O Império do Lobo
Cap. 3 de 22 · 9%

Limites da Propriedade

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A mansão de Vittorio Romano não era um lar; era uma declaração de poder esculpida em concreto e silêncio. O carro de luxo deslizou por uma alameda de cascalho branco e parou diante de uma estrutura brutalista de vidro e mármore que parecia ter sido projetada para intimidar a própria paisagem. Não havia flores, apenas a geometria fria de arbustos perfeitamente podados. Era a arquitetura do controle absoluto. Elena seguiu uma funcionária de uniforme cinza por um hall de entrada que ecoava como uma catedral vazia. O mármore negro sob seus pés refletia a luz fria de uma parede inteira de vidro. Não havia quadros, nem fotografias. Apenas espaço, silêncio e o peso de uma riqueza que não gerava alegria, só domínio. O quarto de hóspedes era uma suíte vasta e impessoal, um clone de hotel cinco estrelas com uma vista panorâmica para um jardim de pedras. Era um luxo desenhado para ser admirado, não vivido. Após a saída silenciosa da funcionária, Elena ficou parada no meio do cômodo, as duas malas aos seus pés parecendo um resumo patético de sua antiga vida. Ela desfez as malas, pendurando suas roupas num closet maior que seu antigo quarto. As peças carregavam memórias de dias em que era dona de si. Por último, tirou um pequeno porta-retrato de prata com uma foto desbotada de seus pais. Colocou-o na mesa de cabeceira. O objeto, quente de humanidade, pareceu um erro, uma mancha de vida na tela asséptica daquele lugar. A noite caiu sem que ela notasse. A fome era uma memória distante, sufocada pela ansiedade. O sono, uma miragem. Revirou-se nos lençóis caros, o corpo tenso, a mente em alerta. Cada estalo da casa, cada zumbido do sistema de ar, soava como um alarme. Desistiu. A sede era real, uma queimação na garganta que exigia atenção. Descalça, sentindo o choque frio do piso de madeira, abriu a porta do quarto com um cuidado infinito. Um corredor longo, mergulhado numa penumbra azulada por luzes de rodapé, estendia-se como o interior de uma nave espacial. Ela desceu a escada flutuante, guiada pela memória, e encontrou a cozinha: um laboratório de aço inoxidável e quartzo preto. A luz fria da geladeira a cegou por um instante. Pegou uma garrafa de água mineral e um copo pesado de um armário sem puxadores. O som do gelo batendo contra o vidro pareceu um crime contra o silêncio. — Achei que estivesse dormindo. A voz dele, grave e próxima, veio da escuridão. Elena sobressaltou-se, o copo quase escorregando de sua mão trêmula. Virou-se de supetão. Vittorio estava parado na entrada, uma silhueta recortada contra a penumbra. Ele deu um passo para a luz. Usava uma calça de moletom escura e uma camiseta preta que se moldava aos ombros largos. Estava descalço. Despido da armadura corporativa, ele não parecia menos intimidador. Pelo contrário. Sem o terno, restava apenas o poder cru. — Sede — ela respondeu, a voz um fio. Virou-se de volta para a bancada, um gesto instintivo de proteção. Ouviu os passos dele, suaves no piso frio. Ele não se aproximou. Contornou a ilha central e pegou sua própria água. O ar ficou denso, carregado com o calor que o corpo dele irradiava mesmo a metros de distância. — Uma casa silenciosa — ela comentou, mais para preencher o vazio tenso do que para conversar. — Gosto de silêncio — ele respondeu, fechando a porta da geladeira. — O quarto é satisfatório? A pergunta era formal, uma transação. Ele não se importava com a satisfação dela. — É adequado. Uma risada curta, sem humor, escapou dele. — “Adequado”. Preciso. Elena bebeu um gole de água, o frio descendo por sua garganta sem aliviar a rigidez em seus ombros. — Existem regras nesta casa que eu precise saber? — perguntou, encarando o próprio reflexo distorcido no copo. Houve uma pausa. Ela sentiu o peso do olhar dele em suas costas. — Regras são para quem pretende quebrá-las. Prefiro pensar em limites. Ela se virou para encará-lo, o queixo erguido. — E quais são? Vittorio apoiou-se na ilha de quartzo, cruzando os braços. A camiseta esticou sobre seu peito. — Seu quarto é seu espaço privado. O resto da casa é funcional. Use o que precisar. A maneira como ele listou as “comodidades” fez o estômago dela se contrair. — Mas... — ele continuou, e o tom perdeu qualquer traço de casualidade — ...a última porta no corredor oeste, no andar de cima, é meu escritório. Aquela porta permanece fechada para você. — Eu não tinha a menor intenção... — a resposta dela saiu fria, defensiva. — Não é sobre intenção. — Ele descruzou os braços e deu um passo, contornando a ilha. Parou a menos de um metro dela. O ar entre eles estalou. — É sobre privacidade. O que acontece ali dentro é meu. Nosso acordo tem um perímetro, Elena. Não o ultrapasse. Ele estava perto o suficiente para que ela notasse a sombra da barba em seu maxilar, para que sentisse o cheiro dele — não de colônia, mas algo mais fundamental. Sabonete e pele. A mão dela, que segurava o copo, tremeu. Ele viu. Ele deu mais um passo. A distância tornou-se íntima, invasiva. Sua mão subiu, não para tocá-la, mas para tomar o copo. Os nós de seus dedos roçaram os dela — um contato acidental, breve, que disparou uma corrente elétrica por seu braço. A pele dele era quente, viva. Por uma fração de segundo, a mão dele fechou-se sobre a dela, um aperto possessivo em torno do vidro frio. — Entendido? — a voz dele era um sussurro grave que vibrou através dela. Elena puxou a mão de volta, o coração martelando contra as costelas. O copo ficou com ele. — Sim. A palavra foi quase inaudível. Vittorio a observou, o rosto uma máscara impenetrável. Então, num gesto lento e deliberado, levou o copo dela aos próprios lábios e bebeu um gole, os olhos escuros fixos nos dela. O som de sua deglutição ecoou na cozinha silenciosa. Com a mesma lentidão, ele pousou o copo na bancada. — Ótimo. Sem mais uma palavra, virou-se e dissolveu-se na escuridão de onde viera. Elena ficou paralisada, o ar preso nos pulmões. Seu olhar caiu sobre o copo. A marca úmida de seus lábios, agora sobreposta pela dele. O que ele fizera não fora apenas uma advertência sobre um escritório. Tinha sido uma promessa.
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