[EXPERIMENTO GEMINI PROMPT-HARDENED] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 4 de 5 · 60%

Rafael para Lídia

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A parceria começou sem aperto de mão. Começou com Helena Duarte puxando os três envelopes para perto de si, como se Miguel Vasconcelos pudesse roubá-los só com o olhar. Ele percebeu. Não sorriu. Apenas afastou as mãos do balcão e deixou as palmas visíveis, num gesto pequeno, quase irônico, mas eficiente. — Está bem — disse ele. — Eu fico do lado de cá da fronteira. Helena ergueu uma sobrancelha. — Você chama isso de fronteira? — Chamo de sobrevivência. Você está com cara de quem sabe usar abridor de cartas como arma. Ela não queria rir. Não depois do funeral, das cartas, da culpa, da livraria inteira respirando memórias de Aurora Duarte. Mas um canto de sua boca traiu um movimento mínimo. Miguel viu e fingiu que não viu. Talvez por esperteza. Talvez por delicadeza. O silêncio voltou, mais suportável. Os envelopes estavam alinhados sobre a madeira escura do balcão. Três pequenos retângulos amarelados, guardados por décadas dentro de um livro que Aurora restaurara e escondera. A primeira carta ainda parecia viva demais na memória de Helena: a velha estação, o perigo sem nome, um amor escrito como quem pede socorro. — O segundo — ela decidiu. A própria voz saiu baixa, mas firme. Era menos uma escolha de leitura e mais uma recusa em fugir. Miguel inclinou a cabeça, atento. — Posso? Ele apontou para uma luva fina de algodão esquecida perto das ferramentas de restauração. Helena demorou meio segundo antes de empurrá-la na direção dele. — Só para segurar as bordas. — Sim, senhora guardiã. — Não abuse. — Jamais no primeiro dia. Dessa vez ela o olhou de verdade. Havia cansaço nele, por trás da facilidade das respostas. Um tipo de humor usado como trinco. Helena conhecia trincos. Tinha passado anos colocando alguns entre ela e a própria família. Ela abriu o envelope com cuidado. O papel de dentro era mais fino que o da primeira carta, quase transparente quando tocado pela luz que entrava pelas janelas altas da Livraria Aurora. A tinta não era azul. Era sépia, fraca em alguns pontos, como se o tempo tivesse bebido parte das palavras. Miguel se aproximou apenas o necessário. Não invadiu. Esse detalhe, contra a vontade dela, contou a favor dele. Helena alisou a folha. 15 de abril de 1968 Minha querida professora, Hoje, durante a aula, você leu um poema sobre o mar. Falou de ondas que guardam segredos e de navios que nunca voltam. Seu olhar se perdeu pela janela, como se procurasse um porto que só você conhece. Por um instante, todos os alunos sumiram. Só existia você e a sua saudade de um oceano que esta cidade não tem. Eu não tenho um oceano para te dar. Tenho um rio, que corre teimoso no fim da cidade, e tenho estas palavras, que insistem em nascer sempre que penso em você. Elas são a única embarcação que possuo. Se eu as lançar, elas chegarão até você? Ou vão naufragar na correnteza dos dias, engolidas pelo que não temos coragem de nomear? Queria poder sentar ao seu lado e não falar de poemas, mas do silêncio que cresce entre nós. Um silêncio bom. Um silêncio que me assusta. Eles dizem que sou jovem demais para entender de silêncios. E que você é séria demais para entender de tempestades. Eles não sabem de nada. O livro que me emprestou está seguro. Mas as palavras que trocamos na praça, essas eu guardo como quem guarda fogo. Elas me aquecem. Elas me queimam. Seu, para sempre, R. Helena ficou parada, os dedos pousados perto da assinatura. A letra R terminava num traço rápido, impaciente, quase ferido. — Minha querida professora — ela repetiu. A palavra mudou tudo. Antes, Lídia era um nome num envelope. Agora tinha uma sala, alunos, poemas, uma janela. Tinha uma vida antes do sumiço. Miguel não falou de imediato. Pela primeira vez desde que entrara ali, pareceu pesar as palavras antes de soltá-las. — Na cidade existe uma história sobre uma professora que desapareceu. Helena virou o rosto para ele. — Você disse no café que não acreditava em histórias de balcão. — Eu disse que elas mentem. Não que não sirvam para começar. — E essa história diz o quê? Ele passou o polegar pela costura da luva, um gesto rápido, nervoso. — Diz que ela fugiu. A resposta deixou o ar mais frio. Helena dobrou a carta devagar, mas não a guardou. Manteve-a aberta o bastante para ver a assinatura. — Ela não fugiu. — Você não sabe disso. — Sei o suficiente. Miguel sustentou o olhar dela. Não havia provocação agora. — Então vamos descobrir o resto. A frase podia ter soado como oportunismo. Não soou. Talvez porque ele tivesse dito vamos. Talvez porque, pela primeira vez, Helena não tivesse odiado a palavra. Miguel abriu o notebook sobre o balcão. O aparelho parecia deslocado entre livros antigos, vidros de cola, pincéis finos e o cheiro de papel guardado. Helena observou os adesivos gastos na tampa: nomes de jornais, cantos rasgados, marcas de viagens que ele talvez preferisse não explicar. — Você carrega isso para todo lugar? — perguntou ela. — É meu modo nada romântico de procurar fantasmas. — Fantasmas não costumam gostar de jornalistas. — Pessoas vivas também não. A resposta saiu leve, mas bateu em algum lugar mais fundo. Helena percebeu. Miguel desviou para a tela antes que ela perguntasse qualquer coisa. Ele digitou: Lídia Alves professora desaparecida 1968. Os resultados demoraram pouco. Vieram em recortes digitalizados, páginas tortas, letras falhadas. Miguel abriu o primeiro arquivo. Helena se aproximou, o ombro quase tocando o dele. Quase. Ambos notaram. Nenhum dos dois se afastou. A manchete era curta: Professora primária desaparece sem deixar vestígios. Helena leu em silêncio. Lídia Alves, professora, vista pela última vez no fim de maio. A polícia investigava pistas conflitantes. A comunidade demonstrava preocupação. Nada sobre cartas. Nada sobre a velha estação. Nada sobre Rafael. — Eles escreveram como se ela fosse um guarda-chuva perdido — murmurou Helena. Miguel aumentou o zoom. — Jornais antigos eram bons em transformar mulheres em advertências. — E jornalistas atuais? Ele olhou para ela de lado. A pergunta tinha dentes. — Alguns ainda tentam. Outros aprendem tarde demais. Havia uma confissão ali, sem detalhes. Helena ouviu, mas não tocou. Ainda não. Miguel voltou ao teclado. — Se a carta é de abril e ela desaparece no fim de maio, precisamos saber o que aconteceu com o R. — Rafael — disse Helena. Ele digitou o nome completo que aparecera na primeira carta e em uma anotação discreta no verso do envelope: Rafael Monteiro. Dessa vez, os resultados foram mais pobres. Uma nota pequena, escondida numa coluna social, apareceu em uma página de junho de 1968. Miguel abriu o recorte e leu baixo: — O jovem Rafael Monteiro, de conhecida família local, teria partido em busca de oportunidades na capital, sem data prevista para retorno. Helena sentiu um incômodo subir pela nuca. — Teria partido? — Linguagem conveniente. — Sem se despedir. — Também conveniente. Ela apoiou as duas mãos no balcão. A madeira rangeu de leve. — Lídia some em maio. Rafael some em junho. E ninguém liga uma coisa à outra? Miguel rolou a página, procurando mais. — Alguém pode ter ligado. Só não deixou virar registro. A livraria pareceu escutar com eles. As estantes altas, os lombos alinhados, a poeira dourada no ar. Helena pensou em Aurora ali, anos mais jovem, encontrando aquelas cartas. Guardando. Escondendo. Não destruindo. Uma escolha feita em silêncio e mantida por décadas. — Por que minha avó ficou com isso? — perguntou, mais para a sala do que para Miguel. Ele respondeu baixo: — Talvez porque alguém precisava guardar a versão que não coube no jornal. Aquilo doeu de um jeito inesperado. Não como culpa. Como chamado. Miguel abriu outro resultado. Um artigo de opinião publicado meses depois do desaparecimento de Lídia. O título ocupava o alto da página em letras pesadas: Os Perigos da Moral Moderna em Nossas Cidades. — Já odiei — disse Helena. — Espere. Dá para odiar mais. Ela leu. O texto falava de bons costumes, decência, juventude desviada. Usava Lídia como exemplo sem dar a ela defesa alguma. A professora virava aviso. O desaparecimento virava castigo sugerido, quase merecido. Helena apertou os lábios. — Que covardia. Miguel não discordou. Apenas apontou para um trecho no meio da página. Conforme apurado por este jornal junto a fontes respeitáveis, a senhorita Alves já vinha demonstrando comportamento incompatível com sua posição de educadora. Era vista em conversas particulares com rapazes, defendia ideias progressistas e, segundo relato, tratava-se de moça leviana, moderna demais para uma comunidade de bons princípios. A palavra leviana ficou na tela como uma sujeira. Helena afastou-se um passo, depois voltou, incapaz de não olhar. — Eles pegaram uma mulher que lia poemas e transformaram isso em crime. — Não foram eles — disse Miguel. Ela encarou-o. — Como assim? — O jornal publicou. Alguém alimentou. Ele desceu até o fim da página. O cursor tremia um pouco, ou talvez fosse a mão de Helena que tremesse perto demais da tela. Havia uma nota curta, quase escondida, como se não tivesse importância. Agradecemos a colaboração e a perspectiva ponderada do jovem advogado Augusto Brandão, cuja preocupação com os valores de nossa comunidade é exemplo para todos. Nenhum dos dois falou. O nome ficou ali, limpo demais, respeitável demais. Augusto Brandão. O mesmo homem que, no enterro de Aurora, discursara sobre tradição com a voz calma de quem sempre fora ouvido. O mesmo sorriso medido. As mesmas mãos apoiadas na bengala. O dono de uma presença que fazia os outros abrirem caminho. Helena sentiu o frio não no corpo, mas atrás das costelas. — Ele estava lá — disse ela. Miguel fechou a mão sobre a borda do notebook. — No funeral? Ela assentiu. — Falou da minha avó como se tivesse direito sobre a memória dela. Miguel olhou para a carta aberta, depois para o artigo. Amor de um lado. Difamação do outro. Entre os dois, décadas de silêncio. — Helena... O modo como ele disse seu nome fez com que ela prestasse atenção antes mesmo da frase seguinte. — Se Augusto Brandão ajudou a destruir a reputação de Lídia em 1968, e sua avó guardou as cartas por todo esse tempo... talvez Aurora não estivesse protegendo só uma história de amor. Helena voltou os olhos para a assinatura no papel antigo. Seu, para sempre, R. A promessa de Rafael parecia atravessar a livraria inteira até encontrar o nome de Augusto na tela. — Então o que ela estava protegendo? — perguntou Helena. Miguel não respondeu. Porque, do lado de fora, alguém bateu uma vez na porta fechada da Livraria Aurora. Uma batida seca. Educada. Familiar. Helena olhou para a tela ainda acesa, para o nome de Augusto Brandão, e só então percebeu que a placa de fechado continuava virada para a rua.
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