O plástico frio da cadeira da clínica grudava na pele nua das suas coxas, uma umidade desconfortável que parecia sugar o calor do seu corpo. Do outro lado da mesa, um médico com óculos de aros grossos consultou os papéis uma última vez, a sua simpatia profissional tão estéril quanto o cheiro de desinfetante no ar. Alana — Ana, ela se corrigiu mentalmente, o nome falso um mantra de sobrevivência — sentiu os nós dos dedos doerem onde apertava a alça da bolsa gasta.
— Bom, Ana. — Ele ergueu os olhos, e a falsa cordialidade não fez nada para suavizar o golpe. — O resultado é positivo, sem margem para dúvidas. Parabéns, você está grávida de oito semanas.
Parabéns. A palavra ricocheteou nas paredes da sala pequena e a atingiu como um som oco. O mundo de Alana encolheu até se resumir ao zumbido da lâmpada fluorescente sobre sua cabeça. Grávida. Uma vida minúscula, clandestina, crescendo dentro da vida que ela roubara para si mesma. Uma vida construída sobre o alicerce de documentos falsos e um pavor constante que a fazia olhar por sobre o ombro a cada carro de luxo que passava.
Ela mal registrou as recomendações seguintes sobre ácido fólico e pré-natal. Apenas acenou, a cabeça um peso morto sobre o pescoço. Pegou o envelope com o laudo, o papel fino e gelado um contraste absurdo com o fogo que começava a subir por sua garganta. Do lado de fora, o sol da tarde a cegou. A rua, com seu fluxo banal de pessoas e carros, parecia uma cena de filme projetada para outra pessoa assistir.
Os pés a levaram de volta, no piloto automático, na direção do apartamento minúsculo que era seu único santuário. Cada passo no asfalto rachado era uma contagem regressiva. O emprego de garçonete, os vizinhos que mal sabiam seu nome, a rotina... Uma miragem de normalidade que um batimento cardíaco de poucos milímetros estava prestes a pulverizar.
O celular vibrou no bolso, um zumbido insistente contra a sua coxa. Número privado. Ela ignorou. Vibrou de novo. E de novo. Na quarta vez, uma agulha de um medo antigo, primitivo, atravessou a névoa do choque e a forçou a atender.
— Alô?
— Alana, onde você está? Pelo amor de Deus! — A voz de Cadu, seu único elo com o passado, soou rasgada, irreconhecível. A calma habitual dele dera lugar a um pânico cru.
O ar congelou em seus pulmões. Ela parou no meio da calçada, uma mulher esbarrando em seu ombro e resmungando um insulto que Alana não ouviu.
— Cadu? O que aconteceu? Como... como conseguiu este número?
— Não dá tempo, escuta! — ele sibilou. — Você tem que sumir. Agora. Eles... eles sabem onde você está.
O chão pareceu ceder. Ela se apoiou na parede de tijolos de uma loja, a textura áspera arranhando a palma de sua mão. O zumbido em seus ouvidos voltou, ensurdecedor.
— Eles quem? — A pergunta saiu como um fiapo de voz, embora ela já sentisse o nome dele na língua, um gosto de cinzas e medo.
— Marchetti. Dominic Marchetti está na cidade.
Dois anos. Setecentos e trinta dias de uma liberdade vigiada, paga com o preço de sua própria identidade. E agora, tudo se desfazia em uma única chamada telefônica.
— Meu pai... — ela conseguiu dizer, a garganta apertada. — A dívida... ele não pagou? Ele disse que ia resolver.
O silêncio de Cadu do outro lado da linha foi a resposta. Então ele disse as palavras que demoliram o mundo dela.
— Alana, não tem nada a ver com o seu pai. Ele não veio pela dívida.
Um ronco de motor, grave e veludo, cortou o ruído do trânsito. Um sedã preto, com vidros tão escuros que pareciam engolir a luz, dobrou a esquina e deslizou até parar a poucos metros dela. Não houve freio brusco, apenas uma parada suave, silenciosa. Letal. Como um predador que não precisa de alarde.
— Alana, você está me ouvindo?! Foge! — a voz de Cadu era um eco desesperado de um mundo que não existia mais.
Era tarde demais. A porta do motorista se abriu e um homem de terno saiu, mas não foi para ele que Alana olhou. Seu foco estava cravado na porta de trás.
Ela abriu lentamente, e de lá emergiu a silhueta que assombrava cada um de seus pesadelos. Dominic Marchetti. O mesmo cabelo escuro impecável, o mesmo maxilar traçado com uma precisão arrogante. Ele ajeitou o punho da camisa, um gesto casual, quase entediado, e então seus olhos encontraram os dela através da rua.
O tempo parou. O telefone escorregou da mão trêmula de Alana e se espatifou no concreto, a voz de Cadu silenciada para sempre. Não havia para onde correr. Os dois anos, a fuga, o nome falso — tudo se dissolveu sob aquele olhar que a via não como uma pessoa, mas como um ativo.
Ele atravessou a rua. Sem pressa. Seus sapatos caros mal faziam barulho no asfalto sujo. Cada passo era uma sentença final. Paralisada, Alana apenas conseguiu amassar o envelope do exame na mão, um segredo frágil contra a força que vinha reclamá-la.
Dominic parou a um braço de distância. O cheiro dele a atingiu primeiro: colônia cara, couro e algo metálico, o cheiro de poder. Seu olhar era uma avaliação fria, passando por seu rosto pálido, pelo casaco barato, e parando por uma fração de segundo na mão que, sem que ela percebesse, havia se fechado em um punho protetor sobre seu ventre.
Num último ato de rebeldia, Alana ergueu o queixo.
— Meu pai vai pagar o que deve — ela disse, a voz surpreendentemente firme.
Um movimento quase imperceptível curvou o canto da boca de Dominic. Não era um sorriso. Era algo mais perigoso. Ele a observou, e pela primeira vez, não parecia estar olhando para a garantia da dívida de um homem falido.
Sua voz, um barítono grave e controlado, cortou o ar entre eles.
— O seu pai já não me interessa. — Ele deu um passo, aniquilando a distância que os separava. Seus olhos escuros a prenderam no lugar. — O assunto, Alana, sempre foi você.