O Faxineiro da Presidência
Cap. 2 de 20 · 5%

O Império em Xeque

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O eco dos saltos de Aisa no mármore do corredor era o único som que restava. Onde antes havia a figura curvada de um faxineiro, agora só existia o vazio e um pai quebrado. Daichi Morimoto, o homem cujo nome era sinônimo de poder em Tóquio, olhava para o celular estilhaçado no chão como se visse os destroços de seu próprio império. A máscara de controle não estava trincada; havia sido pulverizada. — Pai? — Aisa tocou seu braço. A pele estava gelada, úmida sob o tecido caro. — Que protocolo? Quem diabos é ele? Daichi recuou do toque dela, um espasmo de pavor. Ele cambaleou para dentro de seu escritório, a fortaleza de vidro com vista para o reino que governava, e desabou na poltrona de couro. As mãos tremiam tanto que ele falhou duas vezes ao tentar pegar o telefone sobre a mesa. Aisa o seguiu, a angústia transformando sua voz em uma lâmina. — Me diga o que está acontecendo! Ele ignorou-a, discando um número de memória. A veia em sua têmpora pulsava, um pequeno tambor marcando o fim de uma era. Silêncio. Ele bateu o fone no gancho com uma violência contida e discou outro número. Mais silêncio. Para Daichi Morimoto, o silêncio do outro lado da linha não era uma ausência de resposta; era a própria resposta. Era uma sentença. *** A manhã seguinte chegou não com um estrondo, mas com um silêncio doentio. Aisa não dormiu. Atravessou o saguão da Morimoto Tech no mesmo vestido da noite anterior, agora amassado como a sua dignidade. Os funcionários que antes se curvavam à sua passagem agora desviavam o olhar, os rostos pálidos fixos em suas telas. Nos monitores do andar financeiro, um gráfico vermelho-sangue mostrava a queda livre das ações da empresa. Os sussurros morriam quando ela se aproximava, mas o pânico era um cheiro no ar condicionado. Ela invadiu o escritório do pai. Ele estava lá, na mesma roupa de ontem, a barba por fazer uma afronta à imagem impecável que levara décadas para construir. Olhava pela janela panorâmica, não como um rei observando seu domínio, mas como um prisioneiro encarando as grades. — Nossa vida está desmoronando e você não faz nada? — A voz dela era um fiapo de desespero. — Ligue para os advogados. Para o conselho. Faça alguma coisa! Ele se virou, os olhos injetados finalmente focando nela. A voz saiu como um ranger de ferrugem. — É tarde demais, Aisa. — Tarde demais para quê? Para esmagar um faxineiro? Isso é um golpe, uma piada de mau gosto… O som suave do elevador privativo se abrindo no hall cortou seu discurso. O mesmo som que ontem anunciara sua própria chegada triunfante. Mas os passos que se seguiram eram diferentes. Firmes. Ritmados. O som de botas de trabalho fora substituído pela batida cara e confiante de sapatos de couro no mármore. O andar de alguém que não pedia espaço, mas o tomava. Aisa saiu do escritório a tempo de ver a figura que emergia no corredor. Não era um faxineiro. O homem que caminhava em sua direção usava um terno de lã cinza-carvão, cortado com uma precisão que sussurrava um poder que ela sempre gritara. O cabelo, antes escondido sob um boné, estava penteado para trás, revelando traços angulosos que sua arrogância jamais se dera ao trabalho de notar. O rosto era o mesmo, mas a postura, o campo de força que emanava dele, pertencia a outro homem. Kaito Arata. Ao seu lado, dois homens mais velhos, de aspecto solene, carregavam pastas. O andar inteiro congelou. Conversas pararam no meio. O clique dos teclados cessou. A incredulidade se espalhou como uma onda de choque, seguida pelo horror do reconhecimento. Kaito não olhou para os funcionários. Seus olhos estavam fixos na porta aberta da presidência. Ele passou por Aisa como se ela fosse uma estátua, parte da decoração, e isso a enfureceu mais do que qualquer insulto. — Você! — ela sibilou, a confusão dando lugar a uma fúria cega. — O que pensa que está fazendo? Seguranças! Os dois guardas na porta do escritório, homens leais ao seu pai por mais de uma década, apenas curvaram a cabeça ligeiramente. Para Kaito. Ele parou na soleira antes de se virar para ela. O olhar calmo de ontem ainda estava lá, mas agora continha o brilho frio de um predador que encurralou a presa. — Eles não trabalham mais para o seu pai — disse Kaito. A voz era a mesma, baixa e sem inflexão, mas o contexto a transformou em um golpe. — Aliás, ninguém aqui trabalha. Ele entrou. Daichi encolheu-se na cadeira. Kaito o ignorou, caminhando até a imensa mesa de carvalho. Passou os dedos pela superfície polida, um gesto de posse silenciosa. Um de seus acompanhantes depositou uma pasta sobre a mesa com um baque surdo. — Cláusula de sucessão do contrato original de fundação, senhorita Morimoto — disse o homem, com a voz neutra de quem lê um obituário. — O conselho ratificou a transferência de controle e a nomeação do senhor Kaito Arata como novo CEO e presidente do conselho. Efetivada às nove da manhã. As palavras flutuaram, sem nexo. *Contrato original. Sucessão.* Kaito. Arata. — Isso é impossível. Meu avô jamais… — Seu avô fez uma escolha — Kaito a cortou, a voz ainda baixa, mas com o peso do aço. Ele finalmente a encarou, e pela primeira vez, Aisa se sentiu inspecionada, avaliada e descartada. — E dívidas, senhorita Morimoto, sempre chegam ao vencimento. Ele se sentou na cadeira de Daichi. A cadeira do seu pai. E coube perfeitamente. O uniforme de faxineiro fora o disfarce; o terno era a pele verdadeira. Kaito reclinou-se, as mãos cruzadas atrás da cabeça, um rei inspecionando seu novo trono. Seu olhar varreu a sala — os retratos de gerações de Morimotos, os prêmios, a história de uma vida que não era mais deles. — Eu daria um dia — ele continuou, o tom casual tornando tudo mais cruel. — Mas estou me sentindo generoso. Têm quarenta e oito horas para desocupar esta sala. Levem apenas pertences pessoais. O resto fica. Quarenta e oito horas. Uma vida inteira, apagada com um gesto. Aisa abriu a boca, mas o ar parecia ter se solidificado em seus pulmões. Kaito baixou o olhar para o painel de controle embutido na mesa. Com um toque, ativou o sistema de comunicação do andar. Sua voz, não mais a de um servente, mas a do mestre, preencheu o silêncio sepulcral. — Departamento de manutenção. Quadragésimo andar. A pausa que ele fez foi deliberada, um requinte de crueldade. Ele ergueu os olhos e encontrou os de Aisa, certificando-se de que ela estava ouvindo. De que ela entenderia. — A sala da presidência precisa de uma limpeza completa.
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