O Segredo do Pico de Gelo
Cap. 2 de 14 · 7%

Olhos Cinza-Ártico

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A adrenalina que a sustentava se esvaiu de uma vez, e o frio, um predador paciente, fincou as garras. Valentina sentiu a exaustão pesar como uma mortalha de gelo. Atrás dela, o pai da família resgatada quebrou o silêncio tenso, a voz um fiapo na tempestade. “O que... o que era aquilo?” Valentina não tinha resposta. A pergunta era um eco da sua própria, martelando contra a parede de sua lógica profissional. As mãos dela, dormentes, soltaram o sinalizador. Controlar o ambiente. Controlar o pânico. Mas manual nenhum tinha um protocolo para lobos do tamanho de um carro com olhos que prometiam um tipo de inteligência antiga e selvagem. Ela se virou, a autoridade em sua voz forjada para esconder o abismo que se abria em sua mente. “Para dentro da gruta. Todos vocês. Agora.” Enquanto a família se refugiava, ela permaneceu na entrada, uma sentinela inútil. Sem rádio, sem transporte, com três civis apavorados. Ela não os salvara; apenas adiara o inevitável. O peso da sua desobediência era uma âncora, mais fria que a montanha. Foi quando o som chegou. Não um som da natureza, mas algo mecânico, rítmico, vibrando através das solas de suas botas. Um pulsar profundo que cortava o uivo do vento: *Vum. Vum. Vum*. As pás de um helicóptero. Impossível. Voar nestas condições não era arriscado, era suicida. Ainda assim, uma luz poderosa rasgou o véu da nevasca, e uma silhueta escura desceu com uma precisão que desafiava a fúria dos elementos. Não era uma aeronave de resgate; era um predador de metal negro, angular e elegante. Pousou a menos de trinta metros, e sua porta lateral deslizou para revelar uma figura recortada contra a luz interna. O homem que desceu não tinha a urgência de um socorrista. Moveu-se com uma calma deliberada, o casaco escuro e caro açoitado pelo vento, mas ele parecia o centro imóvel da tempestade. Ignorou a família que espiava da gruta. Ignorou o caos ao redor. Seus olhos encontraram os de Valentina e se fixaram nela, uma mira travada. Ele parou a poucos passos. O rosto era uma escultura de planos duros e autoridade inata, a pele pálida em contraste com os cabelos escuros. Mas foram os olhos que roubaram o ar dos pulmões dela. Cinza-ártico. Frios, penetrantes e de uma familiaridade desconcertante. A mesma cor, a mesma intensidade avaliadora do lobo. — Valentina Ramos? — Sua voz era um barítono grave que vibrou através dela, não uma pergunta, mas uma confirmação. Ela apenas assentiu, incapaz de falar. O olhar dele varreu-a da cabeça aos pés, catalogando o corte na testa, as roupas rasgadas, e parando em suas mãos — arroxeadas, quase azuis pela exposição. Antes que ela pudesse sequer processar um recuo, ele fechou a distância e envolveu as mãos dela com as suas. O contato foi um trovão. Um circuito se fechando. Não foi um toque; foi uma ignição. Um calor vulcânico explodiu de suas palmas, uma fornalha que não apenas descongelou sua pele, mas mergulhou em sua corrente sanguínea, buscando o centro de seu ser. Calor não era a palavra certa. Era vida. Pura, crua, avassaladora. O som do helicóptero, o chicote do vento, a dor e o frio desapareceram. O universo inteiro encolheu para o espaço entre eles dois, para a energia que pulsava de suas mãos para as dela. Atordoada, ela ergueu o olhar. Os olhos dele não eram mais apenas cinzentos. Uma tempestade de prata líquida em brasa ardia por trás das íris, uma luz sobrenatural que a puxava para dentro. O aperto dele se intensificou, um espasmo possessivo. A respiração dele engatou, um som áspero no silêncio que se criara entre eles, um eco do seu próprio coração desgovernado. Durou um segundo. Durou uma vida inteira. Com um arquejo que rasgou seus pulmões, Valentina arrancou as mãos das dele, o ato exigindo uma força que ela não sabia possuir. Cambaleou para trás, o mundo voltando com violência: o rugido das pás, o frio mordendo sua pele aquecida, o cheiro de ozônio e pinho que emanava dele. O choque da separação foi quase tão brutal quanto o da união. Ele não se moveu. Apenas a observou, o rosto agora uma máscara de granito. A fogueira em seus olhos recuou, mas não se apagou. Estava ali, uma brasa perigosa sob a superfície de seu controle glacial. Ele se recompôs primeiro, um endurecimento quase imperceptível da mandíbula. Sua atenção se desviou por um segundo para um subordinado que aguardava como uma sombra ao lado do helicóptero. A ordem foi curta, um comando que não deixava margem para discussão. — Leve-os para a clínica. Protocolo completo. E então, os olhos cinza-ártico voltaram para ela. A distância entre eles crepitava. O olhar dele não era o de um salvador para uma vítima, nem de um estranho para outro. Era o olhar de um rei para algo que ele acabara de encontrar e que, por direito inquestionável, agora lhe pertencia. — A tempestade vai piorar — ele declarou, a voz uma sentença final. Ele deu um passo em sua direção, fechando o espaço que ela tentara criar. — Esta médica vem comigo. Não era um convite. Era uma sentença. E Valentina Ramos, que desafiara a montanha e seus superiores, sentiu-se pela primeira vez encurralada, não pela neve, mas por um par de olhos cor de gelo em chamas.
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