O Preço do Meu Silêncio
Cap. 2 de 5 · 20%

A Rainha Magenta

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Os passos de Hana não ecoavam. Eles marcavam. Cada toque do sapato gasto no mármore era um golpe contra o silêncio perfeito do império de Ren Kuroda. Ele permaneceu imóvel, os olhos fixos na porta giratória que a engoliu, um predador observando a presa desaparecer não por fuga, mas por escolha. Quando o movimento cessou, o saguão se tornou um mausoléu de perfeição e vergonha. Akemi Ito quebrou o silêncio, a voz um silvo desesperado que rasgou o ar. — Ren... eu não fazia ideia... ela... essa mulher surgiu do nada, exigindo... O olhar dele se moveu. Lento, deliberado, letal. Não para a porta, mas para ela. Seus olhos não continham a fúria quente que Akemi esperava, mas um gelo que queimava mais. Era o mesmo vácuo polido que vira no rosto de Hana — um lugar onde as emoções iam para morrer. — Ela quem, Akemi? — a voz dele era perigosamente baixa, quase um sussurro. — A... a sua... — Akemi engoliu a palavra. O veneno que usara antes agora a sufocava. Ao seu lado, a Sra. Suzuki estava pálida, os lábios comprimidos. Ela entendia a linguagem do poder melhor que a amante de seu chefe. E entendia que o jogo terminara. Ren deu um passo. O couro de seus sapatos fez um ruído suave, o único som no universo particular dele. Ignorou os papéis do divórcio sobre o balcão. Eram um sintoma, não a doença. A doença era o caos. A desordem. A humilhação pública em seu próprio território. — Vocês duas — disse ele, a voz um fio de aço. — Minha sala. Agora. Não era uma ordem. Era uma sentença. No caminho até o elevador privado, ele pegou o intercomunicador do bolso. — Segurança. Dois homens na minha porta em um minuto. Ninguém entra. E ninguém sai com nada além da própria bolsa. A subida silenciosa foi a mais longa da vida de Akemi. Ren não as olhava. Fitava o próprio reflexo nas portas de aço, o rosto uma máscara impassível. Quando as portas se abriram em seu andar, ele atravessou o escritório e parou atrás de sua mesa de mogno, uma fortaleza de onde governava seu mundo. — Fechem a porta. Akemi obedeceu, as mãos trêmulas. A Sra. Suzuki permaneceu em pé, a postura rígida, aceitando o inevitável. — Ren, por favor, me escute — Akemi começou, as palavras tropeçando. — Foi um mal-entendido. Ela estava vestida como... como uma qualquer. Jamais imaginei... — É exatamente esse o problema — ele a cortou, sem levantar a voz. Suas mãos alinharam um porta-canetas de prata com a borda da mesa. Um movimento milimétrico, preciso. — Você não imagina. Você assume. E o seu trabalho, assim como o da senhora Suzuki, não é assumir. É zelar pela discrição da Kuroda Corporation. Ele ergueu os olhos para a mulher mais velha. — Você está aqui há vinte anos, Suzuki. Sabe como as coisas funcionam. Uma cena dessas no saguão é inaceitável. Com... — ele fez uma pausa, a palavra parecia um osso preso na garganta — ...ela, torna-se uma catástrofe. — Sim, senhor Kuroda — a voz da Sra. Suzuki era um fio. — Eu não fiz nada! — protestou Akemi. — Eu estava protegendo você! O olhar de Ren pousou sobre ela, e Akemi se encolheu. — Você não me protegeu. Você me expôs. Transformou um assunto privado em um espetáculo. Por vaidade. Por crueldade. E por estupidez. Ele abriu uma gaveta, retirou dois envelopes brancos e os deslizou sobre a mesa polida. O som foi seco, final. — O departamento de Recursos Humanos tem os termos de rescisão. Estão dispensadas. Imediatamente. Akemi engasgou. — O quê? Ren, não pode fazer isso! Por causa *dela*? — Saia. — Mas nós... — *Saia* — a palavra, ainda que baixa, estalou no ar, carregada de uma finalidade que congelou qualquer réplica. A Sra. Suzuki fez uma reverência curta e rígida, virou-se e caminhou para a porta. Akemi, com lágrimas de raiva e choque escorrendo, a seguiu, lançando um último olhar de ódio para Ren. Ele já não as via. Estava novamente alinhando o porta-canetas com a borda da mesa. Restaurando a ordem. O segurança que trouxera os papéis do divórcio os deixou sobre a mesa. Ren os pegou. A assinatura dela. *Hana Tanaka*. Simples, sem floreios. O nome de uma estranha, uma nota de rodapé em sua vida que de repente exigia ser o capítulo principal. Havia um número de telefone. Ele discou, um impulso para retomar o controle, para exigir uma explicação. O telefone de Hana vibrou no console de couro do sedã preto que se afastava do distrito financeiro. Ela olhou para o visor. O nome "Kuroda Ren" brilhava ali. Seu polegar pairou sobre o ícone verde por um milésimo de segundo. A velha Hana teria atendido. Teria se encolhido. Teria pedido desculpas. Ela apertou o botão vermelho. E, em seguida, segurou o botão lateral até a tela se apagar. O carro virou numa avenida larga, e a torre da Kuroda Corporation desapareceu do espelho retrovisor como uma memória distante. --- Na manhã seguinte, o ar no salão de um dos hotéis mais luxuosos de Tóquio não tinha o cheiro de café, mas de eletricidade. O de câmeras fotográficas disparando em uníssono. Nos bastidores, Hana se olhou em um espelho de corpo inteiro. O casaco de lã cinza dera lugar a um tailleur perfeitamente cortado de um magenta profundo e ousado, a cor de uma orquídea rara colhida no auge de seu poder. Não gritava por atenção; ele a comandava. Seu cabelo, antes preso em um coque funcional, caía em ondas suaves sobre seus ombros, brilhando sob as luzes. A maquiagem era mínima, mas precisa, acentuando a estrutura de seu rosto que a humildade antes escondia. Não parecia diferente. Parecia, pela primeira vez, completa. Um diretor de cabelos grisalhos se aproximou, a reverência em seu olhar mais profunda do que a formalidade exigia. — Está pronta, senhorita Tanaka? Hana encontrou os próprios olhos no espelho. Aquele vazio de ontem ainda estava lá. Mas não era perda. Era propósito. — Sim — sua voz era calma. — Estou pronta há muito tempo. Ele a conduziu para o palco. As luzes a cegaram por um instante, um batismo de fogo. Os flashes eram como estrelas explodindo. Ela caminhou até o pódio sem vacilar. O diretor pigarreou ao microfone. — Senhoras e senhores, obrigado pela presença. Convocamos esta coletiva para um anúncio de extrema importância. Por muitos anos, acreditou-se que a linhagem direta da família fundadora do Grupo Tanaka havia se extinguido. Hoje, estamos aqui para corrigir a história. Tenho a honra de apresentar a neta de nosso fundador e, a partir de hoje, a nova presidente e CEO do Grupo Tanaka. Senhoras e senhores... Hana Tanaka. Um silêncio chocado caiu sobre o salão, seguido por um frenesi de cliques. Hana se aproximou do microfone. — Bom dia. — Sua voz, amplificada, preencheu cada canto da sala. Firme, clara, sem um pingo de hesitação. — Assumo hoje a liderança do Grupo Tanaka não apenas como um direito, mas como um dever. Meu avô construiu esta empresa com base na inovação e na integridade. Valores que, nos últimos anos, talvez tenham se perdido. A partir de hoje, começa uma nova era. --- Ren Kuroda estava em sua sala, o silêncio mais pesado que na noite anterior. Um copo de uísque intocado suava sobre a mesa. Seu assistente entrou sem bater, o rosto pálido. — Senhor... o senhor precisa ver isso. Ele apontou para a grande tela na parede, geralmente sintonizada em canais de negócios. O logotipo do Grupo Tanaka dominava a imagem. Ren fez um gesto de irritação. Seus maiores rivais. Justo hoje. "...a nova presidente e CEO do Grupo Tanaka. Senhoras e senhores... Hana Tanaka." Ren congelou. O nome o atingiu como um golpe físico. Ele se virou lentamente para a tela. E a viu. Não era a mulher encolhida no seu saguão. Era uma rainha. O terno magenta abraçava uma figura de poder e graça. O rosto era o mesmo, mas a expressão pertencia a outro universo. Era compostura, não resignação. Controle, não submissão. A voz, a mesma que declarara o fim do tempo deles, agora prometia uma nova era para a maior empresa concorrente do Japão. *Hana Tanaka*. A esposa arranjada que ele nunca se dera ao trabalho de conhecer. A mulher que sua amante humilhou. A figura anônima cujo pedido de divórcio era um inconveniente burocrático, uma pedra em seu sapato. O copo de uísque, esquecido em sua mão, escorregou. O som do cristal se estilhaçando no piso de madeira foi agudo, violento, mas Ren não o ouviu. Seus ouvidos estavam preenchidos pela voz dela, e seus olhos, fixos na tela, finalmente entendiam. A mulher que ele nunca quis era agora a mulher de quem ele mais precisava para a fusão que definiria seu legado. E a mulher que ele jamais poderia derrotar.
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