O Segredo do Casarão
Cap. 4 de 20 · 15%

A Varanda das Promessas

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A humilhação daquela manhã no jardim de Rafael tinha um peso físico. Era um calor sob a pele, uma urgência nos músculos que a impelia a mover-se, a mudar qualquer coisa de lugar. Marina caminhava pelos corredores da pousada vazia, onde cada passo no assoalho antigo ecoava como uma acusação. O silêncio era tão denso que parecia absorver a luz do sol, deixando apenas barras de ouro poeirento suspensas no ar. Ela não viera para se esconder, mas o mundo parecia encolher ao seu redor, reduzido àquele casarão e à casa ao lado. Em um ato de rebeldia contra a própria paralisia, ela girou a maçaneta de uma porta que sempre estivera trancada: o pequeno escritório da avó. O ar confinado, com cheiro de papel velho e naftalina, a golpeou. E então ela o viu. Encostado na parede como um sentinela esquecido, um estojo de violão coberto por um véu de poeira. O coração dela parou, depois tropeçou. Com os dedos trêmulos, ela limpou a superfície, o couro sintético revelando marcas familiares. Os fechos de metal protestaram com um rangido agudo, o som de algo que não deveria ser aberto. Lá dentro, sobre o veludo vermelho gasto, repousava o Giannini dele. O náilon das cordas estava opaco, e um arranhão específico perto da boca do violão — de uma noite em que ele tentara, rindo, tocá-lo nas costas — fisgou sua memória com uma violência inesperada. Era o violão de Rafael. Por que estava ali? Esquecido por ele na pressa de vê-la partir? Deixado por ela, na pressa de esquecê-lo? O toque da madeira fria e lisa sob seus dedos foi o gatilho. O cheiro de mofo no escritório não se dissolveu, foi empurrado para o lado pelo perfume noturno de jasmim e terra molhada. O silêncio não foi preenchido, foi rompido pelo tamborilar suave de uma chuva fina no telhado de barro. Ela estava de volta à varanda dele. Seus pés descalços no ladrilho frio, o corpo encolhido em uma poltrona de vime, um casaco pesado demais — o casaco dele — sobre os ombros. Rafael estava sentado no parapeito largo, o violão no colo, os dedos dançando sobre as cordas com a intimidade de um amante. Ele não tocava para uma plateia; tocava como quem respira, uma melodia que nascia e morria ali mesmo, cheia de pausas e de uma doçura melancólica. A luz que vazava da sala esculpia o contorno de seu rosto, o brilho no cabelo úmido da garoa, o sorriso quase imperceptível quando uma nota soava exatamente como ele queria. Ele parou e seus olhos a encontraram na penumbra. Não havia gelo neles. Havia um calor que prometia abrigo, uma ternura tão vasta que ela sentiu que poderia se afogar ali e não se importaria. — Você está rindo de quê? — A voz dele era baixa, um barítono suave que se misturava ao som da chuva. — De nada. — Ela se aninhou mais fundo no tecido áspero de seu casaco. — Só pensando que esta varanda já viu de tudo. Ele pousou o violão com cuidado e deslizou do parapeito para o chão, sentando-se aos pés dela e apoiando o queixo em seus joelhos. O gesto era tão natural, tão certo. — Em alguns meses, vai ver o começo da nossa história. — A mão dele buscou a dela, os dedos se entrelaçando com a facilidade de quem já fizera aquilo mil vezes. — Pensa nisso, Marina. Não vai ser mais a casa do meu pai. Vai ser a *nossa* casa. Nossos filhos correndo por esse jardim, o cheiro do teu bolo de fubá saindo da cozinha… Marina fechou os olhos com força, a lembrança tão tátil que doía. O calor da pele dele, o peso de seu olhar, a certeza de aço em sua voz. — Você tem certeza? — O sussurro dela, naquela noite, era o mesmo que ecoava em sua cabeça agora, uma década depois. — Eu nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. Um som morto, oco, a trouxe de volta. Um *thump* surdo. Seus próprios dedos, rígidos, tentaram formar um acorde no violão em seu colo. As cordas velhas mal vibraram. A música não existia mais. A varanda, a chuva e o calor se foram. O escritório empoeirado a engoliu de novo, claustrofóbico e frio. O violão em suas mãos não era mais uma relíquia, era uma lápide. A prova material de uma vida que ela mesma matara. Uma dor aguda a atingiu, não pela culpa antiga, mas por algo mais egoísta e brutal: o luto pela mulher que ela fora. A garota que acreditava em “nossa casa” e “para sempre” com uma esperança que, vista de hoje, parecia uma ingenuidade criminosa. Agora a frieza de Rafael fazia um sentido terrível. Ele não estava apenas demolindo uma varanda. Ele estava executando uma demolição simbólica. Estava erradicando a última prova física de que a felicidade deles foi real, forçando-a a ser testemunha ocular para que ela entendesse: assim como a madeira podre, aquele amor não tinha conserto. Estava condenado. Ela guardou o violão de volta no estojo, o cuidado de seus gestos era fúnebre. O clique dos fechos de metal soou como terra caindo sobre um caixão. A ideia de vender a pousada, de fugir, pareceu de repente um plano infantil. Para onde ela iria, se o fantasma não estava naquelas paredes, mas sob sua pele? A respiração presa na garganta, ela se apoiou na porta. O homem de olhar glacial no jardim e o rapaz que prometia o futuro na varanda eram a mesma pessoa. E a parte mais cruel da vingança dele era forçá-la a se lembrar do segundo enquanto era punida pelo primeiro. Uma lágrima solitária e quente desceu, abrindo um caminho limpo na poeira de sua bochecha. O gosto de sal em seus lábios. Sim, ela destruiu tudo. E agora, o eco de sua escolha a estava torturando não com a feiura da destruição, mas com a beleza insuportável do que foi perdido. Ela se afastou da porta, o olhar vago fixo na penumbra. Por um instante, a dor foi tão absoluta que a deixou vazia. Mas no vácuo, algo novo começou a se formar. Não era esperança. Era algo mais duro, afiado como vidro quebrado. Raiva. Ele queria penitência. Queria que ela assistisse, passiva, à demolição de seu passado. Que ela aceitasse seu veredito de que tudo estava podre. Marina ergueu o queixo. O olhar fixo, agora, não via mais o escritório empoeirado, mas a casa ao lado. Não. Ela não seria uma espectadora no funeral de suas próprias memórias. Se aquela varanda continha a prova de que um dia foram felizes, então ela não era apenas dele para destruir. Era dela para defender.
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