Nove da manhã. Para a luz dourada de Paraty, era apenas o começo de outro dia. Para Marina, era a hora marcada para sua sentença. O ar da pousada, usualmente salgado e leve, pesava em seus pulmões, denso de uma umidade que não vinha do mar, mas da antecipação. Não tomou café. A ansiedade já lhe servia de alimento amargo.
Vestiu-se como quem veste uma armadura: uma calça de linho claro, uma blusa branca, simples. Roupas que em São Paulo projetavam controle, mas que ali, sob o sol que conhecia todos os seus segredos, pareciam uma fantasia barata. Parou diante do velho muro de pedra que separava seu passado do presente. Ontem, uma barreira burocrática. Hoje, o paredão do seu fuzilamento particular.
O portão de ferro do casarão vizinho estava entreaberto, um convite que não era um convite. Lá dentro, os sons de trabalho — o raspar de metal, o zumbido de uma serra, vozes masculinas em comando — já anunciavam a nova ordem. Ela entrou, sentindo o peso dos olhares curiosos dos operários que pararam por um instante. A fofoca da cidade acabara de ganhar um rosto.
Rafael estava de costas, na varanda, o corpo tenso e focado. Apontava para os fundos do terreno enquanto conversava com um homem mais velho que segurava uma planta de arquitetura. As mangas da camisa, dobradas nos cotovelos, revelavam antebraços bronzeados e fortes, de quem construía, não apenas sonhava. Ele pertencia àquele lugar de uma forma que ela jamais pertencera, nem mesmo quando achou que pertenceria para sempre.
Ela parou a uma distância segura, esperando. O arquiteto a viu primeiro. Rafael seguiu o olhar dele, virando-se com uma lentidão deliberada. Seus olhos, desta vez, não tinham o choque do reencontro. Eram frios, analíticos. Percorreram-na de cima a baixo, não para ver a mulher, mas para registrar um problema.
— Sra. Vasconcelos. — A formalidade, diante dos outros, foi como uma bofetada de gelo. — Pontual.
Marina apenas assentiu, as mãos enfiadas nos bolsos da calça para esconder o tremor.
— Este é o Sr. Arantes, o arquiteto. — Rafael gesticulou, já se virando de volta para o projeto, numa clara demonstração de que a apresentação era uma mera formalidade. — Como eu dizia, Arantes, a estrutura aqui é a prioridade. Preservamos a fachada, mas todo o interior precisa de uma fundação nova.
Ele continuou, ignorando-a. Discutia sobre vigas, encanamentos e fiação com a fluidez de quem domina o assunto, a voz firme projetada para ser ouvida por cima do barulho da obra. Marina ficou de pé, imóvel, sentindo-se um fantasma no jardim que um dia fora a extensão do seu. O calor subiu-lhe pelo pescoço.
— E o muro? — ela interrompeu, a voz mais alta do que pretendia, arranhada pela necessidade de se fazer presente.
Rafael pausou. Girou a cabeça na direção dela. Havia um brilho de impaciência no fundo de seus olhos, como uma brasa sob cinzas.
— O muro é o que estamos discutindo. — Ele apontou para a planta na mão do arquiteto. — Vamos derrubar esta seção para construir a base do anexo. Exatamente aqui.
Hesitante, ela se aproximou. O desenho técnico mostrava a linha da divisa, a posição da velha cisterna. Perto demais. O ar faltou.
— Isso é colado na cozinha da pousada. Vai afetar a estrutura.
— O Sr. Arantes garante que não. — A resposta foi final, descartando a objeção antes mesmo que ela terminasse de formulá-la. — Faremos o escoramento. Não haverá risco para a sua... propriedade.
A pausa foi minúscula, mas carregada de intenção. *Sua* propriedade. Um estorvo. Um empecilho no caminho dele.
Seu olhar desviou para a varanda, para os pilares de madeira escura que a sustentavam, a tinta descascada revelando um azul antigo por baixo. O coração deu um solavanco doloroso, uma fisgada de memória. Foi ali, naquela mesma varanda, numa noite de chuva fina, que ele tocara para ela ao violão. Onde ele dissera, com a voz embargada de sinceridade, que aquela casa só faria sentido se ela estivesse dentro.
— A varanda... — A pergunta escapou, um sussurro frágil. — O que vão fazer com a varanda?
Rafael seguiu seu olhar. Por um átimo de segundo, a máscara de frieza dele rachou. Uma sombra de algo que ela não via há dez anos — dor, talvez — turvou seu rosto. A memória era compartilhada. O golpe a atingiu com a mesma força.
Mas o momento se quebrou. Ele piscou, e o gelo voltou, mais espesso e cortante.
— Será completamente refeita. O madeirame está condenado.
Condenado. Uma palavra técnica. Um fato de engenharia. Ele estava demolindo a história deles e chamando de reforma. Uma dor aguda se instalou no peito de Marina, e ela cruzou os braços com força, um gesto instintivo para se impedir de desmoronar ali, na frente dele, dos operários, do arquiteto constrangido que começou a enrolar a planta.
— Entendeu o projeto, Sra. Vasconcelos? — A pergunta era puro desdém. Ele já se virava para o arquiteto. — Acho que está tudo alinhado. Podemos começar a demolição interna na segunda.
A reunião havia acabado. Ela estava dispensada. Invisível e irrelevante, no meio do jardim dele.
— Se não há mais nada... — começou Marina, a voz fraca.
Rafael não se virou. Passou a mão pelo cabelo, um gesto de impaciência contida.
— Não. Não há. Entraremos em contato quando precisarmos da sua assinatura.
Ela recuou um passo, depois outro. As ferramentas dos operários voltaram a soar, preenchendo o vazio brutal que ele deixara entre eles. Ele permaneceu de costas, o corpo uma muralha de indiferença.
Marina deu as costas e caminhou para o portão, cada passo uma derrota. Não olhou para trás. Não precisava. Sentia os olhos dele cravados em suas costas, frios, implacáveis, observando-a ir embora, devolvendo a ela, com juros, a mesma cena de dez anos atrás.
Apoiou-se na pedra fria do portão do seu lado, a respiração presa na garganta. O jogo dele era mais cruel do que imaginara. Não era uma vingança passional. Era cirúrgica. Ele não a queria longe. Queria-a perto.
Queria-a como testemunha ocular da demolição de cada lembrança que partilharam, até que não restasse nada além de entulho e poeira. Até que a história deles fosse apenas um terreno baldio.
Ela finalmente entendeu. Ele não queria cooperação.
Queria penitência.