[EXPERIMENTO GEMINI PROMPT-HARDENED] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 3 de 5 · 40%

Um Estranho Interessado

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O sino sobre a porta não tilintou. Gemeu. Helena ergueu a cabeça com o segundo envelope ainda fechado entre os dedos, como se tivesse sido pega cometendo um crime. A primeira carta estava sobre a bancada, parcialmente escondida sob um pano de algodão, mas as palavras de Rafael continuavam vivas demais: perigo, encontro, velha estação. O homem parado na entrada não parecia interessado em comprar livros. Alto, de terno escuro sem gravata, cabelo desalinhado do jeito calculado de quem havia passado a mão nele muitas vezes, Miguel Vasconcelos segurava a porta aberta por educação, mas os olhos já tinham entrado antes dele. Percorreram as estantes, o balcão, as caixas ainda fechadas, a cadeira onde Aurora costumava se sentar. E, por fim, pararam em Helena. Ela fechou os dedos sobre o envelope. — Estamos fechados. Miguel soltou a porta devagar. O sino reclamou outra vez. — Eu vi o cartaz. Não vim comprar nada. — Ótimo. Então a visita foi rápida. Um canto da boca dele quase se levantou. Quase. — Meus pêsames pela sua avó. A frase devia ser simples. Gentil. Mas Helena já tinha ouvido condolências suficientes para uma vida inteira. Cada uma delas parecia empurrá-la um pouco mais para dentro de uma casa que ela não sabia se queria herdar. — Obrigada. Ela colocou o envelope sobre a bancada, mas manteve a mão em cima dele. Miguel notou. Claro que notou. Havia homens que olhavam para uma mulher bonita tentando entendê-la. Miguel olhava como se procurasse a rachadura na parede. — Aurora Duarte era importante para muita gente — ele disse. — Era minha avó. A correção saiu seca. Miguel inclinou a cabeça, aceitando o golpe. — Eu sei. — Não. Não sabe. Por um instante, ele não respondeu. O silêncio dele foi melhor do que qualquer desculpa. Helena odiou perceber isso. Miguel deu apenas dois passos para dentro da loja e parou antes do tapete gasto que separava a entrada do restante da livraria. Como se entendesse que aquele chão ainda não lhe pertencia. — Meu nome é Miguel Vasconcelos. — Eu sei quem você é. Ele arqueou uma sobrancelha. — Sabe? — O homem do cemitério. O que observava mais do que rezava. Dessa vez, o quase sorriso apareceu de verdade, pequeno e cansado. — Justo. Helena cruzou os braços, escondendo a bancada atrás do próprio corpo. — O que você quer, Miguel Vasconcelos? Ele gostou menos do nome inteiro na boca dela do que ela esperava. Alguma coisa fechou no rosto dele, rápida. — Sou jornalista. — Isso não responde. Só piora. — Costuma piorar mesmo. A resposta saiu baixa, sem defesa. Helena piscou, irritada por ter sido desarmada por honestidade quando esperava arrogância. Miguel enfiou as mãos nos bolsos do casaco. — Quero escrever sobre sua avó. Sobre a livraria. Sobre o que ela guardou aqui durante tantos anos. A palavra guardou bateu no peito dela. Helena empurrou o envelope para trás de um pote de cola, sem tirar os olhos dele. — Não há matéria. Aurora vendia livros. Emprestava outros sem anotar. Dava bronca em criança que dobrava página. Fazia chá ruim. Fim. — Ninguém chora tanto por chá ruim. A frase quase a fez rir. Quase. O problema era que, por baixo do humor, havia uma verdade que ela não queria tocar. — As pessoas choram em funerais. É o costume. — Algumas choram por costume. Outras por dívida. Helena endureceu. — Cuidado. Miguel ergueu uma mão, como quem recua sem sair do lugar. — Não estou falando de dinheiro. — Está falando demais. Ela foi até a porta, abriu-a e segurou o trinco. O ar da rua entrou frio, trazendo cheiro de pedra molhada e café distante. — Obrigada pela visita. Miguel não se moveu. — Quatro envelopes. O estômago de Helena caiu. A porta continuou aberta em sua mão. — Como é? — Você encontrou quatro envelopes antigos. Papel amarelado, bordas ressecadas. Um deles foi aberto há pouco. Os outros três ainda não. Helena sentiu o calor subir pelo pescoço. — Você ficou me espionando? — Eu entrei pela porta da frente. — E invadiu com os olhos. — É um defeito profissional. — É uma falta de caráter. A resposta dela acertou. Miguel abaixou o olhar por um segundo, e esse segundo contou mais do que qualquer pedido de desculpas. Quando voltou a encará-la, havia menos cálculo nele. — Talvez. Helena não esperava aquilo. Preferia que ele discutisse. Seria mais fácil expulsá-lo. — Saia. — Eu ouvi uma conversa no café. Sobre um tesouro escondido aqui. Ela soltou uma risada sem humor. — Claro. Então é isso. O jornalista farejou fofoca. — Farejei medo. O silêncio caiu entre eles. Miguel olhou para a bancada, mas não deu nenhum passo naquela direção. — Tesouro é a palavra que as pessoas usam quando não sabem nomear o que desejam. Pode ser dinheiro. Pode ser vergonha. Pode ser uma verdade que alguém enterrou tão bem que virou lenda. Helena apertou o trinco até os dedos doerem. — Você fala bonito para alguém que acabou de admitir que veio atrás de uma história. — Não vim só atrás. Vim oferecer uma troca. — Eu não tenho nada para trocar com você. — Tem as cartas. — Que não são suas. — E eu tenho método. Helena fechou a porta devagar. Não porque tivesse mudado de ideia, disse a si mesma. Porque não queria que a rua inteira ouvisse. — Método para quê? Miguel respirou fundo, como se soubesse que os próximos trinta segundos decidiriam tudo. — Para investigar sem destruir. Para fazer perguntas às pessoas certas. Para comparar datas, papel, tinta, versões. Para perceber quando alguém responde depressa demais. Ou quando cala na hora errada. — E em troca? — Exclusividade. A palavra ficou feia na loja. Helena riu pelo nariz. — Ah, claro. Você me ajuda a remexer no passado da minha avó e depois publica tudo com uma manchete elegante. A neta distante descobre segredo proibido. Algo assim? Miguel desviou o olhar para uma estante de livros infantis. Havia um coelho de pelúcia torto em cima dela. Aurora nunca tivera coragem de jogar fora. — Eu já publiquei coisas depressa demais — ele disse. Helena esperou. Ele não completou. — Isso era para me tranquilizar? — Era para não mentir. Ela odiou, de novo, que aquilo funcionasse um pouco. — Não preciso de você. — Precisa menos do que eu gostaria. Mais do que você acha. — Que conveniente. — Posso provar. Helena ergueu o queixo. — Tente. Miguel apontou, sem tocar, para a bancada. — Você ia abrir o segundo envelope agora. — Isso não é genial. Está na minha mão. — Na ordem em que encontrou. Como se as cartas fossem capítulos. Ela não respondeu. — Mas cartas escondidas não obedecem à vontade de quem lê. Talvez a última tenha sido escrita primeiro. Talvez uma delas nunca tenha sido dobrada do mesmo jeito. Talvez o envelope diga mais que o texto. O cheiro de mofo pode indicar onde ficaram guardadas. A pressão da caneta pode mostrar pressa. Uma palavra riscada pode ser mais importante que uma página inteira. Helena olhou para os envelopes apesar de si mesma. Miguel continuou, mais baixo: — E se há um perigo mencionado, você não deve partir do romance. Deve partir da ameaça. A palavra perigo, dita por ele, pareceu acender a carta de Rafael sob o pano. Helena fechou a mão. — Você leu? — Não. — Então como sabe? — Porque você ficou pálida quando eu disse tesouro. Mas ficou com raiva quando eu disse cartas. Raiva protege. Medo denuncia. Ela sentiu vontade de mandá-lo embora de novo. Sentiu também, contra toda prudência, vontade de fazer a ele as perguntas que estavam rasgando sua cabeça desde a madrugada. Quem era Rafael? Por que Lídia nunca recebeu aquelas cartas? E o que Aurora sabia? Miguel pareceu entender o conflito no rosto dela e, pela primeira vez desde que entrara, recuou um passo. — Eu não encosto em nada sem sua autorização. Não falo com ninguém sem você saber. E, se em algum momento disser para eu ir embora, eu vou. — Jornalistas costumam obedecer? — Não. Mas eu estou tentando virar outro tipo de homem. A frase saiu simples demais para ser ensaiada. Helena baixou os olhos. Sobre a bancada, o nome de Aurora parecia observá-la de todos os lugares: nas etiquetas escritas à mão, na xícara esquecida, no casaco pendurado atrás da porta. A avó escondera aquelas cartas por um motivo. Talvez para protegê-las. Talvez para proteger alguém. Talvez para que Helena as encontrasse quando finalmente parasse de fugir. O celular vibrou no bolso dela. O corretor, provavelmente. A saída pronta. A venda. A vida limpa, sem poeira, sem cartas, sem mortos pedindo resposta. Helena não atendeu. Miguel viu. Teve a inteligência de não comentar. — Uma parceria experimental — ela disse. Ele ficou imóvel. — Experimental — repetiu. — Não se anime. Pode durar dez minutos. — Já tive trabalhos piores. — Imagino. Dessa vez, ele sorriu. Não muito. O suficiente para mudar o rosto inteiro por um instante. Helena desviou o olhar antes que ele percebesse que ela tinha percebido. Voltou para trás do balcão, pegou os quatro envelopes e os alinhou diante de si. Entre eles, a madeira antiga parecia uma fronteira. — Regras — ela disse. Miguel se aproximou só até o outro lado do balcão. — Estou ouvindo. — Nós lemos juntos. Investigamos juntos. Você não fotografa, não grava, não leva nada para casa. Se falar com alguém, eu estou presente. Se descobrir alguma coisa, eu sei primeiro. — Aceito. — Ainda não terminei. Ele fechou a boca. Havia humor nos olhos dele agora, mas também respeito. Helena gostou menos do que devia. Ela pousou a mão sobre a primeira carta, a única aberta. — Essas cartas estavam na livraria da minha avó. Até prova em contrário, pertencem à memória dela. E eu não vou deixar ninguém arrancar isso daqui para transformar em espetáculo. Miguel assentiu devagar. — Entendido. — Não. Escute direito. A regra mais importante é a primeira. Se quebrar, acaba tudo. Ele apoiou as mãos na beirada do balcão, sem invadir o espaço dela. Helena sustentou o olhar dele. Pela primeira vez desde o funeral, não se sentiu apenas neta culpada, mulher atrasada, herdeira perdida. Sentiu-se guardiã de alguma coisa. E isso a assustou mais do que Miguel. — Você não publica nada sem minha permissão.
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