Luna Rejeitada
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A Loba Sem Uivo

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Maya Vale-Neblina segurava a bacia de água fervente com as duas mãos e fingia que não sentia os dedos queimarem. O vapor subia branco, carregado de folhas de arruda e pétalas de lua, e grudava no rosto dela como uma segunda pele. Ao redor, o Salão da Lua ainda era osso e pedra antes da beleza: bancos sendo arrastados, tapeçarias vermelhas desenroladas nas paredes, prata polida até ferir os olhos, o altar de acasalamento coberto por um tecido negro onde, à meia-noite, o Alfa Supremo escolheria sua Luna diante da Matilha da Lua Sangrenta. Escolheria. A palavra passava de boca em boca como vinho caro. Não se dizia “encontraria sua Alma Gêmea”. Não em voz alta. Não quando havia política, fronteiras e sangue suficientes para afogar a vontade da Lua. — Mais cuidado, Maya — disse Talia, uma das lobas de cozinha, sem levantar os olhos do arranjo de ossos entalhados que prendia à coluna. — Se derramar isso no chão, vão dizer que foi porque suas mãos nasceram erradas. Algumas risadas pequenas se espalharam. Maya manteve a cabeça baixa. Era assim que se sobrevivia sendo a loba defeituosa da Pack. Cabeça baixa. Ombros estreitos. Silêncio entre os dentes. A bacia queimava. A água tremia. Ela atravessou o salão sem esbarrar em ninguém, embora os corpos parecessem fazer questão de se colocar em seu caminho. Lobas com vestidos de linho vermelho, Betas de patrulha com botas sujas de lama, jovens guerreiros exibindo marcas de combate recentes como se fossem joias. Maya não tinha marcas. Não tinha posto. Não tinha uivo. Ou melhor: tinha um uivo preso em algum lugar tão fundo que, quando tentava chamá-lo, só vinha um gosto metálico na língua e uma dor atrás das costelas. — Ômega — chamou uma voz doce demais. O corpo de Maya obedeceu antes dela. Parou. Seraphine Voss estava diante do altar, cercada por duas servas da Matilha de Ferro. Parecia feita para aquele lugar: alta, impecável, os cabelos loiros presos em tranças de guerra adornadas com fios de prata, a pele pálida sem uma gota de suor, o vestido branco ainda coberto por uma capa cinza de viagem. Ela não pertencia à Lua Sangrenta e, ainda assim, todos abriam espaço para ela como se o chão já soubesse onde deveria se ajoelhar. O perfume dela chegou antes da voz: rosas frias, âmbar caro e alguma coisa amarga que fez o nariz de Maya arder. Wolfsbane? Não. Impossível. Ninguém traria wolfsbane para uma cerimônia de acasalamento. — Venha aqui — Seraphine disse. Maya se aproximou com a bacia junto ao peito. Os olhos azuis da filha do Alfa da Matilha de Ferro desceram por ela sem pressa. Pelo vestido cinza simples, gasto nos punhos. Pelo cabelo castanho escuro preso às pressas na nuca. Pela pequena cicatriz no queixo, lembrança de uma queda durante um treino do qual ela havia sido expulsa por “atrapalhar lobos de verdade”. — O altar está manchado — disse Seraphine. Maya olhou. Não havia mancha alguma. — Eu limpo. — Sei que limpa. — Seraphine sorriu. O tipo de sorriso que não mostrava dentes porque não precisava. — É para isso que a Lua deixa algumas fêmeas nascerem sem força. Para que sejam úteis de outras maneiras. Uma das servas abafou uma risada. Maya sentiu a água ferver de novo, embora soubesse que era só sua pele reclamando. Quis dizer que era filha da Matilha tanto quanto qualquer um ali. Quis dizer que a Lua não errava. Quis dizer uma coisa cortante, uma coisa viva. Mas o laço mental da Pack estava aberto naquele burburinho coletivo, cheio de ordens rápidas, fofocas, ansiedade. Mesmo sem ninguém falar diretamente com ela, Maya captava farpas como espinhos arrastados por baixo da porta. …coitada… …imagina se fosse minha filha… …Alfa Kaelen precisa de uma Luna forte… …Seraphine vai unir as fronteiras… …Maya devia ficar longe do salão hoje… Ela respirou pelo nariz. E então sentiu. Por baixo da arruda, das velas de sebo, do suor de dezenas de lobos, do perfume venenoso de Seraphine. Cedro partido. Sangue quente. Tempestade. O cheiro entrou nela como uma garra. Maya perdeu o ar. A bacia escorregou um dedo em suas mãos e a água pulou, queimando seu pulso. Ela não fez som. Mas seu lobo, aquele animal quieto e encolhido dentro dela, levantou a cabeça pela primeira vez em anos. Não foi um uivo. Foi pior. Foi fome. — Está tremendo — Seraphine observou, inclinando a cabeça. — Medo da cerimônia? Maya piscou, tentando trazer o salão de volta ao lugar. As colunas de pedra pareciam respirar. As tochas tinham halos dourados. Lá fora, um trovão rolou, embora o céu da tarde estivesse limpo momentos antes. — Só… calor — Maya murmurou. — Calor. — Seraphine deu um passo mais perto. O amargo do perfume dela tentou esmagar o cedro e a tempestade, mas falhou. — Pobrezinha. Talvez você devesse pedir dispensa antes que desmaie na frente do Alfa Supremo. Seria constrangedor para todos. Maya apertou a bacia com tanta força que os nós dos dedos esbranquiçaram. — Vou terminar o altar. — Vai terminar o que mandarem você terminar. A frase caiu baixa, quase íntima. Não era para a plateia. Era para a parte de Maya que ainda esperava gentileza de quem usava seda. Antes que Maya respondesse, o laço mental estalou. Não uma mensagem. Um impacto. Todos no salão endireitaram as costas ao mesmo tempo. Até Seraphine virou o rosto para a entrada principal. A voz do Beta Ronan Ash atravessou a mente da Pack, áspera de corrida e poeira. — Abram os portões. O Alfa voltou. O Salão da Lua se desfez em movimento. Lobos correram para fora. Servos ajustaram tochas. Guerreiros bateram punhos no peito. A excitação passou pelo laço mental como sangue fresco na água. Maya ficou imóvel por um segundo a mais, com o cheiro de cedro crescendo, crescendo, até se tornar quase uma mão fechada em sua nuca. Alfa Kaelen Draven havia partido três noites antes para defender as fronteiras do norte contra renegados que cruzaram o rio Velho. Diziam que ele não lutava; executava sentenças com garras. Diziam que seu lobo negro era maior do que qualquer animal permitido pela Lua. Diziam que, quando seus olhos ficavam dourados, até Betas experientes esqueciam como respirar. Maya nunca tinha estado perto o bastante para descobrir se era verdade. Ela era o tipo de loba que ficava nas cozinhas enquanto Alfas sangravam mapas. — Não fique aí parada — Talia sussurrou ao passar, empurrando o ombro dela. — Vá buscar mais toalhas. E não olhe para ele. Ômegas não encaram o Alfa Supremo. Maya assentiu. Mas seus pés não foram para as toalhas. Foram para a lateral do salão, onde um arco estreito dava vista para o pátio interno. Ela devia se afastar. Devia. A parte sensata dela repetia isso com a voz de anos de humilhação. A parte animal já havia cravado garras no chão. O portão externo se abriu com um gemido de ferro. O primeiro a entrar foi Ronan Ash, Beta da Lua Sangrenta, coberto de lama escura até os joelhos, uma cicatriz recente abrindo vermelho na maçã do rosto. Atrás dele vieram os guerreiros, alguns mancando, outros carregando corpos envoltos em capas. O cheiro de batalha invadiu a propriedade: couro molhado, ferro, vísceras, fumaça, vitória suja. E então Kaelen entrou. Não houve trombeta. Não precisava. A presença dele fez o pátio inteiro abaixar o volume. Alfa Supremo. Kaelen Draven caminhava como se o território tivesse sido construído em torno de seus passos. Era alto de um jeito que tornava outros machos menores sem esforço, os ombros largos sob a armadura de couro rasgada, o peito respingado de sangue que talvez não fosse dele. O cabelo negro estava úmido de suor e chuva inexistente, caindo sobre a testa. Havia um corte aberto em seu abdômen, já fechando pela força da cura alfa. Ele carregava a cabeça de um renegado pela trança. Maya deveria ter sentido nojo. Sentiu o cheiro de cedro atravessar o sangue e reconheceu, com uma certeza que a assustou mais do que qualquer cadáver. Era ele. O cheiro era dele. Seu estômago afundou. A pele de seus braços se eriçou. Algo quente se abriu atrás de suas costelas, doloroso, íntimo, como se uma marca invisível estivesse sendo desenhada por dentro. No pátio, Kaelen parou. Bruscamente. Ronan, que vinha dizendo algo baixo ao lado dele, também parou. — Alfa? — chamou o Beta. Kaelen não respondeu. Seus dedos se fecharam na trança do inimigo morto até os ossos do crânio estalarem. O ar mudou. Guerreiros recuaram meio passo, instintivos. O lobo dele veio à superfície antes do homem permitir: olhos antes cinzentos incendiaram em ouro líquido, brilhantes como metal no forno. Maya prendeu a respiração. O olhar dele varreu o pátio, não procurando ameaça. Procurando cheiro. As narinas de Kaelen dilataram. O peito dele se expandiu devagar. Do outro lado do arco, Maya sentiu sua própria garganta expor o pulso. Jasmim queimado. Ela não sabia como sabia que era isso que ele sentia nela, mas soube. Jasmim queimado e chuva. O cheiro que sempre considerara fraco, estranho, algo que fazia filhotes se acalmarem perto dela e lobos velhos chorarem sem motivo. Kaelen deu um passo. Depois outro. Direto na direção do Salão da Lua. — Alfa — Ronan repetiu, agora mais baixo, como quem se aproxima de uma lâmina. — O Conselho está esperando o relatório da fronteira. Kaelen rosnou. Não foi alto. Foi o bastante para todos os lobos do pátio mostrarem o pescoço. Maya cambaleou para trás, o pulso queimado batendo em dor. A bacia ainda estava em suas mãos. Como? Ela nem lembrava de segurá-la. — Maya! Talia surgiu atrás dela, pálida de irritação e medo. — Você enlouqueceu? Saia da entrada. Ele vem para o ritual de purificação. Se o Alfa tropeçar em você, vão me culpar. Maya tentou obedecer. Deu um passo para longe do arco. O mundo inclinou. Cedro, sangue quente, tempestade. O cheiro dele encheu sua boca. Sua loba arranhou por dentro, desajeitada e feroz, batendo contra o osso como se quisesse rasgar a pele e correr até aquele homem coberto de morte. Não. Não, não, não. Almas Gêmeas eram bênção da Moon Goddess. Eram cantadas em noites de lua cheia, sussurradas por meninas que ainda acreditavam que o destino era macio. O cheiro do Mate devia ser casa. Devia ser segurança. Aquilo parecia uma sentença. — Você está branca — Talia disse, mas a crueldade dela vacilou. — Maya? Maya colocou a bacia no chão antes que caísse. O som da água tocando pedra pareceu alto demais. No laço mental, uma interferência começou a chiar. Pequena primeiro. Depois crescente. Como garras raspando uma porta de prata. As conversas cessaram uma a uma. Do lado de fora, botas cruzaram o limiar. Kaelen entrou no Salão da Lua carregando a tempestade nos ombros. Toda a gente se curvou. Seraphine foi a única que permaneceu ereta por mais um segundo, um sorriso preparado abrindo os lábios. Ela avançou com graça calculada, a capa cinza deslizando pelo chão. — Alfa Draven — disse ela, voz de seda sobre veneno. — A Matilha de Ferro se alegra com sua vitória. Kaelen não olhou para ela. Isso foi a primeira rachadura. Pequena. Cruel. Visível. O sorriso de Seraphine congelou. Kaelen caminhou pelo salão como se ouvisse um chamado que ninguém mais podia escutar. Sangue pingava de sua mão no chão polido. Um. Dois. Três pontos escuros sobre a pedra lunar. Seus olhos dourados estavam fixos em algum lugar além das cabeças inclinadas, além das hierarquias, além das promessas costuradas pelo Conselho. Maya tentou se esconder atrás de uma coluna. Tarde demais. O cheiro dele a encontrou primeiro. Empurrou contra sua pele, entrou pela queimadura do pulso, desceu pela garganta. Maya mordeu o interior da bochecha para não gemer. O gosto de sangue espalhou calor sobre a língua. Kaelen parou a poucos passos do altar. O silêncio engrossou. Até as tochas pareceram encolher. Ronan entrou logo atrás, a mão próxima à faca presa na coxa, mas seus olhos não estavam em inimigos. Estavam em Maya. E havia ali algo que ela nunca vira em um Beta olhando para uma Ômega. Alarme. — Alfa? — Seraphine repetiu, mais baixo. Kaelen virou a cabeça. Devagar. Como um predador que finalmente localiza o coração batendo no escuro. Maya não conseguiu abaixar os olhos. A ordem antiga, ensinada com tapas, fome e vergonha, simplesmente quebrou dentro dela. Os olhos dourados de Kaelen encontraram os seus. O laço mental da Matilha inteira caiu mudo. Nenhuma ordem. Nenhum sussurro. Nenhuma respiração compartilhada. Só uma pressão antiga descendo sobre o Salão da Lua, pesada como lua cheia sobre sangue derramado. A marca invisível atrás das costelas de Maya incendiou. Kaelen deu um passo na direção dela. E, pela primeira vez na vida, a loba sem uivo ouviu uma voz dentro de si — não humana, não mansa, não sua. Mate.
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