O vestido era uma imposição. Seda azul-noite que se derramava pelo corpo de Elena como tinta líquida, uma segunda pele fria que não prometia nada além de obediência. Quando a funcionária o deixou sobre a cama, dentro de uma capa de tecido que sussurrava luxo, Elena entendeu que não era um presente. Era um uniforme.
Ela se encarou no espelho de corpo inteiro, a seda contornando cada curva com uma precisão cirúrgica. A mulher no reflexo era uma estranha afiada e polida, montada para pertencer àquele mundo. Elena não. A porta do quarto se abriu sem aviso. Vittorio entrou, o smoking preto impecável parecendo uma extensão de sua autoridade. Seu olhar a percorreu de cima a baixo, uma análise lenta, clínica, que não continha admiração, apenas avaliação de um ativo.
— Adequado — ele disse, a voz neutra que cortava o ar.
Ele parou atrás dela. No reflexo, seus ombros largos emolduravam a figura esguia dela, uma imagem de posse. Abriu uma pequena caixa de veludo preto. Dentro, um colar de diamantes faiscou, frio e ofuscante.
— Para completar o papel — ele falou, o tom baixo e rente ao ouvido dela. Elena permaneceu rígida enquanto ele afastava seu cabelo, o fecho gelado do colar tocando sua nuca. Seus dedos roçaram a pele dela, um contato breve e impessoal, mas que deixou um rastro elétrico. No espelho, os diamantes repousavam em sua clavícula. Uma coleira cintilante.
— Pronta? — ele perguntou, recuando um passo.
Ela se virou, o tecido do vestido farfalhando. — Pronta para sorrir e acenar?
Um brilho perigoso acendeu nos olhos dele. — Pronta para não parecer que está a caminho do próprio funeral. Sorria. Olhe para mim de vez em quando. E se contenha para não me apunhalar com o garfo da sobremesa.
No carro, o silêncio era uma entidade física, pesado com o cheiro de couro e do perfume amadeirado dele. As luzes da cidade passavam pela janela como borrões de cor, um mundo distante ao qual ela não pertencia mais.
O salão de gala era uma agressão aos sentidos: um mar de smokings e vestidos de grife, o zumbido de centenas de conversas, o tilintar de taças de cristal e o aroma opressivo de lírios e poder. Vittorio a guiou pela multidão com a mão firme na base de suas costas, a palma quente pressionando a seda fina contra sua pele. Cada toque, cada sorriso calculado que ele lhe dirigia quando alguém os olhava, a fazia se sentir menos como uma pessoa e mais como um objeto de arte adquirido.
Ele a apresentou a um casal de idosos com sobrenomes que valiam fortunas e a um banqueiro de olhar predatório. Elena respondia em monossílabos, deixando que Vittorio conduzisse a farsa. Ele era um mestre nisso.
Foi então que a mão dele a soltou. Um executivo o chamou do outro lado do círculo em que estavam. Vittorio lhe lançou um olhar. *Fique aqui*. A ordem era silenciosa, inequívoca. E, pela primeira vez na noite, Elena estava sozinha.
Durou menos de um minuto.
— Então você é a mulher que finalmente domou a fera.
A voz era suave, divertida, com um subtexto de seda e veneno. Elena se virou. O homem ao seu lado era o oposto de Vittorio. Tinha os mesmos cabelos escuros e olhos penetrantes da família Romano, mas seu sorriso era fácil, o corpo relaxado dentro do smoking. Havia um charme despojado nele que Vittorio jamais possuiria.
— Desculpe?
— Meu primo. Vittorio. — Ele estendeu a mão. — Marco Romano. Um prazer. Ele manteve você muito bem escondida.
Elena apertou a mão dele. Era quente e a segurou por um instante a mais que o necessário. — Elena Torres.
— Eu sei quem você é. — O sorriso de Marco se alargou, cúmplice. — A curadora de arte. Que coragem. Vittorio não é exatamente um patrono das artes. A não ser que a arte seja adquirir concorrentes.
O comentário era uma isca. Elena manteve o rosto impassível.
— Ele tem seus… interesses — ela respondeu, a voz cuidadosamente neutra.
— E agora você é um deles. — Os olhos de Marco brilharam. Ele se inclinou, baixando a voz como se compartilhasse um segredo. — Me conte, como foi? Um lance em um leilão? Amor à primeira vista numa galeria? O romance de vocês é o mistério da temporada. Ninguém o vê com uma mulher por mais de um jantar há anos.
A pergunta pairou no ar, afiada. Marco não acreditava em uma palavra. Estava caçando a mentira. Elena precisava de algo para ocupar as mãos. Pegou uma taça de champanhe da bandeja de um garçom, os dedos firmes no cristal.
— A vida é cheia de surpresas — ela disse, ensaiando um sorriso que não alcançou seus olhos.
— Ah, sim. Surpresas. — Marco riu baixo, um som agradável que não combinava com a intensidade de seu olhar. — Vittorio é um homem de poucas surpresas. Ele planeja, executa, conquista. Um noivado repentino… não faz o estilo dele. A menos que houvesse um prêmio muito grande em jogo.
O ar ficou rarefeito. Elena abriu a boca para responder, mas o blefe morreu antes de nascer. Estava encurralada.
Nesse instante, uma sombra os cobriu. Vittorio estava ali. Não disse uma palavra. Apenas parou atrás de Marco, sua presença sugando o ar e a luz ao redor. O sorriso de Marco vacilou por uma fração de segundo antes de se recompor.
— Primo. Estávamos apenas nos conhecendo. Sua noiva é encantadora.
Vittorio o ignorou por completo. Seus olhos estavam cravados em Elena, uma fúria gelada queimando neles. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço entre eles. Sua mão pousou na cintura de Elena, e não era o toque formal de antes. Era um aperto. Possessivo. Ele a puxou para si, o gesto tão súbito que ela tropeçou contra o corpo dele.
O calor de seu torso era uma parede sólida nas costas dela. O cheiro dele a envolveu.
— Nossa conversa ainda não acabou, Elena — disse Marco, o sorriso agora uma linha fina e desafiadora.
Vittorio se inclinou, a boca perto do ouvido de Elena, o hálito quente eriçando sua pele. Sua voz era um rosnado baixo, audível apenas para ela.
— Já acabou.
Sua mão deslizou da cintura dela para seu braço, logo acima do cotovelo. Os dedos se fecharam com uma força contida, mas inegável. Não doía, mas a ordem foi transmitida diretamente para seus ossos. Sem um olhar para Marco, sem uma despedida, ele começou a andar, arrastando-a com ele. A multidão se abria para eles como o mar para um navio de guerra.
Elena olhou para trás uma única vez. Marco Romano continuava parado no mesmo lugar, observando-os partir. E em seu rosto não havia mais sorriso. Apenas o brilho frio de uma vitória calculada.
Vittorio não disse nada até estarem do lado de fora, no ar frio da noite. O manobrista trouxe o carro com uma rapidez que beirava o pânico. Ele abriu a porta para ela, o gesto mecânico, desprovido de cortesia.
Assim que ele entrou no lado do motorista, o silêncio dentro do carro se tornou violento. Ele não ligou o motor. Apenas ficou ali, as mãos agarrando o volante, os nós dos dedos brancos. O som de sua respiração era duro, controlado com esforço.
Elena observou o perfil dele, o maxilar cerrado, um músculo saltando em sua têmpora. Aquele homem ao seu lado não era o empresário calculista que a coagira a um contrato. Era algo diferente. Algo instintivo e perigoso. O aperto em seu braço havia desaparecido, mas a sensação fantasma de seus dedos ainda queimava sua pele.
A reação dele não fora uma encenação para o público. Fora crua, irracional. E a origem daquela fúria não estava em nenhum parágrafo do acordo que assinaram. Estava em um território muito mais sombrio. De repente, a dívida de cinco milhões pareceu o menor de seus problemas.