O Segredo do Pico de Gelo
Cap. 4 de 14 · 21%

Guardiões da Neve

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Responsabilidade. A palavra era uma âncora, arrastando-a para um abismo de silêncio e neve. Não era uma explicação. Era o clique de uma fechadura. Valentina sentiu o próprio sangue correr frio e quente, uma contradição impossível. A médica nela diagnosticaria um choque, mas a mulher encurralada sabia que era a fúria acendendo sob o gelo do medo. Ela se afastou da porta, um obstáculo inútil, e encarou a silhueta de Kaelen contra o furacão branco. Ele era parte da tempestade, indomado e perigoso. — Eu não sou um item perdido na montanha. Sou uma médica socorrista em serviço ativo e você está me mantendo em cativeiro. Isso tem um nome muito claro na minha profissão e na lei. Sequestro. — Sente-se, Valentina — a voz dele cortou o ar, desprovida de qualquer emoção que ela pudesse usar contra ele. — Não. Kaelen se virou, e o gelo em seus olhos cinzentos pareceu rachar, revelando uma exaustão milenar. — Você está exausta e faminta. Não pode travar uma guerra nessas condições. — Minha clareza é a única arma que tenho. E ela me diz que o maior perigo aqui é você. — Não — ele disse, um movimento mínimo, quase imperceptível, de sua cabeça. — O perigo é o motivo pelo qual estou te mantendo aqui. Por favor. — O pedido, vindo daquele homem, soou mais como uma fissura na armadura do que uma ordem. Carregava um peso que a curiosidade dela, traiçoeira, não pôde ignorar. Desconfiada, ela contornou a mesa de centro maciça e sentou-se na beirada de uma poltrona de couro, a coluna ereta, pronta para o que viesse. Ele permaneceu de pé junto à lareira, o fogo dançando em seu rosto, esculpindo-o em sombras e luz. Um predador em sua toca. — O que você viu na fenda, Valentina? — A pergunta era neutra, cirúrgica. A imagem explodiu em sua mente, vívida, primal. — Um lobo. Anormalmente grande, possivelmente raivoso. Uma anomalia biológica. Um espasmo de ironia crispou o canto dos lábios dele. — Sempre a cientista. Procurando a caixa certa para colocar o impossível. E os olhos dele? Descreva os olhos. A pergunta a desequilibrou. Ela vasculhou a memória, aterrorizada e fascinada pela nitidez da lembrança. — Cinzentos. Quase prateados com a luz da neve. Inteligentes. — Como os meus — ele completou, a voz baixa, e deu um passo para fora das sombras, parando diretamente sob a luz do lustre. Ele se aproximou, invadindo seu espaço, obrigando-a a inclinar a cabeça para trás. O mesmo cinza-prateado, a mesma intensidade perturbadora. — Não eram parecidos, Doutora Ramos. Eram os mesmos. Você não viu uma anomalia. Você me viu. O chão da cabana pareceu inclinar. O crepitar do fogo se tornou um rugido. O ar ficou denso com o cheiro dele — ozônio, pinho e algo mais, algo selvagem. Valentina soltou uma risada, um som seco, quebrado. — Isso é… licantropia é um delírio, um transtorno psiquiátrico. — E o calor? — ele a pressionou, a proximidade dele uma força gravitacional. — O toque na montanha que impediu seus dedos de congelarem. Foi um transtorno psiquiátrico também? Você é médica. Sabe que um corpo não gera aquele tipo de energia. Não sem um forno por dentro. Ela desviou o olhar, as mãos se fechando em punhos no colo. Ele estava usando sua própria lógica contra ela. — Alucinação… induzida por estresse e hipotermia. — Paciente. — A palavra dele era quase um rosnado de respeito. — Eu não estava lá quando você encontrou a família, mas outro piloto estava. Um que caiu. Marcus Thorne. O que você acha que ele diria se tivesse sobrevivido e reportado ter visto um lobo daquele tamanho guardando uma caverna? O nome caiu como uma pedra no silêncio. Kaelen enrijeceu. — Você o conhece? — Ele é um abutre. Quer comprar toda a terra em volta da montanha, incluindo a do resort. Todos na cidade o conhecem. Sua ambição é uma praga. — Ele é mais que isso. — Kaelen se afastou, a tensão em seus ombros transformando-o novamente em um guardião de pedra. — Marcus é o Alfa de outra alcateia. Uma de conquistadores, não de protetores. O que você encontrou não era uma fenda. Era a porta de um cofre. E Marcus quer o que está lá dentro. Valentina apertou as têmporas. A cabeça latejava. Alfas. Alcateias. Cofres na montanha. Era uma alucinação, só podia ser. — Cristais — Kaelen disse, lendo a incredulidade em seu rosto. — Fontes de poder antigo. Minha família, os Guardiões da Neve, os protege há gerações. Marcus os quer. E ele esmagaria qualquer um, ou qualquer coisa, que ficasse em seu caminho. Ela olhou para as próprias mãos. Mãos que conheciam a realidade de ossos e sangue. Nada daquilo fazia sentido. E, no entanto, a memória do calor dele ainda ardia em sua pele. Os olhos do lobo estavam sobrepostos aos do homem à sua frente. — Então vocês… vocês são… — A palavra era tão absurda que se recusava a ser dita. — Protetores. E quando a montanha exige, mudamos. Assumimos a forma que você teme, para proteger o que amamos. Ela se levantou em um salto, a energia nervosa demais para ser contida. — E o que eu tenho a ver com sua guerra de fantasia? Por que sou sua ‘responsabilidade’? — Porque você viu. E Marcus sabe que você estava lá. Para ele, você não é uma testemunha. É uma ponta solta. — Kaelen a encarou, o peso do mundo em seu olhar. — Ele não tentaria te calar, Valentina. Ele te apagaria. A única razão de você estar viva é porque eu cheguei primeiro. E porque agora… o vínculo entre nós foi formado. A conexão. O choque elétrico na montanha. — O que é isso? — É raro. Antigo. Para a nossa espécie, é um reconhecimento. Significa proteção. Reivindicação. — Ele deu um passo, diminuindo a distância que ela havia criado. — Não posso te soltar na nevasca, porque seria uma sentença de morte. E porque algo mais velho que eu não permite. Você está sob minha proteção agora. Queira ou não. Prisão ou refúgio? A ideia era igualmente sufocante. Ela não era uma donzela para ser guardada numa torre. Ela era a equipe de resgate. E então, como um bisturi em meio ao caos, seu cérebro de médica encontrou um caminho. O pânico deu lugar a um pragmatismo gelado. Analisou os fatos, por mais insanos que fossem. Um homem que vira lobo. Um rival ganancioso. Cristais que adoecem pessoas. Ali, no meio da loucura, estava sua alavanca. — Você precisa de mim — ela afirmou, a voz firme. Um brilho de respeito genuíno acendeu nos olhos dele. — Como? — Você me quer pensando com clareza. Me trouxe ao coração do seu território, não a uma cela. Seus curandeiros usam ‘métodos antigos’, mas eu entendo de fisiologia. Os cristais… eles estão afetando seu povo, não é? A energia, a instabilidade… você não sabe os efeitos, mas eu posso descobrir. Eu posso tratar. A peça final se encaixou no tabuleiro. A troca. — O centro médico da cidade — ela disse, a voz cortante, cada palavra uma condição. — O projeto está parado por falta de verba. Eu quero ele construído. Equipado. Com um fundo perpétuo para mantê-lo. Você, com suas empresas e sua influência, vai fazer isso acontecer. Kaelen a observou, a cabeça levemente inclinada, o predador analisando a presa que acabara de morder de volta. — Você quer que eu compre a sua cooperação com um hospital? — Eu quero que você pague pelo meu silêncio, pela minha liberdade e pela minha expertise. Você protege seus segredos e seu povo. Eu protejo a minha comunidade. É a minha ciência pela sobrevivência deles. O fogo estalou, uma testemunha do pacto que se formava. O vento uivou lá fora, um coro para a guerra que se avizinhava. Ele a mediu em um longo e tenso silêncio e, por fim, estendeu a mão. — Temos um acordo. Valentina o ignorou. Cruzou os braços, o queixo erguido, o desafio queimando em seus olhos, onde antes só havia medo. O poder havia mudado de mãos, mesmo que por um instante. — Que fique claro, Silverthorn. Eu trabalho *com* você. Não *para* você. Um sorriso lento, perigoso e totalmente predatório se espalhou pelo rosto de Kaelen. Ele recolheu a mão e deu um passo em sua direção, a intensidade em seus olhos fazendo o ar crepitar. — Que comece a nossa parceria, Doutora Ramos.
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