A comida descia como cimento. Alana mastigava o salmão com lentidão forçada, engolindo junto com a comida o gosto metálico da derrota. Dominic não estava à mesa, mas a ordem dele pesava mais que sua presença. *O bebê não pode pagar pela sua teimosia.* E assim, sob o olhar atento da governanta silenciosa que servia cada prato, ela comia.
A rotina era uma tortura de veludo. Manhãs iniciadas com o deslizar de uma bandeja impecável pelo chão do quarto. Tardes gastas medindo os corredores daquela fortaleza dourada, sentindo o vidro à prova de balas vibrar com o uivo do vento lá fora. Noites insones, onde a única fuga eram sonhos que sempre terminavam nela se chocando contra a parede transparente da sala de estar e acordando com o coração aos saltos.
Dominic era uma miragem. Às vezes, ela o vislumbrava no andar de baixo, o rosto banhado pela luz azulada de um laptop, tão absorto que o mundo parecia não existir para além da tela. Ele não se dirigia a ela. Não a procurava. Apenas pairava na periferia de sua existência, um guardião onipresente cuja indiferença era mais sufocante que qualquer corrente.
No terceiro dia, trouxeram um médico. Ou, pelo menos, um homem com o ar cansado e as mãos firmes de um. Ele não se apresentou. Apenas abriu a maleta de couro e começou o ritual: o manguito inflando em seu braço, o disco gelado do estetoscópio em seu peito, a picada fria da agulha em sua veia. Cada toque era clínico, impessoal, como se ela fosse um espécime. “Sinais vitais estáveis.” “Continue se hidratando.” “Evite estresse.” A ironia era tão absurda que a vontade de gargalhar doeu em sua garganta.
Dominic assistia a tudo de pé, ao lado da lareira de pedra, os braços cruzados. Seu olhar não era de preocupação. Era o olhar de um investidor avaliando um ativo precioso. Frio, analítico, possessivo. Alana sentiu o sangue ferver sob a pele, uma humilhação que queimava mais que a raiva. O homem partiu como um fantasma, deixando para trás o cheiro de álcool e um silêncio carregado de propriedade.
Naquela tarde, a solidão se tornou física, uma pressão no peito. Ela desceu as escadas, movida por uma necessidade crua de quebrar aquele silêncio. Ele estava lá, de costas, observando a neve que caía em flocos pesados, uma cortina branca que os selava do resto do universo. Uma xícara de café fumegava em sua mão.
Alana parou a poucos metros. Sua voz saiu baixa, mas firme.
— Até quando?
Ele não se virou. Por um instante, pareceu que não a ouvira. Então, o ombro dele relaxou minimamente, uma concessão quase imperceptível.
— Até eu decidir que é seguro.
— Seguro para quem? — ela rebateu, dando um passo. — Para mim? Ou para a sua… propriedade?
Lentamente, ele se virou. O rosto, uma máscara de controle. — Para os dois.
O instinto gritava para que ela o amaldiçoasse, exigisse, quebrasse alguma coisa. Mas a fúria só o divertia. Ela precisava de algo que o atingisse. Uma pergunta que ele não esperava.
— Você fala do meu filho como se o conhecesse. Como se família fosse algo sagrado. Você tem irmãos? Sua mãe… seu pai… eles estão vivos?
A pergunta pairou no ar, carregada de uma inocência calculada. Ela estava mirando no escuro, mas sentiu que acertou algo quando um músculo tremeu na mandíbula dele. Ele ergueu a xícara aos lábios, os olhos negros a perfurando por cima da borda de porcelana. O fantasma do pai dela, a origem de tudo, jamais era mencionado por ele. A omissão era um grito.
— Minha família não é da sua conta.
— Mas a minha é da sua? — A voz dela ganhou um fio de aço. — Você me caçou, me trancou, me transformou em uma incubadora de luxo… e o homem que iniciou tudo isso? O homem cuja dívida, supostamente, me colocou aqui? Você nunca fala dele. Do meu pai. Por quê?
O silêncio que se seguiu foi denso e pesado. Era como se ela tivesse nomeado o demônio na sala, e ele estivesse decidindo se a puniria ou a ignoraria. Dominic baixou a xícara, o som da porcelana contra o pires de madeira ecoando no cômodo.
— Porque seu pai — ele disse, a voz cortante como um caco de vidro — é irrelevante. Um erro de cálculo. Já corrigido.
O desprezo era absoluto. Não era o ódio de um inimigo; era a indiferença de um deus por uma formiga. Aquilo não se encaixava. Se a dívida era o pretexto, o devedor deveria ser o alvo do ressentimento, não um detalhe esquecido.
— Então o que é relevante? Se não é ele, se não é o dinheiro… o que sobrou?
A pergunta saiu num sussurro urgente, e ela se odiou pela vulnerabilidade que transpareceu.
Dominic deu um passo em sua direção. Depois outro. O espaço entre eles encolheu, carregado de uma eletricidade perigosa. Alana manteve o queixo erguido, os olhos cravados nos dele, recusando-se a recuar.
Ele parou tão perto que ela podia sentir o calor que emanava de seu corpo. O olhar dele desceu, lento e deliberado, para o seu ventre ainda plano.
— O que é relevante, Alana — ele murmurou, a voz uma carícia áspera —, é garantir que o meu legado não nasça de um erro. Ele será perfeito.
Com isso, ele se virou, encerrando a conversa com uma finalidade brutal. Voltou para a janela, deixando-a no meio da sala com o coração martelando contra as costelas. *Legado.* A palavra ressoava, fria e imperial. Aquele bebê não era uma pessoa para ele. Era um projeto. Uma extensão de si mesmo.
Seu olhar seguiu Dominic, que bebeu o resto do café em um único gole e pousou a xícara na mesinha ao lado. Um gesto comum, quase humano. Mas a mão dele se demorou sobre a porcelana por um segundo a mais. Quando ele se afastou, o olhar de Alana foi puxado para a xícara vazia.
Ali, na superfície branca e imaculada, uma finíssima rachadura se estendia a partir da borda, um fio de cabelo negro contra a neve. A marca silenciosa da pressão que seus dedos haviam exercido.
E Alana entendeu. Ele não era um monstro que quebrava as coisas com fúria. Ele era algo muito pior: um homem tão obcecado pela perfeição e pelo controle que partia tudo o que tocava sem sequer perceber a força que usava.