O reflexo no espelho era de uma estranha. Uma mulher esculpida em cetim azul-marinho, com diamantes faiscando no pescoço como fragmentos de gelo. Camila ergueu uma mão e a estranha a imitou, o gesto lento, incerto. Era um papel, e o figurino, uma armadura que apenas a deixava mais exposta.
Nicholas apareceu no umbral da porta, já um estudo em preto e branco no seu smoking impecável. Ele não falou, apenas a avaliou com aquela intensidade cinzenta que não oferecia calor, só julgamento. Um aceno de cabeça, seco e imperativo. O recado era claro: a encenação começaria. Quando ele se foi, o silêncio do quarto pareceu pesar mais, e a imagem do desenho infantil que encontrara voltou a assombrá-la. O homem, a mulher, a criança. A família feliz que se partiu. A fúria dele não era um incêndio novo, era a brasa de uma ruína antiga. E essa verdade, perigosa e indesejada, transformava o monstro em um homem.
O salão do evento beneficente era uma cacofonia de sorrisos afiados e tilintar de taças. Camila navegava naquele oceano de olhares ao lado de Nicholas, que se movia com a certeza letal de um tubarão em seu território. A mão dele em suas costas era uma corrente elétrica de baixa voltagem, um lembrete constante de posse, guiando-a pela multidão. Ela sorria, acenava, interpretava a Sra. Vance com os músculos do rosto protestando a cada segundo.
A emboscada veio na forma de três mulheres mais velhas, com penteados arquitetônicos e olhares de avaliadoras de gado. Uma delas, que se apresentou como Eleonora, sorriu de um jeito que não alcançou os olhos.
— Camila, querida. Uma surpresa agradável — disse ela, a voz um veludo puído. — Estávamos justamente comentando sobre sua irmã, Beatriz. Pura vida, aquela moça. Tinha uma energia… que incendiava qualquer ambiente, não acha? Nunca passava despercebida.
A comparação pairou no ar, uma névoa tóxica. *Ela era fogo. Você é cinza.* Camila sentiu o sangue gelar, a taça de champanhe em sua mão de repente pesada demais. Ela era a sombra, a substituta silenciosa, e elas sabiam. O silêncio das outras duas mulheres era um coro de concordância, os olhos brilhando com a expectativa de vê-la desmontar.
Ela abriu a boca, pronta para oferecer uma banalidade educada e fugir, mas uma presença sólida se materializou ao seu lado. O calor do corpo de Nicholas, o cheiro sutil de âmbar e poder.
— Nostalgia é um luxo perigoso, Eleonora. — A voz dele era baixa, quase uma carícia, mas cortou a conversa como uma lâmina. Todos os olhares se viraram. — Tende a embelezar o que não se pode mais ter.
O braço dele deslizou pela cintura de Camila, puxando-a para si num gesto que era tudo menos gentil. Era uma reivindicação. Um marco a ferro quente. Não havia afeto, apenas a mais pura e inegável possessão. Eleonora gaguejou, pega em flagrante.
— Nick, querido, apenas uma lembrança afetuosa…
— Minha esposa e eu preferimos focar no presente — ele a cortou, o sorriso frio não chegando aos olhos. Ele se inclinou minimamente, um segredo compartilhado com todos. — Beatriz era uma chama que se apagou rápido. Algumas coisas simplesmente não foram feitas para durar.
Seu olhar encontrou o de Camila por uma fração de segundo. Atrás da máscara de gelo, ela viu um lampejo de outra coisa. Uma curiosidade sombria, uma reavaliação. Como se ele a estivesse medindo novamente e encontrando algo que não esperava.
— Camila — ele disse o nome dela, e o som fez as outras mulheres recuarem um passo. — É a minha esposa.
O recado foi dado. As predadoras se dispersaram com desculpas esfarrapadas, deixando um vácuo no lugar onde a tensão estivera.
O resto da noite foi diferente. Nicholas a manteve por perto, a mão nunca deixando suas costas. Um sentinela silencioso. Ele era o anfitrião perfeito, mas uma parte de sua atenção estava sempre nela, um radar invisível. A defesa dele não fora por ela. Fora para proteger o nome Vance, o contrato, a farsa. Mas, ainda assim, o homem que a tratava como um objeto indesejado a havia blindado em público. O homem invisível a fizera ser vista.
No silêncio do carro, a caminho da mansão, o espaço entre eles no banco de couro parecia vibrar. Ela observava as luzes da cidade mancharem a janela, mas sua consciência estava presa ao homem ao seu lado. Ao som contido de sua respiração. Ao fato de que, pela primeira vez, o silêncio dele não parecia hostil. Parecia… carregado.
Quando o carro parou, a encenação terminou. Saíram e cruzaram o hall de entrada, sob a luz fantasmagórica do lustre. Era o momento da separação. Ele para sua ala, ela para a dela. De volta às suas celas individuais.
Nicholas já se virava em direção à escadaria oeste, pronto para retomar a rotina de estranhos. O dever estava cumprido. Mas as palavras dele ainda ecoavam na mente dela. *Camila é a minha esposa.* Uma declaração de propriedade. Uma verdade brutal que, de alguma forma, a fortalecera.
Ele deu o primeiro passo na escada de mármore. O som do sapato dele foi um clique seco, final. Uma porta se fechando. E algo dentro dela se rebelou. A curiosidade. A raiva. A necessidade de arrancar a máscara e ver o homem partido do desenho.
— Nicholas.
O nome dele escapou dos seus lábios, baixo, mas cortando o silêncio da mansão como o estilhaçar de um vidro. Foi uma quebra de pacto. Um ato de desafio.
Ele parou, costas perfeitamente retas. Por um longo segundo, não se moveu. Então, lentamente, virou a cabeça, o rosto parcialmente mergulhado na sombra. O olhar dele a encontrou através da distância, e a máscara de indiferença havia caído. Em seu lugar, não havia desprezo. Havia surpresa, irritação e, por baixo de tudo, uma pergunta crua, perigosa e totalmente exposta. Uma pergunta que queria saber que regra ela ousava quebrar agora.