Um chiado. Baixo, insistente, vindo de onde não deveria haver som algum. Marina congelou, a xícara de café suspensa no ar. Não era o mar, nem um pássaro. Era o som errado, um assobio sutil e úmido que parecia vir de dentro da parede da cozinha. Ela pousou a xícara e seguiu o ruído, que se intensificava a cada passo, transformando um mau pressentimento em certeza.
Ela encostou o ouvido na parede de pedra fria que a separava do casarão vizinho. Ali. O som era claro, acompanhado por algo novo: uma mancha escura serpenteando pelo rejunte. Marina tocou a pedra e sentiu a umidade gelada. Diante de seus olhos, um filete de água se formou, depois outro, escorrendo até o chão onde uma poça começava a se espelhar. O sussurro de uma prece inútil escapou de seus lábios: “Agora não”. A origem do desastre era óbvia. Era dele.
Praguejando contra o universo, ela calçou as sandálias e marchou para fora. O barulho da obra de Rafael era uma cacofonia de britadeiras e metais se chocando. Ela o avistou de costas, perto do que restava da varanda, dando ordens a Arantes. A raiva lhe deu voz.
— Rafael!
Ele não a ouviu. Ela gritou de novo, a voz cortando o barulho, cheia de uma urgência que o fez parar.
Ele se virou. A impaciência em seu rosto se transformou em desprezo ao vê-la ali, uma intrusa em seu domínio de poeira e destruição. Ele se aproximou com passos pesados, a pergunta não dita nos olhos endurecidos: *O que você quer agora?*
— Está vazando água na parede da minha cozinha — disse ela, a voz firme apesar do coração disparado. — Muita. O cano estourou do seu lado.
O ceticismo dele era uma ofensa. Por um segundo, ela viu a acusação em seu olhar: mais um truque, mais um drama para atrapalhar seus planos. Sem uma palavra, ele passou por ela como um furacão e invadiu a pousada. Marina o seguiu, a indignação misturada ao pânico.
Ele parou no meio da cozinha alagada, o queixo tenso. O som do vazamento era um murmúrio constante. Ele tocou a parede encharcada, os traços de engenheiro frio sobrepujando o homem magoado enquanto avaliava o dano.
— Merda.
A palavra, seca e desprovida de sarcasmo, foi a primeira coisa neutra que compartilharam em dez anos. Um problema mútuo.
— O registro geral — disse ele, já em movimento. — Onde?
— Fundos. Perto da lavanderia.
Ele correu, e ela foi atrás, a água espirrando sob seus pés. Rafael forçou a válvula enferrujada com as próprias mãos, mas o chiado na parede apenas diminuiu.
— Não basta. É uma linha mestra. Tem que fechar na rua. — Ele pegou o rádio no cinto. — Arantes, feche o registro da rua. Agora. Vazamento no muro da divisa.
Enquanto esperavam, a água continuava a jorrar. Ele se virou para ela, o rosto uma máscara de concentração.
— Baldes. Todos que tiver.
Marina correu, juntando baldes, bacias, potes — qualquer coisa. Ao voltar, ele já havia arrastado a mesa e usava um rodo velho para guiar a água para longe dos móveis. No caos que se instalou, não havia passado ou futuro. Apenas duas pessoas em uma dança desajeitada e eficiente contra a água.
Ele apontava, ela agia. Ela antecipava, ele executava. Era uma sintonia assustadora, renascida da necessidade. A que usavam para cozinhar para os amigos, para montar uma estante, para viver.
— Segura este pano aqui — ordenou ele, tentando estancar o fluxo principal. Ela obedeceu, e a mão dele roçou na sua. Quente. Molhada. Um choque elétrico em meio à urgência fria. Nenhum dos dois se afastou. Seus olhares se cruzaram por uma fração de segundo, e não havia raiva, apenas foco. A mesma equipe.
— O balde encheu.
Ele o agarrou, despejando a água no quintal enquanto ela posicionava o próximo. O ritmo deles era instintivo, uma memória muscular que o tempo não apagara.
Finalmente, o fluxo diminuiu para um gotejar triste. O chiado cessou. O silêncio que caiu na cozinha foi pesado, preenchido apenas pelo som da água pingando nos baldes. Estavam parados a menos de um metro um do outro, encharcados, ofegantes. A blusa branca de Marina, transparente, colava em sua pele. A camisa dele estava suja de lama, o cabelo escuro grudado na testa.
A adrenalina baixou, dando lugar a uma consciência aguda da proximidade, do cheiro de terra molhada, deles. O olhar de Rafael a encontrou, e o gelo não estava lá. Havia apenas exaustão e algo que se parecia com reconhecimento. Um fantasma de sorriso tocou seus lábios.
— Sempre fomos bons em apagar incêndios. — A voz dele era baixa, quase um segredo que escapou.
A frase a atingiu, abrindo uma porta para tudo o que ela tentava manter trancado. Marina apenas assentiu, a garganta fechada. Aquele momento de cumplicidade era infinitamente mais perigoso que a guerra declarada. A raiva era um escudo. Aquilo era uma rachadura na armadura.
O ar vibrou, denso com dez anos de silêncio. Rafael piscou, como se despertasse de um transe. A máscara de frieza voltou ao lugar, o corpo enrijecendo. A distância entre eles se tornou um abismo novamente.
— Vou mandar o Arantes avaliar o estrago. Ele resolve.
Ele se virou e saiu, quase fugindo. Parou no batente da porta, sem olhá-la.
— Deixe os baldes aí. Por precaução.
Então, ele se foi. Marina ficou sozinha no meio da cozinha inundada, tremendo. Não era de frio. Ele tinha razão. Sempre foram uma boa equipe.
E perceber que ainda eram, depois de tudo, era a coisa mais devastadora que sentira desde que voltara. A hostilidade era um mapa. Aquela trégua, um território desconhecido e traiçoeiro, onde a memória de uma parceria perfeita podia ser confundida com esperança. E a esperança, ela entendeu com um calafrio, era a única coisa que a destruiria de verdade.