O único som que anunciava a presença de Kaito Arata era o chiado agudo de uma roda de carrinho precisando de óleo. Uma nota solitária e irritante que cortava o silêncio climatizado dos corredores da Morimoto Tech. Neste quadragésimo andar — o olimpo da presidência —, o ar era rarefeito, com um cheiro de couro, telas de alta definição e o perfume caro que ele aprendera a associar com poder e impaciência.
Kaito era uma sombra funcional, um reflexo momentâneo no piso de porcelanato que ele mesmo polia até parecer um espelho negro. Executivos em sapatos italianos atravessavam sua imagem sem baixar o olhar, suas vozes nunca hesitavam. Ele não era um homem; era a ausência de sujeira, a garantia de que as lixeiras estariam vazias na manhã seguinte. Uma peça anônima na engrenagem que movia fortunas.
Foi quando a porta do elevador privativo se abriu que a engrenagem travou. Aisa Morimoto surgiu como um golpe de vento, o cabelo negro em um corte geométrico impecável, o corpo envolto em um vestido que valia mais que o carro de Kaito. Prensando o celular contra a orelha, sua voz era uma lâmina.
— Eu não dou a mínima para o que o conselho acha da ótica da coisa! O projeto é um ralo de dinheiro. Cancele. — Atrás dela, seu pai, o presidente Daichi Morimoto, observava com a paciência de um jogador de xadrez que já prevê o xeque-mate.
Kaito instintivamente recuou o carrinho para junto da parede, tentando se fundir com a pintura branca. Mas Aisa, encerrando a ligação com um toque agressivo na tela, girou nos calcanhares e colidiu diretamente com a bandeja de metal. O impacto foi surdo, seguido pelo tilintar de frascos plásticos e o tombo fatal do copo térmico de Kaito.
O café, frio e barato, derramou-se em uma poça escura sobre o branco imaculado do chão, a mancha se alastrando como uma doença até tocar a ponta do sapato de camurça bege de Aisa.
O silêncio que caiu foi abrupto e pesado. O chiado da roda cessou. As vozes distantes do andar pareceram desaparecer. Aisa baixou o celular lentamente. Seus olhos, duros como obsidiana, cravaram-se em Kaito, desceram para a poça de café e fixaram-se na mancha em seu sapato. Um vinco de puro nojo repuxou o canto de sua boca perfeitamente desenhada.
— Mas o que… — A voz dela era um sussurro perigoso. — Você não olha por onde anda?
Ele não respondeu. A humilhação era um casaco pesado demais. Kaito apenas se ajoelhou, pegou um pano limpo do carrinho e começou a absorver o líquido, o cheiro amargo de café velho misturando-se ao perfume dela numa combinação enjoativa. Ele sentiu o peso do olhar de Daichi sobre si, um olhar que não via um funcionário, mas um contratempo. Um inseto na sala de reuniões.
— Estou falando com você. — Aisa deu um passo, o sapato manchado a centímetros da mão dele. — Olhe para mim.
Kaito ergueu o rosto. E o mundo dela parou por uma fração de segundo. Não havia medo nos olhos dele. Nenhuma súplica. Nenhuma da subserviência bajuladora que ela recebia como um tributo diário. Havia apenas… calmaria. Uma quietude profunda e inabalável que parecia absorver a fúria dela e anulá-la. A ousadia de não temê-la a enfureceu mais do que a mancha de café.
— Inacreditável. — ela sibilou. — Pai, eu quero esse homem fora daqui. Agora. A incompetência dele é um insulto.
Daichi Morimoto, que até então parecia meramente entediado, deu um passo à frente. Sua expressão não mudou. Ele olhou para o faxineiro ajoelhado, o uniforme cinza, a mancha no chão. Um problema. Uma solução simples.
— Ouviu minha filha — disse Daichi, a voz neutra, como quem dita um e-mail. — Vá ao RH. Entregue seu crachá. Você está demitido.
Kaito parou de limpar. A mão com o pano encharcado ficou imóvel sobre o porcelanato. Por um instante, ele permaneceu ali, de joelhos, absorvendo não o café, mas o peso daquelas palavras casuais e destrutivas. Então, algo mudou. A tensão em seus ombros se desfez, substituída por uma retidão quase imperceptível.
Lentamente, ele se levantou. Deixou o pano sujo cair de volta na poça com um baque molhado. Não olhou para o sorriso de triunfo mesquinho de Aisa, nem para Daichi, que já lhe dava as costas, o assunto encerrado. Em vez disso, Kaito enfiou a mão no bolso da calça do uniforme e retirou um celular antigo, a tela atravessada por uma teia de rachaduras.
O gesto era tão deslocado, tão fora do roteiro, que Aisa franziu a testa. Com o polegar, Kaito rolou por uma lista de contatos que continha um único nome. Pressionou o botão de chamada e levou o aparelho ao ouvido, o olhar fixo nas costas de Daichi Morimoto.
— Sou eu. — A voz de Kaito era baixa, mas cortou o silêncio do corredor com a precisão de um bisturi. Daichi parou. Virou-se devagar, a sobrancelha arqueada em questionamento. Kaito manteve o olhar. — Pode iniciar o protocolo.
Uma pausa. E então, o caos silencioso.
Aisa viu a cor fugir do rosto de seu pai. A máscara de controle e poder se estilhaçou, revelando um homem nu e apavorado. O smartphone de Daichi, um modelo de última geração, escorregou de sua mão frouxa e bateu no chão com um estalo seco. Ele não se mexeu. Seus olhos estavam presos no faxineiro demitido, a arrogância evaporando e dando lugar a algo que Aisa jamais pensou ver em seu pai.
Puro, absoluto terror.
Kaito encerrou a chamada e guardou o celular no bolso. Pela primeira vez, um sorriso mínimo, frio e afiado como um caco de vidro, tocou seus lábios. Ele se virou, ignorando-os completamente, e começou a empurrar seu carrinho em direção ao elevador de serviço.
O chiado solitário da roda recomeçou, ecoando pelo corredor como o prenúncio de uma tempestade. Aisa olhou do pai paralisado para o corredor por onde o faxineiro desaparecera. A mancha de café no chão já não era apenas sujeira. Era a marca de um território invadido. A pergunta queimava em sua mente, fria como o sorriso daquele homem: o que era aquele protocolo? E quem, em nome de todos os deuses, era o faxineiro que acabara de quebrar o homem mais poderoso que ela conhecia com uma única ligação?