O Império do Lobo
Cap. 2 de 22 · 5%

O Contrato de União

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A luz cinzenta da manhã se infiltrou pela janela como uma intrusa, encontrando Elena exatamente onde a noite a abandonara: sentada na beirada da cama, o corpo rígido dentro das mesmas roupas do dia anterior. O prazo de Vittorio Romano não era mais um conceito abstrato; era o ar pesado que enchia seus pulmões, o gosto metálico em sua boca. Bancos ririam dela. Amigos não podiam ajudar. Só restava uma porta, estreita e formal. Com os dedos trêmulos, ela buscou o contato em seu celular. Giovanni. O advogado que seu pai, em raros momentos de lucidez administrativa, consultava. Um homem cuja reputação se baseava em lógica fria e discrição absoluta. A voz polida da secretária a colocou em espera, um silêncio suspenso que era uma miniatura de seu próprio pânico. Quando a voz grave de Giovanni finalmente soou, Elena foi direto ao ponto. — Doutor Giovanni, preciso de ajuda. É sobre o espólio do meu pai. E é urgente. Houve uma pausa. O som de uma agenda de couro sendo folheada. — Meu primeiro horário seria... — Eu não tenho um primeiro horário — ela cortou, a voz se quebrando. — Eu tenho até o fim do dia. A pausa seguinte foi mais longa, carregada. — Esteja aqui em uma hora. O escritório de advocacia era o antônimo de sua galeria. Em vez de luz e caos criativo, havia mogno escuro, couro e o cheiro de poder antigo. O silêncio ali não trazia paz, mas o peso de fortunas decididas e perdidas. Giovanni a recebeu pessoalmente, um homem de sessenta e poucos anos, com cabelos prateados e olhos que já tinham visto todo tipo de ruína, sempre da distância segura de sua mesa de carvalho. Ele indicou uma cadeira. O couro estava frio contra a pele de Elena. Ela expôs os fatos, a voz surpreendentemente firme. A dívida, a compra das notas por Vittorio Romano, o prazo. Ao terminar, pousou as mãos sobre os joelhos para esconder o tremor. Giovanni ouviu sem piscar, os dedos entrelaçados sobre a mesa, a máscara profissional de um confessor corporativo. — Cinco milhões — ele repetiu, a voz baixa e neutra. — E o senhor Romano lhe deu vinte e quatro horas. — Dezenove, agora — corrigiu Elena, cada palavra um grão de areia caindo na ampulheta. Ele assentiu lentamente. — A ação dele é agressiva, mas, do ponto de vista legal... impecável. A dívida é legítima. Ele é o único credor. O prazo, embora predatório, não é ilegal. A frágil esperança de Elena se desfez em pó. — Então não há nada a ser feito? — Para impedir a execução, você precisaria do dinheiro — disse Giovanni, com uma inflexão quase imperceptível de pesar. — Ou negociar uma alternativa que ele aceite. Nesse exato momento, uma porta lateral que Elena mal notara se abriu sem aviso. Vittorio Romano entrou na sala. Ele não usava o terno escuro da noite anterior, mas uma calça de alfaiataria cinza e uma camisa branca, as mangas dobradas nos antebraços, revelando um relógio caro. Não parecia um predador noturno, mas um conquistador à luz do dia, o que era infinitamente mais perigoso. Elena se enrijeceu, o ar tornou-se rarefeito. — Senhor Romano — disse Giovanni, o tom profissional vacilando por uma fração de segundo. Vittorio ignorou o advogado. Seus olhos foram direto para Elena, frios e analíticos, sem um pingo de surpresa. Ele a esperava ali. — Explorando suas opções — ele constatou, a voz calma uma afronta. — Prudente. — O que você está fazendo aqui? — a voz de Elena saiu rouca. — Giovanni também é meu advogado — respondeu Vittorio, parando ao lado da mesa e dominando o ambiente com sua presença. Ele olhou para o advogado. — A pasta, Giovanni. O advogado hesitou, mas abriu uma pasta diferente sobre a mesa. Não eram as notas promissórias. Era um documento mais grosso, mais solene. — O que é isso? — perguntou Elena, a desconfiança se transformando em um nó no estômago. Foi Vittorio quem respondeu, o olhar fixo nela. — A dívida do seu pai é um instrumento, senhorita Torres. Não o prêmio. Meu pai, em sua infinita e póstuma sabedoria, incluiu uma cláusula em seu testamento. Para que eu assuma o controle total do império Romano, preciso estar… formalmente unido. Casamento ou união estável. O mundo de Elena parou. O zumbido do trânsito, o tique-taque de um relógio de pêndulo no canto, tudo desapareceu. Havia apenas o eco daquelas palavras em sua cabeça. A pressão. A dívida. A ruína iminente. Era tudo uma armadilha. Uma arquitetura de coerção, fria e precisa. Um riso seco, sem humor, escapou de seus lábios. Uma única nota, cortante. — Você... você quer que eu me case com você? — Não seja dramática — ele retrucou, a voz afiada como vidro quebrado. — Casamento é ineficiente. A lei permite uma união estável. Um contrato. Giovanni, como um autômato, empurrou um segundo documento pela mesa em sua direção. O título no topo era inequívoco: “Contrato de União Estável”. — Seis meses — continuou Vittorio, seu tom o de quem discute uma fusão de empresas. — É o tempo necessário para consolidar a transição de poder. Depois, o contrato é dissolvido. Sem partilha de bens, sem obrigações futuras. Limpo. A humilhação era uma brasa em seu estômago. Ele não oferecia uma parceria; ele a estava adquirindo. — E em troca? — ela sussurrou, a voz um fio. — Você sobrevive — ele disse, brutalmente simples. — Sua dívida de cinco milhões será congelada. Ao final do contrato, se cumprir sua parte, será perdoada. Completamente. Sua galeria, seu nome, o que resta do legado do seu pai... tudo fica intacto. A oferta era obscena. E perfeita. Ele não a deixara com uma escolha, mas com uma única rota de fuga que passava direto por sua cama. — Minha parte? — o medo era palpável. — Manter as aparências. Comparecer a eventos ao meu lado. Morar na minha casa. Convencer um conselho de acionistas e um primo curioso de que nossa união é minimamente crível. Ela recuou na cadeira. — Não. A palavra foi um sopro, o último espasmo de sua autonomia. Vittorio ergueu uma sobrancelha. — Não? — Ele se inclinou sobre a mesa, e o poder que irradiava dele era quase físico. — Então pague os cinco milhões até o fim do expediente. Ou assista enquanto Giovanni executa a liquidação de cada quadro, cada cadeira, cada memória que você tem. A escolha é sua, Elena. Mas não finja que existe uma terceira opção. O silêncio que se seguiu era um abismo. Elena olhou para Giovanni, que desviou o olhar, o desconforto estampado em seu rosto. Ele era apenas o instrumento. O poder estava todo concentrado no homem de pé ao lado dela. Seus olhos caíram sobre o contrato. A galeria. O trabalho de uma vida. O único elo que a ligava ao pai, para o bem ou para o mal. Tudo se transformaria em pó. Lentamente, como se seus braços pesassem uma tonelada, ela estendeu a mão. Giovanni, em silêncio, ofereceu-lhe uma caneta de metal frio. O instrumento de sua rendição. Sua mão pairou sobre o papel. Ergueu o olhar para Vittorio uma última vez, buscando um lampejo de dúvida, um resquício de humanidade. Não havia nada. Apenas a certeza de um homem que sempre consegue o que quer. Ela baixou a caneta. Sua assinatura, normalmente fluida, saiu trêmula. Elena Torres. Empurrou o documento pelo mogno polido. Vittorio o pegou, assinou seu nome com um traço rápido e angular, e o entregou a Giovanni para ser testemunhado. Um negócio fechado. — Você se muda para a minha casa amanhã — Vittorio declarou, já se virando para sair. Ele parou na porta, sem olhá-la. — Meu motorista a buscará às nove. Esteja pronta. A porta se fechou com um clique suave, final. Elena ficou imóvel, a caneta ainda frouxa em seus dedos. O cheiro de couro e dinheiro enchia seus pulmões. Ela não havia apenas salvado um negócio. Havia se vendido.
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