Luna Rejeitada
Cap. 5 de 10 · 40%

O Nome Que o Alfa Não Podia Rugir

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O primeiro filhote vomitou sangue antes do amanhecer. Não foi muito. Apenas uma fita escura escorrendo pelo queixo redondo, manchando a manta de lã e a mão desesperada da mãe. Mas o cheiro atravessou a enfermaria como uma lâmina quente: ferro, leite azedo, pânico. Depois veio o segundo. Depois o terceiro. Quando Kaelen Draven entrou no Salão de Cura da Matilha da Lua Sangrenta, todos os uivos morreram presos nas gargantas. As mães se afastaram por instinto, abrindo caminho ao Alfa Supremo. Os pais baixaram os olhos. Os curandeiros inclinaram a cabeça com as mãos sujas de ervas e sangue infantil. Até as chamas das lamparinas pareceram se curvar quando ele passou, alto, de preto, ombros largos ainda marcados por cortes recentes da disputa territorial. A presença dele pressionava o ar. Cedro queimado. Pele quente. Poder alfa bruto o suficiente para fazer lobos adultos exporem a nuca sem perceber. Kaelen parou ao lado de uma cama estreita. Uma menina de cinco invernos tremia sob peles de raposa. Suas pupilas iam e vinham do castanho para o âmbar, sem conseguir firmar em humano ou loba. Pequenas garras rasgavam o lençol. O mind-link dela piscava contra a mente de Kaelen como uma vela afogando em vento. Alfa... A voz infantil se partiu antes de terminar. Kaelen fechou a mão. — Há quanto tempo? A curandeira principal, Edda, engoliu seco. — Começou depois da meia-noite. Febre sem ferida. Sangramento nasal. Os lobos deles chamam e não respondem direito. — Wolfsbane? — Procuramos. Nada. — Veneno de renegado? — Não há cheiro. Kaelen inclinou-se e tocou a testa da menina. A pele queimava como pedra ao sol. O lobo dentro dele rosnou, inquieto, furioso por não encontrar inimigo para despedaçar. — Fique comigo, pequena — ele ordenou, a voz baixa o bastante para ser quase ternura e dura o bastante para parecer lei. A criança abriu os olhos. Dourado fraco nadou ali. — A lua... está chorando. O silêncio caiu pesado. Kaelen retirou a mão devagar. Atrás dele, alguém soluçou. Ele não olhou. Não podia oferecer aos outros o rosto de um homem. Só o de um Alfa. — Dobrem as patrulhas internas. Isolem os doentes. Se qualquer um sentir cheiro de erva, magia ou renegado, quero o nome antes de respirar de novo. — Sim, Alfa. O laço mental da matilha zuniu ao redor dele, cheio de vozes assustadas. Kaelen empurrou força pelo mind-link coletivo, uma onda de comando que deveria acalmar, alinhar, proteger. Obedeçam. Respirem. Eu estou aqui. Por um instante, o terror baixou. Então, no extremo norte do território, uma voz gritou dentro de sua cabeça. Alfa, perdemos Darric. Ele estava ao meu lado e— A ligação estalou. Não como distância. Como osso quebrando. Kaelen endireitou-se. — Quem era? Ronan Ash já vinha pelo corredor de pedra, o rosto fechado, uma cicatriz no ombro aparecendo por baixo do couro rasgado. Ele não se curvou. Nunca além do necessário. — Patrulha da fronteira norte. Três lobos perderam o mind-link ao cruzar a linha dos carvalhos negros. Dois voltaram sem lembrar o caminho. Um ainda está lá fora. Kaelen caminhou, e Ronan o acompanhou. — Renegados. — Talvez. — Não me dê talvez. Ronan olhou para as mães agarradas aos filhos febris. — As árvores estão sangrando. Kaelen parou no meio do corredor. — Repita. — Na fronteira. A seiva está preta. Grossa. Cheira a sangue velho e raiz queimada. Os lobos não querem se aproximar. Até os cavalos recuaram. O lobo de Kaelen bateu contra suas costelas. Maya. O nome surgiu sem permissão, como uma unha puxando uma ferida. Ele esmagou o pensamento antes que tomasse forma. — Quero ver. — Há outra coisa primeiro. — Ronan. O Beta enfiou a mão dentro do casaco e tirou um embrulho de couro manchado de poeira. Segurou-o como quem segurava uma cobra. — Encontrei nos túneis sob o Salão da Lua. Registros anteriores à fundação oficial da Pack. Estavam selados com prata lunar. Kaelen arrancou o embrulho de sua mão. — E agora você virou rato de biblioteca? — Virei o homem que limpa sangue quando reis fingem não ter mãos. Os olhos de Kaelen faiscaram ouro. Um guarda ao fundo prendeu a respiração. Ronan não baixou os olhos. Kaelen abriu o couro. Dentro, folhas finas de pele curtida traziam marcas antigas desenhadas em tinta escurecida. Símbolos lunares. Nomes riscados. Uma mulher de cabelos prateados pintada com uma meia-lua no pulso. Aelira. O nome não estava escrito na língua atual, mas Kaelen o sentiu como um dente antigo encaixando em sua memória de infância. Histórias proibidas sussurradas por sua mãe antes de morrer. A primeira Luna. A loba que conversava com a terra. A mulher que nenhum Alfa conseguiu possuir. Ronan apontou para uma passagem. — Leia. Kaelen leu. Se o Alfa de sangue Draven recusar a Luna marcada pela Lua, a terra beberá a força da Matilha. Os filhotes arderão sem fogo, os laços mentais cairão como fios queimados, e a fronteira verterá sangue até que o perdão seja pedido sem coroa, sem exército e sem orgulho. As palavras ficaram imóveis. O corredor não. O castelo pareceu respirar ao contrário. Kaelen fechou o punho sobre a pele curtida, amassando as bordas. — Superstição. — Os filhotes estão ardendo. — Coincidência. — Os mind-links estão caindo. — Ataque renegado. — As árvores estão sangrando. Kaelen avançou um passo. O ar escureceu ao redor dele. Guardas recuaram sem ordem. — Cuidado, Beta. Ronan inclinou a cabeça, mas sua voz saiu crua. — Eu tive cuidado no salão quando você quebrou aquela menina diante de todos. Tive cuidado quando ela saiu descalça pela neve. Tive cuidado quando ouvi seu lobo uivar a noite inteira como se estivesse arrancando a própria pele. Meu cuidado está matando gente. Kaelen agarrou Ronan pelo colarinho e o lançou contra a parede. A pedra rachou. — Maya Vale-Neblina não é sua Luna. — Não é? — Ronan cuspiu sangue no canto da boca. — Diga isso para seu peito toda vez que ela respira longe de você. Kaelen sentiu a pontada no mesmo instante, traiçoeira. Uma garra invisível sob as costelas. Breve. Profunda. Jasmim queimado e chuva. Ele soltou Ronan como se o toque queimasse. — Seraphine será coroada. Ronan riu uma vez, sem humor. — Então está escolhendo a aliança enquanto a Matilha apodrece. — Estou escolhendo soldados, ferro, fronteiras. Estou escolhendo sobrevivência. — Está escolhendo orgulho. O rugido de Kaelen sacudiu as lamparinas. — Chega. O mind-link coletivo se encolheu. Lobos em vários corredores baixaram as cabeças, atingidos pelo comando alfa sem nem saber de onde vinha. Kaelen virou-se para os guardas. — Chamem o Conselho. Hoje à noite haverá anúncio oficial do noivado com Seraphine Voss. A cerimônia de união política será antecipada. Ronan ficou imóvel. — Alfa. Kaelen não olhou para trás. — E mande patrulhas procurarem Maya. O Beta estreitou os olhos. Kaelen apertou a mandíbula até sentir sangue na boca. — Para trazê-la viva. Se a maldição é mentira, interrogaremos. Se é verdade... — sua voz falhou apenas no espaço entre duas batidas do coração — então ela é valiosa demais para ficar nas mãos de renegados. — Valiosa — Ronan repetiu, baixo. — Moon Goddess nos perdoe. Kaelen caminhou antes que o próprio lobo se jogasse contra ele por aquela palavra. Valiosa. Como arma. Como peça. Como cura. Nunca como Mate. Nunca como a mulher cujo cheiro ainda estava enterrado em seus lençóis, embora ela jamais tivesse dormido neles. Nunca como a garganta que ele quis marcar no segundo em que a viu, diante de toda a Pack, com olhos de quem esperava uma sentença e não um amor. Nunca como a Alma Gêmea que ele destruíra para salvar um trono que agora começava a feder a podridão. No pátio central, a Matilha se reuniu sob um céu baixo, cor de carne machucada. A Lua Sangrenta ainda pairava pálida no horizonte, recusando-se a desaparecer. Bandeiras vermelhas estalavam nas torres. Lobos adultos formavam círculos por hierarquia: Alfas menores à frente, Betas armados nas laterais, Ômegas ao fundo, espremidos em silêncio. O cheiro coletivo era medo mascarado por disciplina. Seraphine Voss apareceu vestida de branco. Branco cruel demais para o inverno. Branco de osso polido. Os cabelos dourados caíam sobre um ombro em ondas perfeitas, e sua garganta nua exibia o espaço intacto onde uma marca de acasalamento deveria um dia queimar. O perfume dela chegou antes do sorriso: flores doces, especiarias caras e, por baixo, algo amargo. Wolfsbane branco. Kaelen percebeu. Percebeu e ignorou. Seraphine pousou a mão em seu braço como se já fosse dona dele. — Meu Alfa — murmurou, alto o bastante para a primeira fileira ouvir. — Sua Matilha precisa ver força, não luto. — Minha Matilha verá o que eu mandar. O sorriso dela não vacilou. — Naturalmente. Kaelen subiu os degraus da plataforma lunar. A pedra sob suas botas estava fria. O mesmo lugar onde, dias antes, Maya ficara parada enquanto todos riam baixo. O mesmo lugar onde seu lobo gritara Mate e sua boca dissera rejeição. A multidão se ajoelhou. O som de centenas de joelhos na pedra bateu nele como chuva de ossos. Kaelen ergueu a voz. — A Matilha da Lua Sangrenta enfrentou invasores, traições e guerras de fronteira. Enfrentaremos também esta doença. Não há maldição mais forte que meu comando. Não há inimigo que sobreviva ao meu território. Um murmúrio de aprovação percorreu os lobos. Fraco. Faminto por acreditar. Ronan estava na lateral, rosto fechado, mãos atrás das costas. Seraphine deu um passo à frente, encaixando-se ao lado de Kaelen como uma lâmina bonita. — Pela união da Lua Sangrenta e da Matilha de Ferro — ela disse — nossas fronteiras serão impenetráveis. Nosso sangue será mais forte. Nosso futuro, incontestável. Aplausos começaram. Hesitantes. Depois mais altos, porque medo também obedece ritmo. Kaelen sentiu o lobo se revolver. Não. A palavra veio de dentro dele, antiga e animal. Não ela. Ele travou os músculos. Seraphine virou-se para ele. Os olhos azuis brilhavam como vidro sobre veneno. — Mostre a eles — sussurrou. — Escolha-me outra vez. Subtexto suficiente para virar faca. Escolha-me diante dela ausente. Enterre a Ômega. Enterre a Mate. Enterre a vergonha. Kaelen tomou o rosto de Seraphine entre os dedos. A pele dela era fria. Macia. Errada. Ele inclinou a cabeça. A multidão prendeu o fôlego. Quando a boca dele tocou a dela, o perfume de wolfsbane branco subiu como fumaça amarga, tentando preencher lugares onde só havia chuva e jasmim queimado. Seraphine apertou os dedos em sua nuca, encenando intimidade. Possessão. Vitória. Então a dor veio. Não pontada. Dilaceração. Uma lâmina atravessou o flanco de Kaelen de dentro para fora. O mundo branco de Seraphine sumiu sob uma explosão de sangue quente, neve, pedra e uma respiração feminina quebrando entre dentes cerrados. Maya. Ele viu sem ver. Uma sala escura de montanha. Fogo baixo. Nara Lua-Cega segurando uma lâmina de prata lunar. Maya de joelhos sobre pele de lobo, os cabelos colados à nuca suada, o manto caído dos ombros. Marcas negras serpenteavam por suas costelas como raízes vivas. Nara cortou a pele acima da marca do pulso. Maya não gritou. Isso foi pior. Kaelen sentiu a dor dela atravessar o laço rompido e devorar o ar de seus pulmões. Sentiu o sangue dela pingar em uma tigela de ferro. Sentiu o lobo dela bater contra ossos humanos, enorme, prateado, furioso, preso por treinamento ou tortura. A visão piscou. Seraphine ainda o beijava. A Matilha ainda aplaudia. E Kaelen estava sangrando pelo nariz. Ele empurrou Seraphine para longe com força suficiente para fazê-la tropeçar. O pátio inteiro congelou. Kaelen levou a mão ao próprio flanco, onde não havia ferida, mas a dor rasgava, rasgava, rasgava. Maya arqueou em algum lugar distante. Dessa vez, ela gritou. O rugido que saiu de Kaelen não tinha linguagem de rei, nem cálculo de Alfa, nem qualquer vestígio de homem civilizado. As janelas do castelo explodiram para dentro. Filhotes febris choraram na enfermaria. Lobos se transformaram sem querer nas bordas da multidão, ossos estalando, olhos dourados acesos pelo terror. Kaelen caiu sobre um joelho na plataforma lunar, garras rompendo seus dedos, presas rasgando a gengiva, o lobo tomando metade de seu rosto diante de todos. E rugiu o nome dela. — MAYA!
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