[EXPERIMENTO GEMINI PROMPT-HARDENED] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 3 de 5 · 40%
Capítulo 03
Um Estranho Interessado
8 min de leitura
O sino sobre a porta não tilintou. Gemeu.
Helena ergueu a cabeça com o segundo envelope ainda fechado entre os dedos, como se tivesse sido pega cometendo um crime. A primeira carta estava sobre a bancada, parcialmente escondida sob um pano de algodão, mas as palavras de Rafael continuavam vivas demais: perigo, encontro, velha estação.
O homem parado na entrada não parecia interessado em comprar livros.
Alto, de terno escuro sem gravata, cabelo desalinhado do jeito calculado de quem havia passado a mão nele muitas vezes, Miguel Vasconcelos segurava a porta aberta por educação, mas os olhos já tinham entrado antes dele. Percorreram as estantes, o balcão, as caixas ainda fechadas, a cadeira onde Aurora costumava se sentar.
E, por fim, pararam em Helena.
Ela fechou os dedos sobre o envelope.
— Estamos fechados.
Miguel soltou a porta devagar. O sino reclamou outra vez.
— Eu vi o cartaz. Não vim comprar nada.
— Ótimo. Então a visita foi rápida.
Um canto da boca dele quase se levantou. Quase.
— Meus pêsames pela sua avó.
A frase devia ser simples. Gentil. Mas Helena já tinha ouvido condolências suficientes para uma vida inteira. Cada uma delas parecia empurrá-la um pouco mais para dentro de uma casa que ela não sabia se queria herdar.
— Obrigada.
Ela colocou o envelope sobre a bancada, mas manteve a mão em cima dele. Miguel notou. Claro que notou. Havia homens que olhavam para uma mulher bonita tentando entendê-la. Miguel olhava como se procurasse a rachadura na parede.
— Aurora Duarte era importante para muita gente — ele disse.
— Era minha avó.
A correção saiu seca.
Miguel inclinou a cabeça, aceitando o golpe.
— Eu sei.
— Não. Não sabe.
Por um instante, ele não respondeu. O silêncio dele foi melhor do que qualquer desculpa. Helena odiou perceber isso.
Miguel deu apenas dois passos para dentro da loja e parou antes do tapete gasto que separava a entrada do restante da livraria. Como se entendesse que aquele chão ainda não lhe pertencia.
— Meu nome é Miguel Vasconcelos.
— Eu sei quem você é.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Sabe?
— O homem do cemitério. O que observava mais do que rezava.
Dessa vez, o quase sorriso apareceu de verdade, pequeno e cansado.
— Justo.
Helena cruzou os braços, escondendo a bancada atrás do próprio corpo.
— O que você quer, Miguel Vasconcelos?
Ele gostou menos do nome inteiro na boca dela do que ela esperava. Alguma coisa fechou no rosto dele, rápida.
— Sou jornalista.
— Isso não responde. Só piora.
— Costuma piorar mesmo.
A resposta saiu baixa, sem defesa. Helena piscou, irritada por ter sido desarmada por honestidade quando esperava arrogância.
Miguel enfiou as mãos nos bolsos do casaco.
— Quero escrever sobre sua avó. Sobre a livraria. Sobre o que ela guardou aqui durante tantos anos.
A palavra guardou bateu no peito dela.
Helena empurrou o envelope para trás de um pote de cola, sem tirar os olhos dele.
— Não há matéria. Aurora vendia livros. Emprestava outros sem anotar. Dava bronca em criança que dobrava página. Fazia chá ruim. Fim.
— Ninguém chora tanto por chá ruim.
A frase quase a fez rir. Quase. O problema era que, por baixo do humor, havia uma verdade que ela não queria tocar.
— As pessoas choram em funerais. É o costume.
— Algumas choram por costume. Outras por dívida.
Helena endureceu.
— Cuidado.
Miguel ergueu uma mão, como quem recua sem sair do lugar.
— Não estou falando de dinheiro.
— Está falando demais.
Ela foi até a porta, abriu-a e segurou o trinco. O ar da rua entrou frio, trazendo cheiro de pedra molhada e café distante.
— Obrigada pela visita.
Miguel não se moveu.
— Quatro envelopes.
O estômago de Helena caiu.
A porta continuou aberta em sua mão.
— Como é?
— Você encontrou quatro envelopes antigos. Papel amarelado, bordas ressecadas. Um deles foi aberto há pouco. Os outros três ainda não.
Helena sentiu o calor subir pelo pescoço.
— Você ficou me espionando?
— Eu entrei pela porta da frente.
— E invadiu com os olhos.
— É um defeito profissional.
— É uma falta de caráter.
A resposta dela acertou. Miguel abaixou o olhar por um segundo, e esse segundo contou mais do que qualquer pedido de desculpas. Quando voltou a encará-la, havia menos cálculo nele.
— Talvez.
Helena não esperava aquilo. Preferia que ele discutisse. Seria mais fácil expulsá-lo.
— Saia.
— Eu ouvi uma conversa no café. Sobre um tesouro escondido aqui.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Claro. Então é isso. O jornalista farejou fofoca.
— Farejei medo.
O silêncio caiu entre eles.
Miguel olhou para a bancada, mas não deu nenhum passo naquela direção.
— Tesouro é a palavra que as pessoas usam quando não sabem nomear o que desejam. Pode ser dinheiro. Pode ser vergonha. Pode ser uma verdade que alguém enterrou tão bem que virou lenda.
Helena apertou o trinco até os dedos doerem.
— Você fala bonito para alguém que acabou de admitir que veio atrás de uma história.
— Não vim só atrás. Vim oferecer uma troca.
— Eu não tenho nada para trocar com você.
— Tem as cartas.
— Que não são suas.
— E eu tenho método.
Helena fechou a porta devagar. Não porque tivesse mudado de ideia, disse a si mesma. Porque não queria que a rua inteira ouvisse.
— Método para quê?
Miguel respirou fundo, como se soubesse que os próximos trinta segundos decidiriam tudo.
— Para investigar sem destruir. Para fazer perguntas às pessoas certas. Para comparar datas, papel, tinta, versões. Para perceber quando alguém responde depressa demais. Ou quando cala na hora errada.
— E em troca?
— Exclusividade.
A palavra ficou feia na loja.
Helena riu pelo nariz.
— Ah, claro. Você me ajuda a remexer no passado da minha avó e depois publica tudo com uma manchete elegante. A neta distante descobre segredo proibido. Algo assim?
Miguel desviou o olhar para uma estante de livros infantis. Havia um coelho de pelúcia torto em cima dela. Aurora nunca tivera coragem de jogar fora.
— Eu já publiquei coisas depressa demais — ele disse.
Helena esperou. Ele não completou.
— Isso era para me tranquilizar?
— Era para não mentir.
Ela odiou, de novo, que aquilo funcionasse um pouco.
— Não preciso de você.
— Precisa menos do que eu gostaria. Mais do que você acha.
— Que conveniente.
— Posso provar.
Helena ergueu o queixo.
— Tente.
Miguel apontou, sem tocar, para a bancada.
— Você ia abrir o segundo envelope agora.
— Isso não é genial. Está na minha mão.
— Na ordem em que encontrou. Como se as cartas fossem capítulos.
Ela não respondeu.
— Mas cartas escondidas não obedecem à vontade de quem lê. Talvez a última tenha sido escrita primeiro. Talvez uma delas nunca tenha sido dobrada do mesmo jeito. Talvez o envelope diga mais que o texto. O cheiro de mofo pode indicar onde ficaram guardadas. A pressão da caneta pode mostrar pressa. Uma palavra riscada pode ser mais importante que uma página inteira.
Helena olhou para os envelopes apesar de si mesma.
Miguel continuou, mais baixo:
— E se há um perigo mencionado, você não deve partir do romance. Deve partir da ameaça.
A palavra perigo, dita por ele, pareceu acender a carta de Rafael sob o pano.
Helena fechou a mão.
— Você leu?
— Não.
— Então como sabe?
— Porque você ficou pálida quando eu disse tesouro. Mas ficou com raiva quando eu disse cartas. Raiva protege. Medo denuncia.
Ela sentiu vontade de mandá-lo embora de novo. Sentiu também, contra toda prudência, vontade de fazer a ele as perguntas que estavam rasgando sua cabeça desde a madrugada.
Quem era Rafael?
Por que Lídia nunca recebeu aquelas cartas?
E o que Aurora sabia?
Miguel pareceu entender o conflito no rosto dela e, pela primeira vez desde que entrara, recuou um passo.
— Eu não encosto em nada sem sua autorização. Não falo com ninguém sem você saber. E, se em algum momento disser para eu ir embora, eu vou.
— Jornalistas costumam obedecer?
— Não. Mas eu estou tentando virar outro tipo de homem.
A frase saiu simples demais para ser ensaiada.
Helena baixou os olhos. Sobre a bancada, o nome de Aurora parecia observá-la de todos os lugares: nas etiquetas escritas à mão, na xícara esquecida, no casaco pendurado atrás da porta. A avó escondera aquelas cartas por um motivo. Talvez para protegê-las. Talvez para proteger alguém. Talvez para que Helena as encontrasse quando finalmente parasse de fugir.
O celular vibrou no bolso dela.
O corretor, provavelmente.
A saída pronta. A venda. A vida limpa, sem poeira, sem cartas, sem mortos pedindo resposta.
Helena não atendeu.
Miguel viu. Teve a inteligência de não comentar.
— Uma parceria experimental — ela disse.
Ele ficou imóvel.
— Experimental — repetiu.
— Não se anime. Pode durar dez minutos.
— Já tive trabalhos piores.
— Imagino.
Dessa vez, ele sorriu. Não muito. O suficiente para mudar o rosto inteiro por um instante. Helena desviou o olhar antes que ele percebesse que ela tinha percebido.
Voltou para trás do balcão, pegou os quatro envelopes e os alinhou diante de si. Entre eles, a madeira antiga parecia uma fronteira.
— Regras — ela disse.
Miguel se aproximou só até o outro lado do balcão.
— Estou ouvindo.
— Nós lemos juntos. Investigamos juntos. Você não fotografa, não grava, não leva nada para casa. Se falar com alguém, eu estou presente. Se descobrir alguma coisa, eu sei primeiro.
— Aceito.
— Ainda não terminei.
Ele fechou a boca. Havia humor nos olhos dele agora, mas também respeito. Helena gostou menos do que devia.
Ela pousou a mão sobre a primeira carta, a única aberta.
— Essas cartas estavam na livraria da minha avó. Até prova em contrário, pertencem à memória dela. E eu não vou deixar ninguém arrancar isso daqui para transformar em espetáculo.
Miguel assentiu devagar.
— Entendido.
— Não. Escute direito. A regra mais importante é a primeira. Se quebrar, acaba tudo.
Ele apoiou as mãos na beirada do balcão, sem invadir o espaço dela.
Helena sustentou o olhar dele. Pela primeira vez desde o funeral, não se sentiu apenas neta culpada, mulher atrasada, herdeira perdida. Sentiu-se guardiã de alguma coisa.
E isso a assustou mais do que Miguel.
— Você não publica nada sem minha permissão.