Luna Rejeitada
Cap. 2 de 10 · 10%

Rejeitada Pelo Alfa Supremo

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Mate. A palavra não entrou pela mente de Maya. Entrou pelos ossos. Ela ouviu sem ouvir, como se a Lua tivesse enfiado uma garra branca em seu peito e puxado algo vivo para fora. O Salão da Lua inclinou ao redor dela — colunas, tochas, rostos curvados — tudo deformado pelo cheiro de cedro, sangue fresco e tempestade que emanava de Kaelen Draven. O Alfa Supremo deu outro passo. Maya recuou até a coluna fria bater em suas costas. O lobo dele subiu sob a pele do homem. Não havia transformação completa, não ainda, mas as veias escuras saltaram no pescoço de Kaelen, os tendões dos dedos engrossaram, as unhas raspando a palma como garras querendo rasgar caminho. Os olhos dourados não piscavam. E estavam nela. Só nela. — Quem é você? — A voz dele saiu baixa, áspera de batalha, mas havia algo quebrado por trás. Algo faminto. Maya tentou responder. O próprio nome pareceu pequeno demais. — Maya — disse Ronan, antes que ela conseguisse. O Beta avançou meio passo. — Maya Vale-Neblina. Um murmúrio percorreu o salão. Vale-Neblina. O nome que servia para tarefas sujas, para panelas, para ombros empurrados nos corredores. O nome de uma linhagem apagada por cochichos e desprezo. Seraphine olhou para Maya como se tivesse encontrado lama na bainha do vestido. — A serva? — ela perguntou, suave o bastante para parecer inocente. Kaelen rosnou. O som bateu nas paredes e apagou o murmúrio. Alguns Ômegas caíram de joelhos. Talia, junto ao altar, levou a mão à garganta. Maya deveria ter ficado com medo. Ficou. Mas o medo veio misturado a outra coisa, uma corrente quente correndo de seu pulso ao peito, uma ordem antiga abrindo suas costelas por dentro. A marca invisível tentou nascer sob a pele, bem acima do coração. Uma dor incandescente a atravessou. Ela gemeu. Kaelen também. O Alfa Supremo levou a mão ao peito como se uma lâmina tivesse entrado entre suas costelas. Pela primeira vez desde que atravessara o portão carregando a cabeça de um inimigo, ele vacilou. O laço mental explodiu. Não o da Pack. Outro. Mais estreito. Mais profundo. Um fio de prata e sangue costurado diretamente entre a mente dela e a dele. Maya sentiu calor, couro, fúria. Viu flashes que não eram seus: uma floresta sob chuva, corpos de renegados no barro, um lobo negro enorme correndo com sangue nos dentes. Sentiu a solidão brutal de um trono gelado. A fome de proteger. A necessidade de possuir. Então a voz do lobo dele arrebentou dentro dela. Minha. Maya agarrou a coluna para não cair. Kaelen avançou com tanta rapidez que guerreiros puxaram ar entre os dentes. Em três passos, estava diante dela. Perto demais. Alto demais. Todo o salão desapareceu atrás de seu corpo. Ele ergueu a mão. Parou antes de tocá-la. Os dedos dele tremiam. Aquele detalhe — o tremor do Alfa Supremo — foi mais íntimo que qualquer carícia. — Você cheira… — A garganta dele trabalhou. As narinas dilataram. — Jasmim queimado. Chuva antes da tempestade. Maya sentiu o rosto arder. — Alfa… — Não me chame assim. A ordem saiu dura, mas não para feri-la. Para conter algo. Para empurrar de volta o lobo que rosnava contra a pele dele. No altar, as pedras lunares começaram a brilhar. Uma a uma. Prata pálida verteu das runas entalhadas no chão, escorrendo pelos sulcos como leite ardente. O círculo ritual, preparado para a cerimônia de escolha da futura Luna, acendeu ao redor de Kaelen e Maya. Alguém sussurrou: — A Moon Goddess… Outro respondeu, trêmulo: — Ela reconheceu. Maya olhou para baixo. Em seu pulso, onde ainda havia um arranhão antigo do trabalho nas cozinhas, surgiu uma linha negra sob a pele. Não era tinta. Era algo vivo. Uma meia-lua fina, tentando se formar, pulsando a cada batida do coração. A marca de acasalamento chamava por dentes, por sangue, por aceitação. No peito de Kaelen, sob couro rasgado e sangue seco, um brilho correspondente queimou. O salão inteiro viu. E ninguém respirou. Ronan fechou os olhos por um segundo, como se confirmasse uma sentença que temia há muito. — Alfa — disse uma voz idosa. O Conselho. Os anciões haviam se reunido junto ao lado norte do salão, mantos escuros, faces fechadas, olhos treinados a transformar milagres em problemas políticos. O conselheiro Veyr, magro como um galho morto, apoiou as duas mãos no cajado de osso. — A cerimônia ainda não começou. Kaelen não olhou para ele. — A Lua começou por nós. A frase atravessou Maya como fogo. Por um momento absurdo, terrível, ela acreditou. Acreditou que o homem diante dela enxergaria além do vestido simples, das mãos marcadas, da cabeça abaixada a vida inteira. Que ele sentiria a mesma dor e a chamaria de destino, não de vergonha. Que a palavra Mate, tão selvagem dentro do peito, teria força maior que títulos. Então Seraphine riu. Baixo. Não uma gargalhada. Apenas uma expiração delicada, afiada o bastante para cortar. — Com todo respeito à Lua — disse ela, caminhando para perto do círculo sem pisar nas runas —, nem todo fenômeno é bênção. Às vezes, o sangue da batalha confunde os sentidos de um Alfa ferido. Kaelen virou o rosto para ela. O ouro dos olhos dele escureceu. — Cuidado. Seraphine inclinou a cabeça, obediente na forma, venenosa no cheiro. E foi então que Maya percebeu. Por baixo da rosa fria do perfume de Seraphine, havia algo amargo. Medicinal. Uma doçura podre que arranhou seu nariz e fez sua loba recuar. Wolfsbane. Maya piscou, atordoada. Seraphine olhou para ela por um instante, e o sorriso que ofereceu não era para a plateia. Era promessa. — Alfa Draven — continuou ela, agora para todos ouvirem. — Meu pai atravessou metade do território para honrar o pacto. A Matilha de Ferro ofereceu guerreiros, ferro, fronteira sul. Todos aqui sabem que renegados se movem nas bordas da Lua Sangrenta. Todos aqui sabem que uma Luna fraca derruba um trono mais rápido que qualquer inimigo. O cheiro de cedro oscilou. Maya sentiu, pelo laço involuntário, a punhalada que atingiu Kaelen. Não no orgulho. Mais fundo. Medo. Imagem breve: uma mulher de cabelos escuros morta sobre neve. Sangue na garganta. Um menino ajoelhado demais cedo diante de um corpo que ainda cheirava a mãe. Kaelen arrancou o laço da mente dela com brutalidade. Maya ofegou, como se tivesse levado um tapa. — Fora da minha cabeça — ele rosnou. As palavras foram para ela. Mas a vergonha era dele. O conselheiro Veyr aproveitou a rachadura. — Alfa Supremo, a bênção de uma Alma Gêmea é sagrada, mas a liderança de uma Pack exige discernimento. Uma serva criada como Ômega não pode carregar a marca da Lua Sangrenta diante de matilhas rivais. Isso convidaria desafios. Disputas territoriais. Sangue de filhotes. — Ela não é serva — Ronan disse. Todos olharam para ele. O Beta manteve a coluna reta, mas Maya viu a tensão no maxilar. Desafiar Conselho em público era colocar a própria garganta na mão do Alfa. — Ela é membro da Pack — ele completou. — E a Lua a reconheceu. Seraphine virou-se para Ronan com uma expressão quase triste. — Que bonito, Beta Ash. Compaixão é admirável em tempos de paz. O subtexto pousou pesado. Traidor. Kaelen respirava pela boca. O lobo dele empurrava tão perto da superfície que a sombra do homem parecia maior no chão. Por um segundo, Maya viu a transformação ameaçar: os ombros se expandindo, a mandíbula estalando, pelos negros surgindo sob a pele manchada de sangue. O Alfa lutava contra si mesmo. Contra ela. Não, não contra ela. Contra o que ela significava. Maya percebeu isso com uma clareza que doeu mais que qualquer insulto. Kaelen Draven queria sua garganta. Queria enterrá-la contra a parede e respirar seu cheiro até a guerra sumir. Queria marcar o pulso dela, o pescoço, a alma. E odiava querer. — Diga — Seraphine murmurou, aproximando-se apenas o bastante para que só Kaelen e Maya ouvissem. — Diga antes que eles digam por você. Os dedos de Kaelen se fecharam. O salão aguardava. A Moon Goddess brilhava nas runas, insistente, impiedosa. Maya olhou para ele. Não abaixou os olhos. Talvez por loucura. Talvez porque algo nela já estivesse morrendo e os mortos não pedem permissão. — Kaelen — ela disse. O nome dele saiu de sua boca como um erro íntimo. O Alfa estremeceu. O lobo dele bateu no laço partido entre ambos, furioso. Minha. Mais fraco agora. Mais desesperado. Kaelen fechou os olhos. Quando abriu, o dourado ainda estava lá, mas frio. Controlado. O olhar de um rei escolhendo quem sangra para manter o mapa inteiro. — Eu, Kaelen Draven, Alfa Supremo da Matilha da Lua Sangrenta… Maya parou de respirar. Ronan deu um passo. — Kaelen. O rosnado do Alfa cortou o nome antes que virasse súplica. — …reconheço o chamado da Moon Goddess. Um tremor atravessou o salão. Alguns sorriram, outros empalideceram. Talia levou a mão à boca. Maya sentiu lágrimas arderem, sem cair. Então Kaelen olhou para o pulso dela, para a meia-lua negra tentando nascer. E destruiu tudo. — E rejeito o laço. A dor não veio de imediato. Primeiro veio o silêncio. Tão completo que Maya ouviu uma gota de sangue cair da armadura dele no chão. Depois a marca em seu pulso se abriu. A pele rasgou de dentro para fora. Sangue escuro escorreu até os dedos, quente e espesso, pingando sobre a pedra lunar acesa. A meia-lua tentou completar-se uma última vez, desesperada, e então se partiu ao meio. Maya gritou. Não queria gritar. O som saiu dela como se alguém arrancasse sua loba pelas costelas. Kaelen empalideceu. Uma linha de sangue surgiu no nariz dele também, fina, vermelha, insultantemente humana. Ele a limpou com o polegar antes que muitos vissem, mas Maya viu. Sentiu. A rejeição do laço voltou para ele como garra no coração. Mesmo assim, ele continuou. — Maya Vale-Neblina não será minha Luna. Não receberá minha marca de acasalamento. Não dividirá meu trono, meu sangue ou meu nome. Cada frase era uma mordida. Cada palavra, dentes fechando onde a Lua havia tocado. O nariz de Maya começou a sangrar. Ela sentiu o gosto metálico escorrer pela garganta. Suas pernas tremiam, mas ela permaneceu de pé porque cair antes de responder seria dar a todos o prazer de vê-la pequena. Seraphine deu um passo à frente, impecável, radiante. Kaelen não a tocou. Ainda assim, a anunciou. — Para proteger esta Pack e honrar o pacto de guerra, escolherei Seraphine Voss, filha do Alfa da Matilha de Ferro, como futura Luna da Lua Sangrenta. O salão explodiu em murmúrios. Alguns de alívio. Alguns de horror. Maya ouviu risos abafados perto das colunas. Ou talvez fosse o sangue batendo em seus ouvidos. Talia chorava, mas Maya não sabia por quem. Ronan tinha o rosto de pedra de um homem assistindo a uma execução que jurou impedir tarde demais. Seraphine inclinou-se numa reverência perfeita. — Sua confiança fortalecerá nosso território, meu Alfa. Meu Alfa. As palavras rasparam em Maya como unhas em osso. A rejeição exigia resposta. A Lei da Pack era antiga. Cruel. Um laço de Alma Gêmea podia ser rejeitado por um, mas enquanto o outro não aceitasse, sangrava aberto entre ambos, atraindo loucura, fraqueza, morte. Maya conhecia a regra como se conhece a posição dos móveis no escuro: porque lobas como ela aprendiam todas as formas de serem descartadas. Kaelen a encarou. Havia ordem nos olhos dele. Aceite. Havia outra coisa também, soterrada, selvagem, quase invisível. Não aceite. Maya sorriu. Foi um gesto pequeno. Torto. Feito de sangue. — Você me rejeita para salvar sua Pack? — A voz dela saiu rouca, mas audível. — Ou para salvar seu orgulho? O salão parou outra vez. A sombra do lobo de Kaelen cresceu atrás dele. — Cuidado, Maya. Ali estava. O nome dela na boca dele. Ferido. Possessivo. Imperdoável. Maya limpou o sangue do nariz com as costas da mão e ergueu o pulso aberto. A pedra lunar sob seus pés bebeu a primeira gota. Depois outra. As runas piscaram. Ninguém pareceu notar. Exceto Ronan. O Beta olhou para o chão, e seu rosto perdeu a cor. Maya respirou uma vez. O ar tinha gosto de ferro, wolfsbane e cedro. O gosto do homem que a Lua lhe dera e que a matilha arrancara diante de todos. — Eu, Maya Vale-Neblina — ela disse, e sua loba, a loba sem uivo, arrastou-se ensanguentada até sua voz —, aceito a rejeição do laço de Kaelen Draven, Alfa Supremo da Matilha da Lua Sangrenta. A palavra final quebrou algo. Não metaforicamente. As pedras do altar estalaram. Uma fissura atravessou a lua esculpida no centro do salão, correndo como veia negra até os pés de Kaelen. As tochas se apagaram de uma vez. O laço mental da Pack gritou — centenas de vozes em pânico, filhotes chorando, guerreiros rosnando, anciões sufocando — e então ficou mudo. Maya caiu de joelhos. A dor no peito era branca. Tão branca que não tinha nome. Seu pulso sangrava sem obedecer à cura. O nariz também. Ela tentou puxar ar, mas o próprio coração parecia uivar dentro dela, um som furioso, animal, preso atrás das costelas quebradas. Kaelen se moveu. Instinto puro. Um passo em direção a ela. Seraphine agarrou seu braço. — Não. O rosnado que saiu de Kaelen não pertencia a um homem. Pertencia ao lobo negro que queria arrancar dedos da mulher que ousara detê-lo. O salão inteiro recuou. As pupilas dele desapareceram em ouro bruto, os ossos dos ombros rangendo sob a pele. Maya ergueu o rosto a tempo de vê-lo lutando contra a própria transformação. Contra o impulso de tocá-la. Contra a sentença que ele mesmo pronunciara. O sangue de Maya pingou na fissura da pedra. Uma luz vermelha, antiga e faminta, acendeu sob o chão. E, de algum lugar abaixo do Salão da Lua, algo respondeu com um uivo que não vinha de nenhum lobo vivo. Maya tentou dizer o nome de Kaelen. Só saiu sangue. Então seu corpo cedeu diante da matilha inteira, e a última coisa que ouviu antes da escuridão foi o uivo furioso do próprio coração quebrado — e a voz do lobo dele rasgando o vazio do laço morto: Minha.
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