A acusação de Nicholas pairou no ar estagnado da pequena sala, um veneno sem antídoto. O oxigênio se recusava a entrar nos pulmões de Camila; o corpete do vestido de noiva, antes justo, agora parecia uma gaiola de ossos e seda comprimindo seu peito. Cada alfinete em suas costas era uma agulha de fogo, lembretes pontiagudos de sua usurpação.
— Paga? — A palavra escapou de seus lábios, frágil como um sopro de poeira. O som foi engolido pelo silêncio opressivo.
Um sorriso que não alcançou os olhos, fino como o fio de uma navalha, repuxou a boca de Nicholas. Ele avançou mais um passo, obliterando o último resquício de espaço pessoal que ela possuía. O cheiro dele a envolveu — amadeirado, algo como chuva e terra, dominante e inescapável.
— Não? Então é apenas… caridade? — Sua voz era seda sobre aço, cada sílaba um escárnio. — A mártir da família Drummond, oferecendo-se em sacrifício para salvar a honra falida de todos. Poupe-me. Eu reconheço a performance de um inocente ofendido a metros de distância. É uma praga no meu ramo.
Fúria e injustiça subiram por sua garganta, uma bile quente e amarga. Ela, que não tivera escolha. Que fora empurrada para aquele vestido, para aquele altar, como uma peça anônima em um jogo do qual desconhecia as regras.
— Você não sabe de nada — ela rebateu, a voz ganhando uma força que surpreendeu a ambos, uma faísca de desafio na escuridão do pânico.
Os olhos cinzentos dele se estreitaram, frios e analíticos. — Eu sei o que preciso saber. Sei que a mulher que eu esperava no altar não apareceu. E no lugar dela, sua família me enviou… o produto de reposição. A única questão é se você foi uma cúmplice voluntária ou apenas obediente. Embora, para todos os efeitos, a diferença seja irrelevante.
Ele se virou, crispado, passando a mão pelo cabelo impecável no primeiro gesto de desordem que ela via nele. O silêncio esticou-se, pesado com desprezo.
— Podemos… anular? — Camila sussurrou, a esperança uma coisa frágil, perigosa. Desfazer tudo. Voltar para a obscuridade de sua vida, onde ao menos o ar que respirava era seu.
Nicholas soltou uma risada curta, seca e desprovida de humor. — Anular? — Ele se virou de volta para ela, o divertimento cruel em seu rosto era mais assustador que a raiva. — E anunciar o quê? Que a noiva fugiu e, em um ato de desespero patético, casei-me com a irmã errada? Que a fusão Vance-Drummond começou como uma farsa de teatro amador? O contrato que seu pai assinou prevê estabilidade. Um escândalo agora não destrói apenas os Drummond. Mancha a reputação dos Vance de uma forma que não posso permitir.
A realidade a atingiu como um soco no estômago. Não havia saída. Nem mesmo para ele. Estavam acorrentados por algo mais forte que as alianças de platina: a ruína mútua.
— Então… o que acontece agora? — A pergunta era a de uma prisioneira ao seu carcereiro.
Nicholas cruzou os braços, a postura de quem ditaria os termos da rendição. — Acontece que vamos dar a todos exatamente o que eles querem. Manteremos este casamento. Para o mundo, seremos o casal do ano. Iremos a jantares, sorriremos para as câmeras, seremos o rosto do sucesso. Em público — ele se aproximou de novo, a voz baixando para um murmúrio conspiratório que fez a pele dela se arrepiar —, você é a minha adorada esposa.
Seus olhos a varreram com uma frieza que a despiu de qualquer dignidade. — Em particular… você é o custo de um erro de cálculo que fui forçado a absorver. Viveremos sob o mesmo teto, mas em universos separados. Quartos separados. Vidas separadas. Você terá tudo o que o dinheiro pode comprar. Em troca, você atuará no papel da Sra. Vance. Sem improvisos, sem perguntas, sem dramas. Entendido?
Era um contrato de negócios selado com um beijo frio no altar.
— E Beatriz? — a pergunta escapuliu antes que pudesse contê-la. — Se ela voltar…
— Sua irmã fez a escolha dela — ele a cortou, a voz um golpe de chicote. — Beatriz Drummond tornou-se irrelevante.
Camila engoliu em seco, sentindo o nó em sua garganta apertar. Ser irrelevante. Pela primeira vez naquela noite, sentiu-se em território familiar.
Batidas na porta. Uma voz abafada chamou: — Nick? Tudo bem aí? Estão esperando para o brinde.
A transformação foi imediata, assustadora em sua perfeição. A tensão nos ombros de Nicholas se dissolveu. Ele se afastou, e um sorriso polido e charmoso tomou o lugar da máscara de desprezo. Ao abrir a porta, revelou o rosto preocupado do padrinho.
— Um minuto, Carlos. Estava apenas… parabenizando minha noiva apropriadamente. — A voz dele era quente, divertida. Uma mentira impecável. Ele se virou para Camila, estendendo a mão, mas seus olhos eram de aço. O comando era claro. *Atue*.
O resto da noite foi um borrão febril. Ela colocou a mão trêmula na dele, sentindo o contato como uma corrente elétrica gelada, e se deixou conduzir. O toque firme em suas costas era o de um mestre de marionetes. Ela sorriu quando ele sorriu. Ergueu a taça quando ele ergueu a dele. Dançou, presa em seus braços, sentindo o cheiro dele, vendo-o rir com os convidados, o braço possessivo ao redor de sua cintura, vendendo com maestria a ilusão que ele mesmo acabara de destruir para ela.
Horas depois, no silêncio do carro que os levava para a nova vida dela, a máscara caiu novamente. Sentaram-se em lados opostos do banco de couro, o espaço entre eles um abismo frio. As luzes da cidade passavam pela janela como borrões de cor em um vidro escuro, solitárias e distantes. Nenhuma palavra foi dita.
O carro parou diante de uma fortaleza de pedra e vidro que se erguia contra o céu noturno. Um funcionário abriu a porta para ela. Nicholas desceu, contornou o veículo e parou ao seu lado enquanto ela olhava para cima, para a estrutura imponente que seria sua casa. Sua prisão.
A brisa fria sussurrava advertências através das árvores do jardim. Ele não a tocou. Apenas ficou ali, uma sombra ao seu lado, deixando o peso daquele lugar se instalar sobre ela.
— Bem-vinda à sua nova casa, Sra. Vance — ele disse, a voz baixa, quase neutra.
Ela se virou para encará-lo, esperando que ele a dispensasse, que a mandasse para seu quarto e para o exílio prometido. Mas ele continuou a fitá-la, o olhar penetrante, avaliador.
— Nosso primeiro evento público é em três dias. Um jantar beneficente. A imprensa estará lá. Todos os nossos sócios estarão lá. — Ele fez uma pausa, deixando a pressão crescer. — Minha pergunta para você, Camila, é muito simples. Você tem o que é preciso para não nos arruinar?