A mansão Vance não a recebeu; engoliu-a inteira. As portas de carvalho maciço se fecharam atrás dela com um som surdo e final, trancando do lado de fora o mundo que conhecia. O hall de entrada era uma catedral de silêncio e mármore frio, onde um lustre de cristal derramava uma luz gélida que não aquecia nada. Era uma grandiosidade oca, que apenas ampliava a ausência de vida.
Nicholas não ofereceu a mão, nem um olhar. Simplesmente atravessou o salão, seus sapatos caros marcando um ritmo seco e impaciente na vastidão. Camila o seguiu, o vestido de noiva farfalhando como um fantasma, o som quase vulgar naquele santuário de quietude.
— A ala leste é sua. — A voz dele cortou o ar, precisa e desprovida de emoção. Ele gesticulou com o queixo para um corredor à direita, mergulhado na penumbra. — Seu quarto é a última porta. A governanta, Sra. Moretti, cuidou de tudo. Suas coisas já estão lá.
Não era um convite, era uma demarcação de território. Uma fronteira. Ele nem esperou por uma resposta, virando-se para a esquerda, em direção a uma escadaria que subia para as sombras como a espinha dorsal de uma fera. A ala oeste. O domínio dele.
— O café da manhã é servido às sete. Jantar, às oito. — Ele parou com um pé no primeiro degrau, o corpo meio virado, uma silhueta recortada contra a escuridão. — Se precisar de algo, fale com a Sra. Moretti. Não comigo.
A ordem flutuou no ar, absoluta. Então ele subiu, desaparecendo no andar de cima sem um único olhar para trás. Camila ficou imóvel no centro do hall, uma noiva de marfim e pânico sob o olhar frio de mil cristais. Aquilo não era um lar. Era um mausoléu para um casamento que nasceu morto.
A primeira manhã foi uma aula de invisibilidade. Acordou num quarto tão vasto que sua respiração parecia frágil demais para preenchê-lo. Havia um closet maior que seu antigo apartamento e um banheiro de mármore que parecia roubar o calor do seu corpo. Nada ali era seu. Desceu as escadas na ponta dos pés, sentindo-se uma intrusa.
Na cozinha, um ambiente industrial de aço e pedra, uma mulher de cabelos grisalhos presos num coque impecável polia uma cafeteira com uma concentração austera. Sra. Moretti. Seus olhos passaram por Camila — uma avaliação rápida, fria e impenetrável.
— Bom dia. O Sr. Vance já se serviu — informou ela, a voz tão polida quanto a prata que devia cuidar. — O que a senhora deseja?
A palavra “senhora” soou como uma zombaria. Um título sem posse.
— Eu mesma faço um café, obrigada.
Foi um ato minúsculo, quase patético, de rebelião. Uma tentativa de provar a si mesma que ainda existia fora dos arranjos dele. A Sra. Moretti ergueu uma sobrancelha quase imperceptivelmente, mas deu um passo para o lado, cedendo o espaço com a relutância de uma guarda real.
Enquanto Camila abria os armários vastos e assustadoramente organizados em busca do pó de café, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O ar na cozinha mudou, ficou denso.
Nicholas estava parado na entrada. Impecável no terno cinza-chumbo, a gravata com um nó perfeito, ele não disse nada. Apenas observava. Seus olhos cinzentos registraram o pijama simples de algodão dela, a caneca vazia em sua mão, e a governanta, que de repente encontrou uma mancha invisível para limpar no balcão de granito.
O silêncio dele era mais opressor que qualquer grito. Camila sentiu a mão tremer ao despejar a água quente, o som do líquido enchendo a caneca parecendo um trovão. Ela esperou. Por uma ordem, uma crítica, uma humilhação. Ele apenas continuou ali, uma presença dominante, julgando sua pequena e patética busca por autonomia.
Com a caneca fumegante nas mãos, ela se forçou a caminhar. Ao passar por ele, o espaço pareceu encolher. O cheiro dele — algo como terra molhada e ozônio depois de uma tempestade — a envolveu por um segundo sufocante. Ele não se moveu um centímetro. Quando ela já estava a alguns passos no corredor, a voz dele a atingiu, baixa e afiada.
— O jantar beneficente é na sexta. Não se atrase.
Os dias seguintes se tornaram um balé silencioso e hostil. Eles viviam em órbitas que se repeliam. Certa vez, cruzaram-se no corredor principal. Ele vinha em sua direção, o olhar fixo em algum ponto distante sobre a cabeça dela. Camila sentiu o instinto de se encolher, de se achatar contra a parede para dar-lhe passagem. Em vez disso, ela ergueu o queixo e continuou andando, forçando-o a desviar levemente o curso. Foi uma vitória de milímetros, que a deixou com o coração acelerado e um gosto amargo na boca.
Mas o silêncio da casa era diferente da ausência de som. Era um silêncio que escutava, que guardava segredos. E Camila, faminta por qualquer coisa que não fosse o vazio polido da sua existência, começou a procurá-los.
Numa tarde chuvosa, quando sentia as paredes respirando para dentro, ela fez o impensável. Subiu a escadaria principal, o coração um tambor contra as costelas a cada passo abafado pelo tapete. A ala oeste. O ar ali era mais denso, com um cheiro de madeira antiga e pó. E tristeza.
A maioria das portas estava fechada, mas uma, no final do corredor, estava entreaberta. Uma fresta de luz pálida convidava e proibia ao mesmo tempo. A necessidade de entender o monstro com quem se casara venceu o medo. Com a ponta dos dedos, empurrou a porta.
O quarto estava congelado no tempo. Não era um quarto de hóspedes; havia uma intimidade ali, uma vida suspensa. Uma cama de dossel com lençóis brancos, um xale de cashmere azul-claro dobrado sobre uma poltrona. Um perfume quase fantasma de jasmim e baunilha pairava no ar. Não era o cheiro de Beatriz.
Uma fina camada de poeira cobria tudo como um véu, um luto deliberado. Sobre a cômoda, ao lado de frascos de perfume intocados, uma moldura de prata estava virada para baixo.
Sua consciência gritava para ela fugir. Para recuar e fechar a porta daquele santuário. Sua mão não obedeceu. Com os dedos trêmulos, ela virou a moldura.
Não era uma foto. Era um desenho infantil, feito com lápis de cera. Um homem alto de cabelo preto, uma mulher sorridente ao seu lado, e entre eles, de mãos dadas, uma menininha de maria-chiquinha sob um sol amarelo e feliz. No canto, em letras infantis e tortas: “Família”.
Camila sentiu o ar escapar de seus pulmões. O homem era uma caricatura, mas inconfundível. Os ombros largos, a postura rígida, o traço preto e grosso do cabelo. Era Nicholas.
Ela largou a moldura como se queimasse. O baque surdo do metal na madeira ecoou no silêncio do quarto. De repente, a crueldade fria dele, sua raiva calculada, tudo pareceu diferente. Não era a fúria de um homem traído por uma noiva em fuga. Era algo mais antigo. Mais profundo. Aquele desenho não era apenas um segredo. Era uma origem. O mapa de um homem que um dia teve um mundo, e que por alguma razão terrível, o perdeu.