O envelope pardo era uma arma frágil, mas a única que Hana Tanaka possuía. O papelão fino, pressionado contra seu peito, continha os três anos de um casamento que nunca existiu e a única coisa que importava agora: sua liberdade. Do outro lado daquelas portas giratórias de vidro escuro, um monumento ao poder e ao dinheiro, estava o fim da farsa.
Seu próprio reflexo, distorcido e anônimo, a encarou de volta. O casaco de lã genérico, os sapatos práticos e gastos — o uniforme de uma sombra. Por um instante, o peso do prédio pareceu sugar o ar de seus pulmões. Inspirando o cheiro de ozônio e asfalto molhado, ela empurrou a porta e entrou no silêncio.
Era um silêncio opressor, caro. O mármore preto do saguão, polido como um lago congelado, engolia o som de seus passos, transformando-os numa ofensa. O ar era gelado, filtrado, sem vida. Na recepção imponente, uma mulher com um fone de ouvido discreto registrou a presença de Hana não com um olhar, mas com uma imperceptível contração de desdém nos lábios. Era uma dispensa que valia por mil palavras.
Antes que Hana pudesse articular seu propósito, uma risada baixa e afiada cortou o ar.
— Akemi, querida, veja só — a voz, pertencente a uma mulher mais velha de coque severo e joias discretas, era um veneno destilado. — Parece que alguém errou o caminho da entrada de serviço.
Paradas perto de um arranjo de orquídeas fantasmagóricas, as duas a observavam. Akemi Ito, mais jovem e vibrante em seu batom vermelho, sorriu com genuína crueldade. Seus olhos escanearam Hana de cima a baixo, demorando-se nos sapatos desgastados.
— Sra. Suzuki, tenha modos. Talvez ela esteja perdida — disse Akemi, aproximando-se. O clique de seus saltos no mármore soava como o armar de um gatilho. — Procurando o RH? As vagas de limpeza são anunciadas online, querida.
Hana sentiu o calor subir pela nuca, mas o confinou ali. Manteve o rosto impassível, os olhos fixos no balcão da recepção. Ela tinha um único objetivo.
— Com licença — sua voz saiu mais firme do que esperava. — Tenho um documento para o senhor Kuroda. É pessoal.
A Sra. Suzuki bufou. — O senhor Kuroda não lida com entregas. Deixe aí e saia.
— Preciso entregar em mãos.
O sorriso de Akemi se alargou. Seu perfume floral e caro era uma névoa sufocante. — “Precisa”? Que ousadia. E quem seria você para “precisar” de algo do Ren? Ele vai saber do que se trata, suponho?
Hana apertou o envelope, a borda do papelão cravando em seus dedos. — Sim, ele vai.
Foi um erro. Um desafio silencioso que Akemi aceitou com prazer.
— Ah, uma mulher misteriosa! — ela se virou para a Sra. Suzuki, teatral. — Acha que Ren tem tempo para adivinhas de gente insignificante? Que fofa.
Hana ignorou-a e deu um passo para contorná-las, mas Akemi moveu-se como um relâmpago, bloqueando o caminho. O verniz de diversão em seu rosto endureceu.
— Onde pensa que vai? A recepção já existe para filtrar exatamente o seu tipo. Pessoas que não pertencem a este lugar. Agora dê o fora.
— Por favor, me dê licença.
— “Por favor”? — Akemi imitou sua voz, um deboche infantil. E então sua mão se moveu. Não foi um empurrão, foi um toque calculado, um golpe rápido e preciso no envelope que Hana segurava.
O tempo estilhaçou.
O envelope voou. As folhas de papel branco, antes protegidas, explodiram numa chuva silenciosa, flutuando em câmera lenta antes de pousarem, espalhadas pelo chão impecavelmente negro. O mundo de Hana encolheu e focou-se naquelas páginas. No topo da primeira, o título em negrito parecia um grito: ACORDO DE DISSOLUÇÃO DE SOCIEDADE CONJUGAL. E, abaixo, os nomes que eram uma piada de mau gosto: *Hana Tanaka e Ren Kuroda*.
O silêncio no saguão tornou-se absoluto, pesado. A recepcionista congelou, os olhos arregalados. O sorriso de Akemi vacilou e morreu quando seu olhar caiu sobre o cabeçalho. A humilhação era um frio que subia do chão de mármore e tomava conta de Hana. Lentamente, como se seus joelhos pudessem se quebrar, ela se agachou. Seus dedos tocaram a primeira folha, gelada contra sua pele. Ela juntou uma, depois outra. As mãos não tremiam. Haviam perdido toda a sensibilidade.
Um som metálico e distinto, como um gongo, anunciou a chegada do elevador privativo.
As portas de aço escovado deslizaram para o lado, e Ren Kuroda emergiu. Impecável num terno cinza-chumbo, ele não andava; ele redefinia o espaço ao seu redor. A arrogância de Akemi e da Sra. Suzuki se metamorfoseou instantaneamente em uma submissão tensa.
Os olhos de Ren, escuros e analíticos, varreram a cena: uma perturbação na ordem perfeita de seu universo. Uma mulher agachada, duas de suas funcionárias paralisadas, papéis espalhados como lixo. Seu olhar, um laser frio, pousou na anomalia. Na folha mais próxima a ele.
Ele leu o título. Viu seu próprio nome, o nome Kuroda, impresso num pedido de divórcio. No chão de seu saguão. Uma veia sutil pulsou em sua têmpora, o único sinal da fúria que fervia sob a superfície de controle.
Então, seus olhos se ergueram. Da palavra para a pessoa.
Ele viu as costas curvadas, o casaco simples, o cabelo escuro escondendo o rosto. Seu cérebro catalogou a cena como um problema a ser resolvido. Mas algo mais profundo, uma dissonância primal, prendeu sua atenção na mulher curvada. Não era lógico. Era um reconhecimento que contornava o pensamento, uma nota única e perturbadora em sua sinfonia de controle.
Hana se levantou. O movimento foi fluido, desprovido de hesitação. Ela segurava os papéis amassados. Seu rosto estava calmo, os olhos secos e vazios como vidro polido. Ela não olhou para Akemi ou para a Sra. Suzuki. Elas não existiam mais.
Seus olhos encontraram os de Ren.
Por um instante, a confusão nublou a autoridade no rosto dele. A esposa-fantasma, a complicação burocrática em seu nome, estava ali. Mas ela não era nada do que sua mente prática havia imaginado. Não havia medo ou súplica em seu olhar. Havia… nada. Um vácuo gélido.
— Você… — a palavra escapou dele, um fragmento de uma pergunta que ele nem sabia como formular.
A mão de Ren se ergueu por instinto, um gesto para parar o tempo, para exigir uma explicação. Um gesto para tocá-la.
Ela recuou antes que o contato acontecesse, um movimento mínimo que abriu um abismo entre eles. Hana se virou para ele, o queixo erguido, e esticou o braço, colocando o maço de papéis amarrotados sobre o mármore do balcão. Um ato final.
— Não se preocupe, Kuroda. — A voz dela era baixa, sem emoção, o que a tornava mais afiada que uma lâmina. O sobrenome dele, dito daquela forma, foi um golpe direto. — Eu já assinei.
Ela fez uma pausa, o silêncio no saguão pesando toneladas.
— O seu tempo comigo acabou.
E sem um segundo olhar, Hana Tanaka deu as costas ao marido que mal conhecia, ao seu império de vidro e aço, e à sua própria humilhação. Seus sapatos gastos, ao se afastarem, eram os únicos sons no silêncio atordoado que ela deixou para trás.