O champanhe na taça de Ren Kuroda já havia morrido. As bolhas se foram, deixando um líquido dourado e imóvel que espelhava perfeitamente seu estado de espírito. Ele estava encostado em uma coluna de mármore, um espectador em sua própria selva, e o ar denso de perfume caro e ambição agora tinha o cheiro inconfundível de sua própria derrota. Cada sorriso que recebia parecia afiado, cada aperto de mão, uma avaliação de sua nova e diminuída posição.
A mudança foi sísmica, mas silenciosa. Hana não precisou de uma entrada anunciada por trompetas. Ele a sentiu antes de vê-la, como um animal sente a queda na pressão do ar antes da tempestade. A energia do salão de baile se dobrou em sua direção. Conversas vacilaram, cabeças se viraram. Ela deslizava entre os magnatas como uma pantera da noite, envolta em um vestido azul-cobalto que absorvia a luz, uma mancha de poder silencioso na opulência do ambiente.
O cabelo, antes preso em coques severos, agora caía em uma cascata negra e brilhante sobre um ombro, revelando o brilho solitário de um diamante na orelha oposta. Não era um visual de sedução, era um de comando. Ren observou, o maxilar travado, enquanto um concorrente brutal do setor imobiliário se inclinava para ouvi-la, o rosto transfigurado em admiração. Viu-a erguer a taça aos lábios, um gesto lento, os olhos varrendo o salão por sobre a borda, sem pressa, sem procurar nada. Sem procurar por ele. A constatação o atingiu não como uma pedra, mas como gelo se formando em suas veias. Ele era apenas parte do cenário que ela agora dominava.
Horas antes, seus advogados haviam entregue os contratos da Apex Components assinados. Uma capitulação silenciosa sob a guilhotina do prazo de vinte e quatro horas. Agora, aquela humilhação privada ganhava um palco. Impelido por um instinto que não era mais sobre negócios, mas sobre algo primitivo e possessivo, Ren pousou a taça intocada na bandeja de um garçom e começou a se mover.
Sua trajetória era a de um míssil. Conhecidos que tentaram interceptá-lo foram dispensados com um aceno seco, um murmúrio. Seus olhos estavam fixos nela. Hana estava no centro de um pequeno círculo, ouvindo um banqueiro de cabelos prateados, um leve sorriso polido nos lábios. Um sorriso que não tocava seus olhos.
Ren parou a poucos passos, uma presença que o banqueiro sentiu como uma corrente de ar frio. O homem mais velho recuou instintivamente, oferecendo a Hana uma pequena reverência antes de se afastar. Ela se virou. O ar entre eles pareceu estalar.
— Senhor Kuroda. — A formalidade era uma lâmina. Ele podia sentir o fio da navalha naquela saudação, cortando qualquer vestígio de intimidade que um dia existiu.
— Hana. — Ele usou apenas o primeiro nome dela. Uma tentativa de reivindicar um território que ele não sabia que havia perdido.
Ela não reagiu. Apenas inclinou a cabeça levemente, um gesto de rainha dispensando um cortesão. O som de uma valsa começou a preencher o salão, e Ren viu sua única abertura.
— A orquestra... — ele começou, a voz mais baixa do que pretendia. — Concede-me a honra desta dança?
O silêncio que se seguiu durou apenas três segundos, mas foi o suficiente para que os olhares mais próximos se voltassem para eles. Para o mundo, era o titã Ren Kuroda cortejando a enigmática CEO do Grupo Tanaka. Para ele, era como pedir permissão para respirar.
Sem uma palavra, ela estendeu a mão. A palma para cima. Um gesto de negócios, não de convite. Ele a segurou. Seus dedos estavam frios.
Na pista de dança, ele pousou a mão em suas costas, sentindo o tecido liso e frio do vestido. Ela manteve uma distância milimétrica e profissional entre seus corpos. Não era a dança de um casal. Era a de dois duelistas em solo neutro.
— A capitulação foi entregue esta manhã — ele murmurou, perto o suficiente para que apenas ela ouvisse, testando-a com a palavra mais agressiva que encontrou.
O olhar dela, que estava fixo por sobre o ombro dele, finalmente encontrou o seu. Um brilho perigoso acendeu em suas profundezas.
— Achei que tivéssemos concordado que era uma fusão estratégica, senhor Kuroda. — Sua voz era um sussurro de seda e aço. — Ou sua equipe usa outra terminologia para acordos mutuamente lucrativos?
O golpe foi perfeito. Ela o fez parecer emocional, despeitado, enquanto mantinha uma fachada impecável de profissionalismo.
— É apenas isso para você? Um acordo lucrativo? — A necessidade de arrancar uma lasca daquela armadura tornou-se uma urgência física.
Pela primeira vez, algo em sua expressão mudou. Não era raiva, nem dor. Era um vácuo polido, o reflexo de um homem que ela simplesmente não reconhecia mais como parte de sua vida.
— O que mais deveria ser, senhor Kuroda?
A valsa terminou. Antes que a última nota morresse, a mão dela já se retirava da sua. A conexão foi cortada.
— Obrigada pela dança. — Foi uma demissão. — Agora, se me der licença, tenho investidores para tranquilizar. E concorrentes para avaliar.
Ela se virou e se dissolveu na multidão, deixando-o parado no meio da pista, o fantasma de seu toque frio queimando em sua mão.
Mais tarde, Ren a viu perto do terraço. Um herdeiro de um império de tecnologia, mais jovem, notoriamente implacável e bonito, estava inclinado em sua direção. A intensidade do rapaz era óbvia, um cortejo explícito que fez algo se contrair no peito de Ren. Ele não ouvia as palavras, mas observava a linguagem corporal: a confiança do jovem, a quietude de Hana. Então, ele viu o momento exato da derrota do rival. Um leve aceno de cabeça dela, final. O sorriso do rapaz vacilou e ele se afastou, o rosto uma máscara de frustração.
O evento estava terminando. Ren a viu caminhar em direção à saída, sua postura um estudo em dignidade e poder. Ele não podia deixar terminar assim. Uma última tentativa. Um impulso irracional de forçar um reconhecimento.
Ele se moveu para interceptá-la perto da porta, bloqueando sutilmente seu caminho.
— Hana…
Ela parou. Por um instante, o mundo pareceu prender a respiração. Mas seus olhos não se fixaram nele. Eles olharam através dele, como se ele fosse vidro, focados em seu assistente que a esperava logo atrás.
Sua voz, embora baixa, cortou o ar com uma clareza brutal.
— Vamos. Não estou mais interessada em distrações.