O eco da sua própria crueldade era a única companhia na suíte panorâmica. *Distrações*. A palavra, tão afiada na noite anterior, agora parecia um caco de vidro na garganta de Hana. O vestido azul-cobalto, caído sobre uma poltrona, era a pele de uma mulher que ela ainda não sabia se queria ser. O poder tinha um peso, um cheiro artificial de ar condicionado e uma solidão que nenhuma vista de Tóquio conseguia preencher.
Descalça, sentindo a textura do tapete caro, ela olhou para a rua. O sedã preto do Grupo Tanaka esperava, um carcereiro elegante pronto para levá-la ao próximo ato. Mas o roteiro da CEO implacável, antes uma armadura, agora parecia uma jaula. Uma hora depois, dentro desse mesmo carro, vestida com calças de tecido, um suéter de caxemira e sapatos baixos, ela deu a ordem que mudaria o seu dia.
— Pode ir.
O motorista encontrou seu olhar no retrovisor, confuso. — Senhorita Tanaka? A sua reunião no banco...
— Cancele. — A voz dela era baixa, mas firme. — Imprevisto familiar. — Sem esperar por uma resposta, Hana abriu a porta e saiu para o ruído da cidade, fechando-a atrás de si. O cheiro de asfalto húmido e de comida vinda de uma loja próxima era real, uma lufada de ar que os seus pulmões ansiavam. Ela atravessou a rua, ignorando os táxis, e parou num ponto de autocarro, uma figura anónima na pressa da manhã. A anonimidade era oxigénio.
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Um autocarro. Ren Kuroda agarrou o volante do seu carro, estacionado na sombra de um prédio do outro lado da rua. Ele viu-a dispensar o motorista e simplesmente esperar. Um autocarro. A ideia era tão absurda que só podia ser uma manobra. Um encontro secreto? Uma forma de o despistar? A rejeição da noite anterior ainda queimava, uma ferida aberta no seu orgulho. Ele não estava a seguir uma esposa. Estava a rastrear um adversário.
Ligou o carro, o motor um sussurro abafado em contraste com o rugido do veículo em que ela tinha entrado. Manteve-se a uma distância que não levantasse suspeitas, sentindo-se um idiota a cada curva que o afastava mais do distrito financeiro. A rota dela não tinha lógica de negócios. Mergulhava em bairros residenciais, ruas mais estreitas, onde o ritmo da cidade abrandava. A cada paragem, ele esperava-a descer. Mas ela continuava ali, o perfil sereno contra a janela, uma passageira comum numa viagem para lugar nenhum.
Quando ela finalmente saiu, ele franziu o cenho. Um prédio baixo, de tijolo e betão, funcional e sem qualquer brilho. Uma placa de bronze gasto identificava-o: Biblioteca Municipal. Ele encostou o carro numa rua lateral e desligou o motor, o silêncio repentino amplificando a batida descompassada do seu coração. Que raio de jogo era este?
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O cheiro. Foi a primeira coisa que a abraçou. Papel velho, pó de conhecimento e cola de encadernação. Era o cheiro de um santuário. Hana fechou os olhos, inspirando o ar espesso e familiar. Era o antídoto perfeito para o perfume clínico do poder.
Os seus passos foram engolidos pelo carpete gasto enquanto vagueava pelo salão principal. O único som era o virar de páginas, uma tosse distante e o zumbido das luzes. Ela passou os dedos pela lombada de um livro num carrinho, um toque que era memória, um afeto gravado na pele.
— Hana-san?
Ela virou-se. A senhora Watanabe, com os seus óculos grossos e o coque desalinhado, espreitava-a por cima do balcão de informações, os olhos pequenos e brilhantes de surpresa.
Um sorriso, o primeiro genuíno em dias, iluminou o rosto de Hana. — Ainda a tentar convencer o gato do bairro de que Dostoievski não é comestível, Watanabe-san?
A mulher soltou uma risada que soou como folhas secas. — Ele agora prefere Murakami. O que faz aqui, menina? Os jornais dizem que está a conquistar o mundo.
— Precisava de organizar algumas coisas — respondeu Hana, com um significado que só ela entendia.
Ali, ela não era a CEO. Era a Hana-san que sabia consertar a impressora com um clipe, que encontrava livros perdidos como se eles lhe sussurrassem a sua localização. Era a colega. Ao lado de um jovem assistente que se queixava de um utilizador, ela ouviu, riu e, por instinto, pegou num carrinho cheio de livros devolvidos.
— Deixe isso, você não trabalha mais aqui — protestou a senhora Watanabe, com um carinho protetor.
— É como respirar. — Hana sorriu e empurrou o carrinho em direção ao Corredor 7. Ficção Histórica. Os seus pés conheciam o caminho. As suas mãos, o peso exato de cada volume. Puxou um livro, leu a etiqueta, encontrou a sua casa na prateleira e deslizou-o para o lugar com um toque reverente. A tarefa era metódica, silenciosa, invisível. Era a caligrafia do cuidado. Era pôr o caos em ordem. Cada livro que voltava ao seu lugar era uma peça dela mesma que ela reencontrava.
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Ren observava através da grande janela da biblioteca, um predador a espiar um ecossistema que não compreendia. Hana não estava numa reunião. Não estava a tramar. Ela estava a… arrumar livros. E ria. Uma risada aberta, que ele a viu partilhar com a senhora do balcão. Um som que ele nunca lhe ouvira em três anos de casamento.
Ele viu-a parar num corredor, tirar um livro da estante e, por um instante fugaz, encostar a capa na bochecha, os olhos fechados num gesto de pura e serena intimidade. O ato, tão pequeno e privado, atravessou o vidro e atingiu-o no peito. Um aperto súbito, agudo, que lhe roubou o ar. Aquilo não pertencia ao mundo dele. A mulher que ele via não era a rainha de gelo do baile. Não era a rival da sala de reuniões. Era uma completa desconhecida.
A CEO era o inimigo. A mulher no baile era o prémio a ser conquistado. Mas esta… esta mulher que sorria para o pó dos livros, quem era ela?
A obsessão que o levara até ali, o desejo de encontrar uma fraqueza, de prever o seu próximo ataque, começou a parecer ridículo. Infantil. Ele viera procurar uma arma para a destruir.
Ren percebeu, com uma clareza que o aterrorizava, que a sua guerra tinha acabado de mudar. Ele já não queria vencer Hana Tanaka. Ele queria desesperadamente conhecer Hana.