Uma fonte apressada. Uma manchete forte. Uma certeza bonita demais para ser verdadeira. Depois, silêncio. Pedido de desculpas. Carreira em pedaços. Um homem inocente com a vida virada do avesso. Miguel fechou o caderno. Não era mais aquele homem. Ou queria acreditar que não era. Mesmo assim, deixou algumas moedas sobre a mesa e se levantou. Ao passar pela mesa das senhoras, sorriu com educação. Elas mal notaram. Já falavam de outra coisa. Na porta do café, ele parou. Do outro lado da praça, Helena Duarte saía apressada, sem entrar. Tinha vindo até ali e mudado de ideia no último segundo. O casaco aberto, o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto pálido demais para a tarde clara. Por um instante, ela olhou na direção dele. Miguel não sabia se ela o reconhecia do funeral. Provavelmente não. Ainda assim, havia algo no olhar dela que não combinava com uma mulher pronta para vender uma loja e partir. Era susto. E era curiosidade. Helena desviou primeiro e voltou para a livraria. Miguel ficou onde estava. A história o chamava. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ele se perguntou se tinha o direito de atender. *** Helena fechou a porta da Livraria Aurora com mais força do que pretendia. O passeio até o café não ajudara. As pessoas falavam baixo quando ela passava. Ou talvez ela estivesse ouvindo coisas demais. A palavra tesouro, capturada em pedaços de conversa atrás de uma janela aberta, ainda arranhava sua nuca. Tesouro. Aurora nunca falara de tesouro nenhum. Falava de livros emprestados que não voltavam, de crianças que dobravam páginas, de clientes que juravam odiar romance e compravam dois por semana. Falava de Helena, aparentemente, para todo mundo menos para a própria Helena. Ela voltou à bancada dos fundos. Os quatro envelopes continuavam onde os deixara. Dessa vez, não tentou se convencer de que iria embora. Sentou, ajeitou a luz e abriu o primeiro com um cuidado quase reverente. O papel de dentro estava dobrado em quatro. Ao desdobrá-lo, a tinta azul surgiu como uma voz atravessando décadas. 2 de março de 1968. Minha Lídia, Escrevo porque olhar para você na praça hoje não foi suficiente. Nunca é. Você sorriu para uma criança e eu senti daqui, do outro lado da rua, como se aquele sorriso tivesse atravessado tudo só para me alcançar. A cidade parece pequena demais para o que sinto. E, ao mesmo tempo, grande demais, cheia de olhos, portas entreabertas e bocas prontas. Há um perigo que nos ronda, você sabe. Não usa máscara. Não faz barulho. Mora no sussurro das calçadas, nas cortinas que se mexem quando você passa, nos homens que acham que podem decidir o destino dos outros. Preciso te ver sem fingir que não te vejo. Encontre-me na velha estação depois que o último trem partir. Levarei seu livro. E talvez a coragem de dizer, olhando para você, tudo que esta carta ainda esconde. Seu, Rafael. Helena chegou ao fim e percebeu que estava prendendo a respiração. Rafael. Lídia. Um amor escondido. Um perigo sem nome. A palavra velha estação pareceu crescer no papel, como se tivesse sido escrita para ela também. Helena virou a carta contra a luz, procurando marcas, pistas, qualquer coisa que explicasse por que Aurora esconderia aquilo dentro de um livro antigo. Nada. Só a pressão mais forte da caneta em duas frases. Há um perigo que nos ronda. Encontre-me na velha estação. O celular vibrou no balcão da frente. Helena se levantou, foi até ele e viu o número do corretor ainda aberto na tela, esperando sua covardia ou sua coragem. Ela poderia ligar. Poderia vender. Poderia ir embora antes que aquela cidade abrisse mais uma ferida. Em vez disso, bloqueou a tela. Quando voltou para a bancada, havia uma pequena mancha azul na ponta de seu dedo. Tinta antiga, desprendida da carta. Helena esfregou o polegar, mas a marca não saiu. Então, no silêncio da livraria, ela olhou outra vez para a última linha de Rafael e entendeu, com um frio lento na barriga, que algumas cartas não eram escondidas para serem esquecidas. E sim para serem encontradas tarde demais.
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