Grávida do Inimigo do Meu Pai
Cap. 2 de 24 · 4%

A Revelação nos Alpes

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O único som na cabine era o zumbido quase imperceptível dos motores, um ruído constante que servia apenas para ampliar o silêncio esmagador entre eles. Alana sentia a textura do couro caro sob os dedos, frio e impessoal, um contraste gritante com a bolsa gasta em seu colo. Dentro dela, o envelope amassado com o exame de sangue parecia queimar, uma âncora de papel que a prendia àquela nova e terrível realidade. Do outro lado, Dominic Marchetti folheava um documento, indiferente. Ele não precisava olhá-la. A atenção dele era uma presença física no ar, uma pressão sutil em seus ombros, lembrando-a de que cada respiração sua era monitorada. Ela tentara perguntar para onde iam, mas ele simplesmente ergueu um dedo, sem desviar os olhos do relatório, e a pergunta morreu em sua garganta. Aquilo não era uma conversa; era uma rendição em andamento. Quando o avião começou a descer, o ar que entrou na pista particular era fino e cortante, cheirando a pinho e gelo. Muralhas de pedra e neve se erguiam em todas as direções, presas brancas cravadas num céu de um azul irreal. Eram lindas e aterrorizantes. Um carro preto, já com o motor ligado, os aguardava. Nenhuma palavra foi trocada. A eficiência dele era uma forma de crueldade, roubando dela qualquer chance de processar, de se preparar. A viagem pelas estradas sinuosas dos Alpes foi um borrão de precipícios e florestas densas. A cada curva, o mundo que Alana conhecia desaparecia no retrovisor. O carro finalmente parou diante de uma obra de arte arquitetônica, uma casa de vidro e madeira escura que parecia brotar da própria montanha. Uma gaiola de luxo com a vista mais deslumbrante do inferno. Dentro, o calor de uma lareira crepitante a envolveu, um conforto falso que não alcançava o gelo em suas veias. Dominic despiu o casaco e o jogou sobre uma poltrona de design, o gesto displicente de um homem que voltava para casa. — A cozinha está abastecida. Seu quarto é o primeiro à esquerda, no andar de cima. A normalidade da frase a atingiu como um tapa. Ele falava como se ela fosse uma convidada, não uma prisioneira. Alana fincou os pés no tapete felpudo, a adrenalina das últimas horas dando lugar a um tremor incontrolável que subia por suas pernas. — Eu não quero comida — a voz dela saiu um fiapo de som, mas carregada de desafio. — Quero respostas. Dominic se virou lentamente, a paciência em seu rosto era uma máscara fina sobre algo predatório. Seus olhos escuros a percorreram, um inventário lento, possessivo, que pareceu registrar cada centímetro dela antes de parar, por uma fração de segundo, em seu ventre. — Respostas sobre o quê, Alana? — Sobre isto! — ela gesticulou para a imensidão lá fora, para a prisão de vidro ao redor. — O que eu estou fazendo aqui? A dívida do meu pai não era a questão? Você me arrastou para o fim do mundo, por quê? Ele se aproximou, e o espaço entre eles encolheu, carregado de uma eletricidade palpável. Cada passo dele era calculado. Instintivamente, Alana recuou, e sua mão voou para o abdômen, um gesto inconsciente de proteção absoluta. Os olhos de Dominic seguiram o movimento. Um brilho de confirmação sombria passou por seu rosto, e o canto de sua boca se curvou num sorriso quase imperceptível. — Por isso — ele sussurrou, a voz um trovão baixo. O ar fugiu dos pulmões de Alana. O sangue gelou em suas veias. Impossível. Ninguém sabia. Nem mesmo Cadu. Como ele podia...? — Você está louco. Isso não tem nada a ver com você. — Você mente tão mal. — Ele estava perto agora, o calor irradiando de seu corpo uma ameaça e uma promessa. — Tente de novo. Use meu nome. Diga: ‘Isso não tem nada a ver com você, Dominic’. Ela travou, a garganta fechada. Dizer o nome dele seria uma forma de admissão, de conexão. Ela ergueu o queixo. — Não vou participar dos seus jogos. Isto é sobre poder. Sobre humilhar meu pai. — Seu pai é um fantasma — ele descartou, a voz cortante. — Um peão irrelevante que já deixou o tabuleiro há muito tempo. — Sua mão se esticou, não para ela, mas para um copo de água sobre um aparador próximo. Ele o estendeu. — Beba. O gesto de cuidado era tão deslocado que a desequilibrou. Ela olhou do copo para o rosto impassível dele. — Eu não quero. — Não foi uma sugestão. — Ele não moveu um músculo, o copo suspenso no ar entre eles. Com os dedos trêmulos, Alana pegou, o frio do vidro um choque contra sua pele quente. Ele a observou beber, o olhar fixo na curva de sua garganta, e ela se sentiu exposta, marcada. A possessividade dele era sufocante. Não era desejo como ela o conhecia. Era a certeza de propriedade. Um predador que não apenas encurralara sua presa, mas que parecia conhecer o ritmo de seu coração. — Você não vai conseguir nada de mim — ela sibilou, batendo o copo de volta na mesinha. Dominic inclinou a cabeça, um brilho de curiosidade divertida nos olhos. — Eu já tenho tudo que eu quero. Ele se afastou, caminhando até a imensa parede de vidro com vista para os Alpes cobertos de neve. Sua silhueta contra a paisagem branca era a imagem do controle absoluto. — Eu organizei tudo. Os melhores médicos de Milão virão até aqui. Você terá a melhor alimentação, o descanso que precisar. Não terá que se preocupar com absolutamente nada. Médicos. Alimentação. As palavras pairaram no ar, cada uma um prego em seu caixão. A calma dele era um veneno lento. — Como...? — a pergunta rasgou sua garganta, um som frágil e quebrado. Ele não se virou, a voz chegando até ela fria e precisa como o ar da montanha, aniquilando sua última frágil esperança de controle. — Eu sei que você entrou naquela clínica ontem às 14h42. Sei que o médico se chama Dr. Rossi. — Ele fez uma pausa, deixando o silêncio esticar até quase arrebentar. — Sei que ele colheu seu sangue para confirmar o que você já suspeitava. Finalmente, ele se virou. Seus olhos a prenderam no lugar, despidos e indefesos. A máscara de paciência havia caído, revelando uma intensidade vulcânica que a consumiu inteira. — E eu sei que o resultado daquele exame, Alana, foi descobrir que você carrega um filho meu. Seu erro não foi engravidar. Foi pensar, por um segundo que fosse, que poderia ter um segredo para esconder de mim.
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