A água fechou sobre o rosto de Maya como uma boca gelada.
Por um segundo, o mundo ficou sem som.
Só o sangue.
O dela.
Escapando quente do flanco rasgado, abrindo fitas escuras no riacho vermelho. A correnteza puxava seu cabelo para trás, as pedras mordiam sua coluna, e acima dela a lua sangrava inteiro, enorme, monstruosa entre os galhos. O lobo cinza pressionava as patas sobre seu peito, pesado demais, faminto demais. As presas desceram para sua garganta.
Maya tentou empurrá-lo.
Os braços não obedeceram.
A dor já não era lâmina. Era oceano. Engolia tudo: a rejeição diante da Pack, o cheiro de cedro de Kaelen, os olhos dourados dele quando disse aquelas palavras, o riso fino de Seraphine, o silêncio do Conselho. Tudo afundava com ela.
Menos a marca.
A meia-lua partida em seu pulso queimou sob a água.
Não fechava como cura.
Fechava ao contrário, como se a ferida desaprendesse a ser ferida.
Uma linha negra subiu por sua pele, fina como veia, pulsando no ritmo de algo que não era seu coração. O lobo sobre ela congelou. A baba quente caiu em seu queixo. Os olhos amarelos se estreitaram.
Maya ouviu uma voz.
Não de Kaelen.
Não pelo mind-link quebrado.
Uma voz feminina, antiga como neve sobre ossos.
Levante.
A palavra atravessou sua carne.
Maya abriu a boca debaixo d’água.
O uivo que saiu dela não deveria existir.
Não cabia em garganta humana. Rasgou o riacho, explodiu em bolhas rubras, subiu pelas árvores e fez os pinheiros tremerem até chover geada. Os renegados recuaram com as orelhas coladas ao crânio. Um deles caiu de joelhos, as mãos contra a cabeça, como se o som arrancasse pensamentos.
O lobo cinza tentou morder.
Chegou tarde.
Os ossos de Maya estalaram.
Não como nas transformações que ela escutara a vida inteira — rápidas, treinadas, quase elegantes, o lobo saindo do corpo como uma lâmina de dentro da bainha. Aquilo foi brutal. Sagrado. Seu quadril partiu em fogo, a coluna se curvou, costelas se abriram por dentro sem quebrar de verdade, e uma pele nova empurrou a antiga.
Prata irrompeu dela.
Pelo molhado, luminoso sob a lua vermelha.
As unhas se alongaram em garras negras. A mandíbula avançou. Seus dentes encontraram o focinho do lobo cinza antes que ele entendesse o que havia acontecido.
Maya mordeu.
Osso cedeu com um estalo úmido.
O renegado guinchou, mas o som morreu quando ela sacudiu a cabeça e o arremessou contra uma árvore. O tronco rachou. O corpo caiu torto, metade homem quando bateu no chão, metade lobo quando parou de respirar.
Silêncio.
Então a floresta inteira respirou com medo.
Maya saiu do riacho.
Não andou.
Caçou.
Seu corpo era enorme, maior que qualquer loba da Matilha da Lua Sangrenta, pelagem prateada grudada ao flanco ensanguentado, marcas negras serpenteando pelos ombros e patas como veias de luar apodrecido. Cada pulsação das marcas fazia o ar esfriar. Onde suas patas tocavam, a água virava cristais de gelo vermelho.
Os renegados se espalharam.
O antigo, aquele de rosto meio transformado, mostrou os dentes.
— Primeira Luna — ele sussurrou, e dessa vez não havia prazer na voz. Só terror. — Não. Você morreu.
Maya rosnou.
Ela não sabia quem ele via.
Só sabia que o cheiro deles era errado: fome velha, carne sem Pack, sangue roubado, medo escondido sob violência. E sabia, com uma clareza que vinha de alguma lua enterrada em seu peito, que eles tinham tocado nela quando ela estava caída.
Nunca mais.
Um renegado saltou por sua esquerda.
Maya girou. As garras abriram a barriga dele em quatro linhas negras. O calor das vísceras atingiu seu focinho; vapor subiu no ar frio. Outro veio em forma humana, com uma faca de osso. Ela arrancou o braço dele antes que a lâmina tocasse sua pelagem. O grito dele virou uivo, o uivo virou engasgo, o engasgo virou nada quando suas presas encontraram a garganta.
Sangue espirrou sobre suas marcas.
Elas brilharam.
Mais frio.
Neve começou a cair.
Não havia nuvens.
Flocos brancos desceram entre as copas negras, pousando sobre corpos abertos, sobre o riacho vermelho, sobre a loba prateada que respirava com os dentes à mostra. Maya sentiu cada gota de sangue na língua como uma palavra. Cada batida de coração inimigo como um tambor indicando onde morder.
Um dos lobos renegados tentou fugir.
A loba dentro dela — ou a coisa antiga usando seu nome — não permitiu.
Maya disparou entre as árvores. O mundo se tornou cheiro e movimento: casca úmida, pânico ácido, lama esmagada sob patas, músculo contra músculo, ar cortando o focinho. Ela saltou sobre uma pedra coberta de musgo e caiu sobre as costas do fugitivo. A coluna dele quebrou sob seu peso.
Atrás dela, o renegado antigo riu.
Uma risada fina. Desesperada.
— Ele rejeitou você — disse, cambaleando para trás. — O Alfa Supremo cuspiu na bênção da Moon Goddess. Sua Pack vai sangrar por isso.
O nome de Kaelen queimou dentro do crânio dela.
Cedro. Cinzas. Mãos que nunca a tocaram com ternura. Olhos dourados cheios de fome e vergonha. A voz no salão, fria como lâmina:
Eu rejeito o laço.
A dor atravessou Maya tão fundo que por um instante sua forma oscilou. A pelagem prateada arrepiou, os músculos tremeram. O renegado viu a brecha e atacou.
Ele era rápido.
Maya era outra coisa.
Ela o recebeu no ar.
Dentes contra dentes.
O impacto os jogou dentro do riacho. Água vermelha explodiu ao redor. Ele tentou cravar as garras em seu flanco ferido, e a dor quase a cegou; Maya sentiu a carne abrir de novo, sentiu a fraqueza humana chamando por queda, por rendição, por fim.
Então a lua acima delas pareceu piscar.
Não no céu.
Dentro dela.
Aelira.
O nome veio com gosto de ferro e jasmim queimado.
Maya afundou as presas no ombro do renegado e arrancou um pedaço. Ele berrou. Ela empurrou o corpo dele contra as pedras, segurando-o pela garganta, enquanto as marcas negras em suas patas se expandiam como raízes.
— Luna morta — ele gorgolejou, tentando rir. — Luna rejeitada.
Maya apertou.
O crânio dele bateu na pedra uma vez.
Duas.
Na terceira, o riacho levou silêncio.
Quando tudo acabou, a floresta não comemorou.
Não havia vitória em redor dela. Só corpos. Vapor. Neve caindo sobre sangue quente. A água vermelha agora corria espessa, carregando tufos de pelo, pedaços de carne e folhas esmagadas. Maya ficou parada no meio do riacho, enorme e ofegante, com o focinho molhado de morte.
O poder começou a ir embora.
Não como presente devolvido.
Como pele arrancada.
A transformação recuou sem misericórdia. Ossos puxaram de volta, músculos encolheram, garras se partiram em unhas humanas. Maya caiu de quatro dentro da água, nua, tremendo tanto que os dentes bateram. A neve grudou nos ombros, nos cabelos escuros colados ao rosto, nas marcas negras que ainda pulsavam fracas sob sua pele.
A meia-lua no pulso estava inteira.
Mas não era prata.
Era negra.
Maya olhou para aquilo e tentou respirar.
O ar entrou como vidro.
— Não — ela sussurrou, sem reconhecer a própria voz. — Não, não, não...
Um galho estalou.
Maya ergueu a cabeça, selvagem demais para ser só humana. Procurou uma pedra, uma faca, qualquer coisa. Os músculos falharam. Seu corpo pendia entre fuga e desmaio.
Uma mulher surgiu entre as bétulas.
Usava um manto grosso cor de musgo morto, a barra úmida de neve. Os cabelos eram brancos, trançados com contas de osso e pequenas luas de ferro. Os olhos tinham a película leitosa dos cegos, mas não vacilavam. Ela caminhou entre os cadáveres como se visse cada um. Como se já os tivesse esperado.
Seu cheiro chegou antes da voz.
Sálvia.
Ferro antigo.
Neve.
Maya rosnou de dentro da garganta.
A mulher parou a três passos.
— Se eu quisesse sua morte, criança, teria deixado os renegados terminar o que começaram.
— Não me chame de criança.
A boca da mulher quase sorriu.
— Melhor. Ainda há dentes em você.
Maya tentou se levantar. O flanco abriu em dor e o mundo inclinou. Ela caiu de joelhos, uma mão afundada na lama vermelha.
A mulher tirou o manto dos ombros e o jogou sobre Maya sem pedir licença.
Maya agarrou o tecido contra o peito, tremendo. O orgulho veio um segundo depois da vergonha, tarde demais para protegê-la.
— Quem é você?
— Nara Lua-Cega.
O nome atravessou Maya com uma memória que não era memória. Sussurros de cozinha. Histórias proibidas de uma curandeira expulsa por desafiar um Alfa. Uma velha bruxa que falava com marcas de acasalamento mortas. Uma traidora. Uma santa. Dependia de quem contava.
Maya recuou um pouco.
— Você vive no território proibido.
— Eu sobrevivo nele. Há diferença.
Nara inclinou a cabeça, farejando o ar. Seus olhos cegos pousaram no pulso de Maya com precisão cruel.
— Mostre.
Maya fechou a mão.
— Não.
— Então esconda de mim o que a floresta inteira acabou de ver. Talvez os mortos sejam educados e guardem segredo.
— Eu não sei o que aconteceu.
A frase saiu pequena. Odiável.
Nara se agachou diante dela, sem pressa, os joelhos estalando. De perto, seu rosto tinha sulcos fundos, como rios secos. Não havia pena nele. Isso doeu menos do que Maya esperava.
— Você quase morreu — Nara disse. — A lua abriu os olhos. Seu sangue respondeu.
— Meu sangue é de Ômega.
— Seu sangue foi chamado de Ômega por gente que tinha medo dele.
Maya sentiu raiva, mas não tinha força para carregá-la.
— Eu não sou nada.
Nara estendeu a mão.
— Foi isso que ele lhe ensinou?
O cheiro de cedro queimado atravessou Maya tão súbito que ela quase vomitou. Kaelen. O laço morto. A voz dele chamando seu nome pela ferida.
Maya desviou o rosto.
— Não fale dele.
— Ele falou de você quando a rejeitou diante da Pack.
A neve caía entre elas, leve, absurda. Um floco pousou no pulso de Maya e derreteu sobre a marca negra.
Nara não tocou ainda. Apenas olhou com olhos que não viam.
— Maya Vale-Neblina — ela disse, e o nome inteiro pareceu uma chave girando em fechadura antiga. — Descendente selada de Aelira, primeira Luna da Lua Sangrenta.
O riacho pareceu parar.
— Cale a boca.
— A marca não mente.
— Eu disse para calar a boca.
A voz de Maya tremeu, mas o ar respondeu. A neve ao redor girou em pequenos círculos. Um dos cadáveres de renegado deslizou alguns centímetros para longe dela, como puxado por uma maré invisível.
Nara sorriu sem alegria.
— Viu? O território reconhece você mesmo quando você tenta não se reconhecer.
Maya apertou o manto contra o corpo. O frio já não vinha só de fora. Nascia nos ossos.
— Eu quero ir embora.
— Vai morrer antes do amanhecer se ficar aqui. Os outros renegados sentirão o massacre. E os batedores de Kaelen sentirão seu sangue.
Kaelen.
O nome feriu outra vez, mas agora trouxe algo junto: uma pressão distante, como garras batendo contra uma porta fechada. O laço mental rompido insistia no escuro. Não aberto. Não vivo. Mas faminto.
Maya fechou os olhos.
— Eu não volto.
— Não pedi isso.
— Se você veio me entregar a ele—
— Eu teria cortado minha própria língua antes de servir um Draven covarde.
Maya abriu os olhos.
A palavra ficou entre elas, quente no frio.
Covarde.
Ninguém chamava o Alfa Supremo assim. Não sem perder sangue.
Nara se levantou e ofereceu a mão.
— Meu refúgio fica além da ravina. Tem fogo, agulha, wolfsbane negro em dose que não mata, e paredes antigas o bastante para confundir mind-links. Você vem comigo ou espera a próxima alcateia faminta.
Maya olhou para os corpos.
Para a água vermelha.
Para a própria mão suja de sangue que podia ser seu ou deles.
— O que eu fiz?
— Sobreviveu.
— Aquilo não era eu.
— Era antes de você aprender a pedir permissão para existir.
Maya odiou o modo como a frase encontrou lugares moles dentro dela.
Não pegou a mão de Nara.
Levantou sozinha.
Ou tentou.
As pernas falharam no segundo passo. Nara a segurou pela cintura com firmeza seca, sem carinho decorativo. Maya mordeu um gemido quando o flanco abriu de novo. A curandeira pressionou dois dedos perto do ferimento, e uma dormência amarga se espalhou.
— Raiz de gelo — Nara murmurou. — Ande enquanto funciona.
A floresta mudou quando deixaram o riacho. Os pinheiros pareciam se inclinar para Maya. As sombras recuavam antes de tocar seus pés nus. Em algum lugar distante, um uivo respondeu à Lua de Sangue; depois outro; depois vários. Renegados ou patrulha, ela não sabia. Cada som entrava em sua pele como aviso.
Nara guiava sem enxergar, desviando de raízes e pedras com exatidão impossível.
— Você vê mesmo sendo cega — Maya murmurou, a voz quebrada pelo cansaço.
— Vejo o que lobos tolos escondem. Marcas. Laços. Maldições.
— Então viu o meu laço?
Nara demorou a responder.
— Vi quando ele nasceu.
Maya tropeçou.
— O quê?
— Continue andando.
— Nara.
A curandeira parou diante de uma parede de rocha coberta de hera morta. Tocou três pedras em sequência. Algo gemeu dentro da montanha, e uma fenda escura se abriu, soltando ar quente com cheiro de ervas queimadas e cinza limpa.
Refúgio.
Mas Maya não entrou.
— O que você quis dizer?
Nara virou o rosto para ela. Pela primeira vez, a dureza de sua expressão rachou o suficiente para revelar medo.
Medo de verdade.
Não dos renegados.
Não de Kaelen.
De algo maior.
— O laço entre você e Kaelen Draven foi selado antes do primeiro choro de vocês dois.
Maya sentiu o estômago cair.
— Mentira.
— A linhagem Draven jurou proteger a descendente de Aelira. Não possuí-la. Não usá-la. Não humilhá-la diante de um salão cheio de lobos sem espinha.
O mundo estreitou.
Maya ouviu, longe demais e perto demais, um eco de uivos vindos da direção do castelo. Não eram chamados de caça. Eram quebrados. Doentes.
Nara tocou a testa de Maya.
Os dedos estavam frios.
A marca no pulso ardeu negra.
Imagens explodiram atrás dos olhos dela: filhotes tremendo em camas de pele, sangue escorrendo do nariz de uma menina; patrulheiros caindo na fronteira sem ferida aparente; mind-links se partindo como fios queimados; o Salão da Lua com suas bandeiras vermelhas apodrecendo nas bordas; Kaelen de joelhos, mão cravada no peito, olhos dourados tomados por uma dor que não era só dele.
Maya tentou se afastar.
Nara segurou.
— Escute bem, verdadeira Luna — disse, cada palavra enterrando garras no escuro. — A Matilha da Lua Sangrenta começou a morrer no instante em que seu Alfa rejeitou você.
A fenda da montanha rangeu atrás delas.
E, da floresta, um uivo respondeu com o cheiro impossível de cedro queimado.