O Império do Lobo
Cap. 5 de 22 · 18%

Fogo no Estacionamento

7 min de leitura
O carro estava desligado, mas o silêncio vibrava com uma violência contida. Vittorio não se movia. A única prova da fúria que o consumia era a pele esticada sobre os nós de seus dedos, brancos contra o couro escuro do volante. A luz distante do salão de gala esculpia a lâmina afiada de seu maxilar, um contorno inflexível na penumbra. Elena sentia um calor fantasma no braço, a marca invisível de onde ele a arrastara. O ar na cabine era denso, roubando o oxigênio. Cada segundo que passava era um fio esticado à beira de arrebentar. Ela se recusou a ser a primeira a ceder, mas o som da respiração dele — um ruído controlado, quase inaudível, mas áspero — arranhava seus nervos. — O que foi aquilo? — A pergunta dela, embora baixa, cortou a quietude como vidro. Ele não a olhou. Seus olhos permaneciam cravados na noite lá fora. — Fique longe dele. Não era um conselho, muito menos um pedido. Era um decreto, despido de qualquer civilidade. — De Marco? Nós só estávamos conversando. — Eu sei exatamente o que Marco faz quando “conversa”. — A voz dele era um fragmento de gelo. — A ordem é simples, Elena. Fique longe. A chave girou na ignição, e o motor despertou com um rosnado baixo e profundo. Sem outra palavra, ele acelerou. O pneu cantou no asfalto por uma fração de segundo, um protesto breve antes do carro disparar. A velocidade era um abuso, mas o controle dele era absoluto, cada movimento do volante preciso e mortalmente calmo. Deixaram para trás os portões do evento e mergulharam em ruas mais escuras, um túnel de luzes fugazes a caminho da mansão. Elena virou o rosto para a janela, deixando a cidade borrar-se em um borrão impressionista. A ardência da humilhação, a forma como foi arrancada do salão, misturava-se a uma apreensão nova e gelada. A reação dele a Marco não era ciúme. Era territorial. Primitiva. E isso era infinitamente mais perigoso. Vittorio tomou uma saída inesperada, guiando o carro para a rampa em espiral de um estacionamento subterrâneo. O prédio abrigava a sede de suas operações, a cobertura de onde ele movia suas peças. O eco dos pneus no concreto pintado reverberava nas paredes nuas enquanto desciam, nível após nível. As luzes amareladas, algumas piscando em agonia, lançavam sombras dançantes e doentias. Ele passou pelo primeiro e pelo segundo subsolo, o lugar cada vez mais deserto e silencioso. No terceiro, a área mais remota, ele freou. Não em sua vaga reservada, mas a vinte metros dela. O caminho estava bloqueado. Um sedã preto, vidros impenetráveis, sem placas, estava parado no meio da passagem. Inerte. Ameaçador. — Por que paramos? — A impaciência na voz de Elena morreu no instante em que viu a postura dele. Vittorio não respondeu. Seu corpo inteiro se converteu em uma única linha de tensão. A mão que relaxara no câmbio voltou para o volante. Seus olhos estudaram o carro à frente por três segundos que se estenderam por uma vida inteira. O primeiro som não foi de um tiro. Foi um impacto seco e surdo na lataria, bem ao lado do ombro de Vittorio. Simultaneamente, uma teia de aranha cristalina explodiu no para-brisa, a bala cravada na espessura da blindagem. O tempo se estilhaçou. Antes que Elena pudesse sequer gritar, a mão dele a encontrou. Não um aperto, mas um empurrão firme em seu ombro que a atirou de lado, a nuca batendo sem força no couro do assento. — Abaixe-se! Agora! O comando foi um trovão no espaço confinado. Outro baque. E mais um. A camada interna do vidro lateral se desfez, uma chuva de fragmentos sobre o painel. As portas do sedã preto se abriram e duas silhuetas escuras emergiram, armas em riste. Vittorio já estava em movimento. Enquanto uma mão a mantinha abaixada, a outra abriu o porta-luvas. O clique da trava foi engolido por outro impacto no teto do carro. Ele sacou uma pistola preta, pesada, o metal fosco absorvendo a luz. A fluidez do gesto, a naturalidade com que a arma se tornou uma extensão de seu braço, enviou uma onda de frio cortante pela espinha de Elena. Curvado sobre o console, usando o próprio corpo como escudo para ela, ele se torceu e disparou através do para-brisa já fraturado. O estrondo dentro do carro foi uma dor física, ensurdecedora. O cheiro acre de pólvora invadiu o ar, cáustico e imediato. Lá fora, um dos homens gritou, cambaleando para a proteção de uma coluna de concreto. Elena estava espremida no chão do carro, o rosto contra o tapete com cheiro de couro e um novo odor metálico, de perigo. Seu coração não batia; convulsionava. O mundo de dívidas e contratos dissolveu-se. Aquilo era real. O som de metal sendo perfurado. O cheiro de queimado. A respiração ofegante, mas estranhamente metódica, do homem que se tornara seu carrasco e, agora, seu guardião. Vittorio atirou de novo. E mais uma. O segundo atirador respondeu com uma rajada que martelou a lateral do carro, um granizo de chumbo e fúria. — Mantenha a cabeça baixa! — ele rosnou, a voz um fio de navalha. Ele se moveu com uma velocidade econômica. Engatou a ré, o motor gritando em protesto. O carro sacudiu para trás, pneus derrapando e guinchando. Com uma mão no volante, ele girou, a traseira do veículo colidindo com um pilar em um rangido de metal se dobrando. Ignorando o dano, ele acelerou para frente, contornando o sedã dos atiradores. Mais tiros. Um acertou o pneu traseiro. O carro oscilou, a borracha se desfazendo, mas Vittorio não hesitou. Subiram a rampa, o som do aro de metal arrastando no chão um grito agudo de agonia. Elena ousou erguer a cabeça e viu pelo retrovisor os dois homens correndo de volta para o carro deles. — Eles estão fugindo — sua voz saiu rouca, um fiapo. — Não estão fugindo. Estão se reposicionando. Ele agarrou o celular do console, discando um número de memória enquanto controlava o carro avariado com a outra mão. A chamada foi atendida no primeiro toque. — Nível três. Extração. Agora. — Desligou sem esperar confirmação. No segundo subsolo, um SUV preto e maciço, tão blindado que parecia um cofre sobre rodas, surgiu de uma rampa de serviço e parou atravessado, bloqueando a subida. A porta do passageiro se abriu. Um homem de terno e fone de ouvido fez um gesto para eles. Vittorio freou o carro destruído ao lado. — Saia! Para o outro carro! Rastejando! — ele ordenou, já abrindo sua porta e usando-a como escudo enquanto disparava mais dois tiros na direção da rampa de onde vieram. Elena se arrastou pelo chão, empurrou a porta do passageiro e caiu no concreto frio e oleoso. Seu vestido de seda rasgou no joelho. O som dos tiros ecoava, amplificado e distorcido pela acústica do lugar. — Vamos! A mão dele a agarrou pelo braço. O mesmo aperto de antes, mas a intenção era outra. Não era posse, era resgate. Ele a ergueu e a empurrou para dentro do SUV, jogando-a no banco de trás antes de saltar para dentro e bater a porta. O veículo arrancou com um rosnado potente antes mesmo que a trava se fechasse por completo. Dentro do SUV, o mundo exterior morreu. O silêncio era absoluto, um vácuo à prova de som. A única luz vinha do painel. Encolhida no canto, Elena começou a tremer. Era um tremor violento, incontrolável, que partia de suas mãos e sacudia seu corpo inteiro. Vittorio estava ao seu lado, mas em outro universo. Com movimentos precisos, ejetou o pente vazio da pistola. O metal caiu com um clique suave no console. Tirou um pente novo de um compartimento na porta e o encaixou na arma. O som seco e metálico de recarregar a pistola foi a única pontuação naquele silêncio sepulcral. Seus olhos estavam fixos na escuridão à frente, o maxilar cerrado. O cheiro de pólvora que emanava dele era a assinatura daquele novo mundo. Elena observou-o, a respiração presa. O homem que a chantageara, que a comprara, que a humilhara. Aquele homem acabara de matar para salvá-la. A dívida, o contrato... uma farsa infantil diante da brutalidade que acabara de se revelar. O perigo que o cercava não era uma metáfora. Era feito de balas. O tremor dela não cessava. Então, Vittorio pegou o telefone de novo. A voz dele, quando falou, era gelo puro. — Giovanni? Prepare a equipe. Uma pausa. Ele ouviu. O perfil dele, recortado pela luz fraca, era desprovido de qualquer emoção. Medo não vivia ali. Apenas certeza. Ele encerrou a chamada e, por um instante, seus olhos encontraram os dela no reflexo do vidro escuro. O mundo parou. E então, ele discou outro número. Apenas uma palavra saiu de seus lábios. Um nome que fez o sangue de Elena congelar em suas veias. — Marco.
Comentar este capítulo
Comentários de "Fogo no Estacionamento" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬