O Segredo do Pico de Gelo
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A Fúria Branca

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O uivo do vento contra a estação de resgate era um lamento grave e profundo, um som antigo que a estática do rádio tentava, em vão, perfurar. Valentina Ramos segurou o comunicador, o plástico gelado mordendo seus dedos mesmo através das luvas. — Repita, central. O sinal está se desfazendo. — Sua voz era calma, um contraponto à fúria lá fora. A resposta veio rasgada, uma frase quebrada pela distância e pela tempestade. *“...ordem direta, Ramos. Abortar. A Fúria Branca está fechando o Pico... Ninguém sobe. Repito: ninguém.”* Valentina olhou pela janela blindada. O mundo havia sido apagado, substituído por um vórtice branco e violento. A Fúria Branca. Era a alcunha local para uma tempestade que não queria apenas cobrir a montanha, mas sim arrancá-la da terra. Em algum lugar naquele inferno branco, uma família — um casal e sua filha — esperava. O chamado de socorro havia se cortado no meio de um grito. — Há uma criança, central. Não vão sobreviver à noite. *“O risco é inaceitável. A vida da equipe… sua vida… não é negociável. É uma ordem final.”* A voz do supervisor era uma parede de gelo. Uma sentença. Ela desligou o rádio. O clique do interruptor foi um ato de rebeldia silencioso, engolido pela tempestade e pelo barulho de seu próprio zíper sendo fechado até o queixo. Ordem. Risco. Palavras de um mundo lá embaixo, um mundo de planilhas e probabilidades. Aqui em cima, só existia o juramento que fizera a si mesma, a única bússola que ainda funcionava em sua vida. Com a economia de movimentos de quem viveu mais tempo em equipamento de alta montanha do que em roupas normais, ela cruzou a sala. Verificou as amarras da mochila de trauma, o sinalizador, o GPS de pulso. A decisão não foi um dilema. Foi uma certeza fria e pesada em seu peito. Simplesmente não havia outro caminho. O snowcat amarelo rugiu, suas esteiras metálicas rasgando a neve acumulada. Os faróis eram duas espadas de luz que mal cortavam a escuridão leitosa à sua frente. Navegar ali era um ato de fé nos instrumentos e na topografia da montanha, gravada em sua mente como um mapa de cicatrizes. Metro a metro, ela subia contra a vontade da montanha. O vento empurrava a lateral do veículo com a força de um gigante invisível. Por baixo do ruído do motor e do chicote da neve contra o vidro, ela sentia outro som — uma vibração profunda, um ressoar que vinha das entranhas da rocha e do gelo. Um aviso. E então, o aviso se tornou um grito. A vibração começou no assoalho do snowcat, subindo por sua espinha. Não era um trovão do céu. Era a montanha se partindo acima dela. Valentina não teve tempo nem para respirar. O mundo tombou. O branco lá fora se tornou absoluto quando uma parede de neve e gelo a atingiu. O som de mil árvores se quebrando e rochas sendo moídas engoliu o universo. O veículo foi arremessado de lado como um brinquedo, capotando em uma sinfonia de metal se contorcendo e vidro se pulverizando. Então, o silêncio. Um silêncio denso, pesado, que pressionava os tímpanos. Valentina piscou, o gosto metálico de sangue na boca. Estava pendurada de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança. O motor estava morto. O rádio, um emaranhado de fios soltando faíscas patéticas. Lá fora, a neve já selava as rachaduras do para-brisa, transformando sua cabine em um caixão. Ela soltou o cinto, caindo sobre o teto do veículo. O corte na testa latejava, um ponto de calor em um mundo que congelava. Verificou o corpo. Dor, mas nada quebrado. Um luxo. Com o ombro, forçou a porta contra a neve compactada. Quando finalmente cedeu, o ar que entrou era tão gélido que queimou seus pulmões. Sozinha. A avalanche a havia varrido da rota, isolando-a de qualquer ajuda. Perfeito. Ajeitou a mochila, o peso familiar um consolo sombrio. Ignorou a dor que pulsava em sua cabeça, acionou a lanterna de testa e começou a marcha, afundando na neve fresca até os joelhos. O mundo era um labirinto sem paredes, de branco sobre branco. Levou quase uma hora. Ela os encontrou pelo som: um choro infantil, fino e frágil, quase devorado pelo uivo do vento. Estavam encolhidos em uma reentrância de rocha, uma pequena gruta que a avalanche, por milagre, não havia soterrado. O pai abraçava a filha, um escudo humano ineficaz contra o frio, enquanto a mãe tentava, em pânico, estancar um sangramento na própria perna. — Socorrista. Fiquem calmos. — Sua voz saiu rouca, mas carregada de uma autoridade que silenciou o choro. — Vou tirar vocês daqui. Ela trabalhou com a eficiência fria de quem domina o caos. Limpou e enfaixou o ferimento da mulher, envolveu a menina, que tremia violentamente, em um cobertor térmico de emergência, e distribuiu barras de proteína. Enquanto o pai agradecia com a voz embargada, Valentina varreu a área com a luz de sua lanterna. A gruta era mais profunda do que parecia. Atrás da família, a rocha se abria para uma fissura escura, uma boca negra que exalava um ar estranhamente menos gelado. Foi quando um rosnado baixo e gutural a fez congelar. Não era o vento. Não era a montanha. Ela se virou lentamente, cada fibra do seu corpo em alerta máximo. O feixe da lanterna dançou sobre a neve e parou. Ali, a talvez vinte metros, estava um lobo. Não. A palavra era um insulto. Era uma criatura colossal, com o dorso na altura de seus ombros, a pelagem espessa da cor de prata polida. O vapor de sua respiração formava nuvens que se dissipavam no ar congelado. Ele não se movia. Estava postado exatamente na frente da fissura escura, um guardião imóvel, e seus olhos estavam fixos nela. O pai da menina engasgou um som de puro terror. Valentina estendeu o braço para trás, um gesto instintivo, mantendo a família para trás. Sua mão livre foi para o sinalizador em seu cinto, uma arma patética, mas sua única opção. Mas a criatura não rosnava mais. Não mostrava as presas. Apenas a observava, e em seus olhos havia algo que enviou um calafrio pela espinha de Valentina, um frio que nada tinha a ver com a nevasca. Eram olhos de um cinza-ártico, brilhando com uma inteligência antiga e desconcertante. Não era a astúcia de um predador, mas a consciência calma de um ser que avaliava. Ele a via — não como uma ameaça ou uma presa, mas como… um evento inesperado. Por um segundo que se estendeu por uma vida, o mundo se resumiu aos dois. A socorrista quebrada e a estátua prateada de presas e pelo que guardava um segredo na montanha. Ele não a desafiava; ele a questionava. Então, com a fluidez de uma sombra, ele se virou. Não correu. Simplesmente recuou para a cortina de neve e se desfez, como se o próprio ar o tivesse desmanchado, deixando para trás apenas o silêncio e uma pergunta gravada a ferro frio na mente de Valentina.
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