O Segredo do Pico de Gelo
Cap. 3 de 14 · 14%

A Gaiola Dourada

5 min de leitura
A oferta de Kaelen Silverthorn não foi um convite, mas uma sentença. As pás do helicóptero açoitavam o ar, mas a palavra dele era mais forte que o vento, uma ordem que congelava o próprio caos da nevasca. — Não. — A voz de Valentina, embora baixa, cortou o ruído com a precisão de um bisturi. O torpor do choque se dissipou, substituído pelo aço de seu treinamento. — Sou uma socorrista em serviço. Meu protocolo é retornar à base com a equipe enviada. Recuso transporte particular. Kaelen nem piscou. Seus olhos, cinza-ártico, eram impenetráveis, desprovidos de emoção. Apenas uma certeza absoluta, mais intimidante que qualquer fúria. Ele não precisava gritar; a montanha parecia se curvar à sua vontade. — Nenhuma equipe virá — disse ele, a voz um barítono que vibrava no ar gelado. — A montanha não permite. Atrás dele, um de seus homens gesticulou para a família na gruta, que foi guiada para dentro da aeronave sem um protesto. O pai lançou a Valentina um olhar de desculpas e gratidão, já rendido à autoridade daquele homem. Valentina, contudo, sentia o instinto de lutar, de resistir àquela correnteza que a arrastava. Kaelen passou por ela — uma sombra fluida que não a tocou, mas cuja proximidade foi uma pressão física — e parou na porta aberta do helicóptero. A luz interna o recortava, uma silhueta de poder irredutível. — Você pode entrar por seus próprios pés ou ser levada. Mas você não fica nesta montanha hoje. — A declaração era final. Ele não a estava resgatando. Estava a reclamando. Derrotada, Valentina afundou as botas na neve, cada passo uma concessão amarga. Subiu na aeronave, e a porta deslizou, selando o mundo exterior com um clique hidráulico. O rugido da tempestade foi substituído por um silêncio pressurizado. O cheiro era de couro e poder. Kaelen sentou-se na poltrona à sua frente, a proximidade um fato inescapável no espaço confinado. O helicóptero decolou com uma suavidade assustadora, uma máquina imune à fúria da natureza. Ele não disse nada. Apenas a observava, imóvel, o silêncio dele sendo uma forma de interrogatório. Valentina virou o rosto para a janela blindada, mas só viu o reflexo do interior luxuoso sobreposto a um borrão branco. Estava voando cega, com o homem que tinha os mesmos olhos do lobo. O homem cujo toque incendiara suas veias. O voo, que não durou nem dez minutos, terminou em uma clareira abraçada por um anel de pinheiros altos, um santuário de silêncio na tempestade. Ali, erguia-se uma fortaleza disfarçada de cabana. Uma estrutura de pedra escura e madeira maciça, com janelas panorâmicas de vidro escurecido que pareciam olhos vazios na noite. Câmeras discretas vigiavam sob os beirais. Era a casa de alguém que não queria ser encontrado, mas via tudo. Kaelen desceu e esperou. Valentina pisou no chão firme, o corpo exausto, a mente em alerta máximo. Ele a guiou para a porta principal, que se abriu sem que ele a tocasse. O calor a envolveu como um cobertor, mas não trouxe conforto. O interior era um espaço vasto, de teto alto com vigas expostas. Uma lareira de pedra, grande o bastante para um homem ficar em pé, rugia com um fogo controlado. — Sente-se. O comando foi suave, mas ainda era um comando. Valentina permaneceu onde estava, a mochila de resgate ainda nas costas, uma âncora de sua identidade perdida. — Preciso de um telefone via satélite. Tenho que me reportar. Meus superiores… — A família está segura — ele a interrompeu, caminhando até um bar de madeira escura. Serviu um líquido âmbar em um copo de cristal pesado. Não lhe ofereceu. — E não há sinal aqui. — Um rádio, então. Um telefone fixo. — Ela sentia o pânico lamber as bordas de seu controle. — Uma propriedade como esta não é incomunicável. Kaelen se virou, a luz do fogo esculpindo sombras em seu rosto. — Para você, é. A afronta naquelas palavras foi tão clara quanto um tapa. O frio em seu estômago não vinha mais da neve. Com um gesto deliberado, ela deixou a mochila cair no chão. Um baque surdo de desafio. — Agradeço o resgate, sr. Silverthorn. Mas sou uma oficial em serviço. Exijo que me devolva à minha base. Ele se aproximou com o mesmo passo medido da montanha, parando perto o suficiente para que ela tivesse que erguer o queixo. Seus olhos desceram para o corte em sua testa. — Você precisa de um banho, cuidar desse ferimento e comer. — Sua mão se ergueu, e Valentina prendeu a respiração, o corpo inteiro se preparando para o choque daquele toque novamente. Mas os dedos dele pararam a centímetros de sua pele, antes de apontar para um corredor. — Primeira porta à esquerda. Há roupas no armário. Sirva-se. Depois, volte aqui. Ele se afastou, deixando-a na encruzilhada entre a necessidade e o orgulho. Era um prisioneiro sendo tratado com o maior dos cuidados. A ideia era enlouquecedora. Ela escolheu a necessidade. Era uma retirada estratégica. O quarto era outra demonstração de poder. Luxuoso, impessoal. O banheiro, maior que sua sala, ostentava um chuveiro de chuva. Enquanto a água quente dissolvia a dor de seus músculos, sua mente trabalhava. O lobo. O toque. A gaiola dourada. No armário, calças de moletom e uma camiseta preta, macias e novas. Ao vesti-las, sentiu-se despida de sua armadura. Vulnerável. Quando voltou à sala, descalça sobre o piso aquecido, ele estava de costas, observando as chamas. Uma bandeja com sopa fumegante e pão a esperava. — Coma. — Por que estou aqui? — ela insistiu, a voz firme apesar da fome que a corroía. Kaelen virou-se. A máscara de controle estava no lugar, mas seus olhos continham uma gravidade esmagadora. — Esta é minha casa. — E por que eu estou nela? — A paciência dela se rompeu. — Chega de jogos. Sem esperar resposta, ela marchou até a porta principal. A mão agarrou a maçaneta de ferro. Fria. Imóvel. Valentina empurrou com o ombro. Sólida como a rocha da montanha. Uma minúscula luz verde pulsava ao lado da fechadura magnética. Trancada. O ar fugiu de seus pulmões. Ela se virou lentamente, o coração martelando um ritmo de pavor. Kaelen não se movera. Apenas a observava, a expressão não de triunfo, mas de uma sombria resignação. A verdade a atingiu com a força de uma avalanche. — O que você quer de mim? — a pergunta saiu num sussurro rouco. Ele pegou seu copo, caminhou até a parede de vidro e olhou para a fúria branca lá fora. — Eu não queria nada de você, Valentina. — Então me deixe ir. Ele bebeu um gole, o perfil duro contra a tempestade. — Não posso. — Por quê? — o grito dela rasgou o silêncio, uma mistura de frustração e medo puro. — Por quê?! Kaelen se virou, e o peso do mundo pareceu recair sobre seus ombros largos. A autoridade deu lugar a uma verdade fria e inalterável, seus olhos cinzentos encontrando os dela com uma finalidade terrível. — Porque você viu o que não devia na montanha. Agora, você é minha responsabilidade.
Comentar este capítulo
Comentários de "A Gaiola Dourada" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬