Aisa não bateu. Empurrou a porta da presidência com o ombro, e a madeira maciça protestou antes de se chocar contra a parede. O som ecoou como um tiro no silêncio do santuário de seu pai — ou do que fora dele. As fotos de família haviam sumido. O uísque caro, a estátua de bronze, o mapa-múndi com pinos marcando as conquistas dos Morimoto. Tudo substituído por um espaço vazio, limpo e impessoal. Um necrotério.
Kaito Arata estava de costas, em pé diante da janela panorâmica, uma silhueta escura contra o brilho da cidade. O terno cinza-chumbo, impecável, parecia moldado em seu corpo, uma armadura que extinguira o faxineiro. Ele não se moveu com o estrondo. Essa calma insultuosa — a recusa em reconhecer a tempestade que ela era — foi a primeira rachadura na fúria de Aisa.
— Onde está o meu pai? — A voz dela saiu rasgada, vibrando com uma urgência que ela detestou.
Ele se virou, lento, deliberado. Seus olhos a mediram, não como um homem olha para uma mulher, mas como um avaliador inspeciona um objeto danificado. Não havia triunfo, raiva ou prazer. Apenas um vácuo gelado que a fez se sentir transparente.
— Seu pai? — A voz dele era a mesma, baixa e contida, a voz que pedia licença para esvaziar sua lixeira. A dissonância era enlouquecedora. — Creio que o senhor Morimoto está recolhendo seus pertences. Ele tem até o fim do dia. Assim como você.
— Isto é um golpe. Um absurdo. Meus advogados vão enterrar você em processos até que implore para voltar a limpar o chão.
Um espasmo, quase um sorriso, contraiu o canto de sua boca antes de morrer. Um músculo em desuso.
— Seus advogados passaram a noite em claro — disse ele, dando um passo lento em sua direção. — Tentaram, e falharam, em encontrar uma única brecha no documento que me sentou nesta cadeira. Advogados que, a propósito, agora têm um novo chefe.
Cada palavra era um martelo quebrando os pilares do mundo dela. O desespero arranhou sua garganta. Ela avançou, as mãos fechadas em punhos inúteis.
— Quem é você? Me diga. Agora.
— Você quer a verdade ou quer uma arma? — A pergunta dele foi tão precisa que a fez parar. — Você não busca respostas, senhorita Morimoto. Procura uma falha. Uma brecha. Uma desculpa para retomar o que, no fundo, você sempre soube que não merecia.
Aquilo a atingiu como um tapa. Antes que pudesse reagir, ele se virou e caminhou até uma seção da parede de madeira, pressionando um ponto que ela jamais notara. Um painel deslizou, revelando um cofre antigo. Ele girou o seletor com uma familiaridade obscena, e a porta de aço se abriu com um clique suave. De dentro, Kaito retirou uma única pasta de couro, gasta e rachada pelo tempo. Depositou-a sobre a superfície polida da mesa com uma finalidade silenciosa.
— A verdade que você procura sempre esteve aqui. Guardada pelo homem que mais temia que ela fosse encontrada.
Aisa o encarou, o coração batendo descompassado. Ele fez um gesto com a cabeça em direção à pasta. Um convite e uma sentença. Ela se aproximou, as pernas rígidas. Suas mãos trêmulas tocaram o couro frio antes de abrir o fecho de latão.
O cheiro de poeira e tempo subiu das folhas amareladas. Cópias de contratos, cartas, balanços escritos à mão. A caligrafia era elegante, quase uma obra de arte. Na primeira página, um contrato de fundação. O nome de seu avô, Kenji Morimoto, estava lá. E ao lado, com a mesma tinta desbotada, outro nome.
*Isamu Arata.*
— Arata… — O nome soou como vidro quebrado em sua boca.
— Meu pai — a voz de Kaito veio de perto, um sussurro no seu ouvido. Ela não o sentiu se aproximar. — O arquiteto. O gênio por trás da tecnologia que iniciou tudo. O homem que seu avô chamava de irmão enquanto planejava como apunhalá-lo.
Os dedos dela voaram pelos documentos, buscando, freneticamente, não a verdade, mas a mentira. *Transferência de ações. Dissolução amigável. Cláusula de dormência.* Palavras frias, legais, irrefutáveis.
— Seu avô o convenceu a assinar a própria ruína — Kaito continuou, sua voz um bisturi dissecando a história da família dela. — Em troca de uma promessa verbal. Uma formalidade, ele disse, para acalmar os investidores. Meu pai confiou. Era seu irmão. Ele morreu pobre, acreditando até o fim que Kenji um dia honraria a palavra.
Uma onda de calor subiu pelo pescoço de Aisa, queimando-lhe o rosto. O legado de seu avô, a fonte de seu orgulho, era uma fraude manchada de traição.
— E esta cláusula… — ela apontou, a mão tremendo, para um parágrafo circulado a lápis.
— A única salvaguarda que o advogado do meu pai conseguiu incluir. Uma bomba-relógio poética. Se a linhagem direta de Isamu Arata fosse privada de posses e, ao mesmo tempo, fosse lesada diretamente por um descendente de Kenji Morimoto, o controle total e irrevogável da Morimoto Tech reverteria para o herdeiro Arata.
Ele a encarou, e pela primeira vez, ela viu algo além do vazio nos olhos dele: o brilho fantasmagórico de uma vingança servida fria por décadas.
— Uma cláusula tão improvável que seu avô riu dela. Ele apostou que o destino jamais alinharia todas as peças.
O café. A demissão pública. A humilhação.
— Ele só não contava com você — Kaito concluiu, a voz baixa, letal.
O ar deixou seus pulmões. A sala não era mais um símbolo de poder; era a cena do crime, e a arma era o seu próprio nome. Ele não era um golpista. Era o herdeiro do homem que seu avô destruíra, e ela, a arrogante catalisadora de sua ascensão.
Kaito afastou-se, sentando-se na cadeira que pertencera ao pai dela. Pressionou um botão no intercomunicador.
— Akemi-san, por favor, traga os novos crachás e o formulário de requisição de uniforme.
Aisa ficou paralisada, a pasta aberta nas mãos, o peso daquela história ameaçando rasgar não só o papel, mas o tecido de sua realidade. Ele a estava dispensando. Ignorando. Apagando.
Reunindo a última centelha de orgulho, ela ergueu o queixo, pronta para sair. Pronta para lutar de alguma forma.
— Senhorita Morimoto — chamou ele, sem olhá-la. Sua voz a pregou no lugar. — Seu pai pode ir. A dívida dele com a minha família está paga.
Ele finalmente levantou o olhar, e o gelo em seus olhos a queimou.
— A sua dívida… está apenas começando.