O Traço do Nosso Destino
Cap. 2 de 13 · 8%

O Roubo nos Bastidores

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O sono não veio. A promessa de descanso de Letícia era um eco oco contra o alarme surdo que pulsava sob a pele de Maya. Após um banho rápido no apartamento minúsculo que mal podia pagar, ela vestiu a melhor roupa que tinha — uma calça preta e uma blusa de seda barata — e se encarou no espelho. Não era o suficiente. Nunca seria. Mesmo assim, ela precisava ir. Precisava ver com os próprios olhos. A área de apresentação da Croft & Co. era um universo paralelo. Paredes de vidro do chão ao teto emolduravam a cidade, o sol da manhã arrancando faíscas dos arranha-céus. O ar cheirava a café importado e ambição. Garçons de luvas brancas circulavam com bandejas de canapés que valiam mais que o aluguel dela. Maya se encolheu junto a uma pilastra de concreto polido nos fundos, um borrão anônimo em meio a ternos caros e joias discretas. Ninguém a notou. Ela se sentia como parte da estrutura, invisível e funcional como a viga que sustentava o teto. No centro da sala, num palco baixo, Letícia brilhava sob os holofotes, comandando a atenção de todos. Ao seu lado, numa poltrona de couro alvo, estava Ethan Croft. Ele não olhava para a apresentação; perscrutava a plateia, avaliando reações. Sua imobilidade era a de um predador, uma força gravitacional que silenciava o ambiente. Ao seu lado, a cliente, Clara, passava os dedos entediados por uma mecha de cabelo loiro. Parecia irritada com a própria perfeição. Então, a primeira imagem surgiu na tela gigante. A fachada. A delicada costura entre o antigo e o novo. A caligrafia de Maya no canto inferior, com a curva do “A” maiúsculo que ela nunca conseguia domar. O ar escapou de seus pulmões. Ela se apoiou na pilastra, os nós dos dedos brancos contra o concreto frio. — A nossa abordagem — a voz de Letícia, suave e confiante, preencheu a sala — foi buscar a alma do concreto. Não apenas construir, mas dialogar com a história preexistente. Eram as palavras dela. As mesmas que Maya rabiscara na margem de um caderno, durante uma madrugada de trabalho febril. Ela sentiu o oxigênio da sala ficar denso, pesado demais para respirar. Cada slide que passava era um pedaço de sua alma sendo dissecado sob uma assinatura que não era a sua. Veio a peça central: a estrutura de vidro suspensa. Sua aposta mais ousada. — E aqui, a genialidade do conceito — disse Letícia, o ponto vermelho do laser dançando na tela. — Ousamos quebrar a simetria, criando um ponto de luz que não compete com o original, mas o reverencia. A palavra “ousamos” atingiu Maya como um soco no estômago. Suas unhas se cravaram na palma da mão, deixando quatro pequenas luas vermelhas. Seu olhar voou para Ethan Croft. Ele, até então imóvel, inclinou a cabeça. Um gesto sutil que fez os murmúrios na sala cessarem. Virando-se para Clara, ignorou Letícia por um instante. — É genial — a voz de Ethan era baixa, mas cortou o ar como vidro. — A audácia desse contraste... É isso que separa a arquitetura da mera construção. Clara deu de ombros. — Não é um pouco... chamativo? — O luxo hoje não é sobre o que se esconde, Clara. É sobre a coragem que se exibe. — A resposta de Ethan foi imediata, seu olhar fixo na projeção. Só então ele se voltou para Letícia. E pela primeira vez, um sorriso mínimo curvou seus lábios. Um aceno de aprovação que valia mais que qualquer bônus. — Excelente trabalho, Letícia. Surpreendente. A sala explodiu em aplausos polidos. Letícia inclinou a cabeça, um gesto de modéstia perfeitamente ensaiado. Para Maya, o som era um zumbido branco e distante. O rosto sorridente de Letícia, a aprovação fria de Ethan, a indiferença de Clara — tudo se fundiu numa imagem vertiginosa de traição. Ela precisava de ar. As pernas a levaram, por puro instinto de fuga, para o corredor de serviço. A porta se fechou, abafando o sucesso dos outros. O silêncio do corredor, sob a iluminação fria das luzes de emergência, era ensurdecedor. Ela se encostou na parede, o gosto amargo da injustiça subindo pela garganta. Passos. Saltos firmes e decididos. Maya ergueu a cabeça. Letícia parou a metros de distância, o sorriso da apresentação substituído por uma máscara de impaciência. — O que você está fazendo aqui? Eu disse para ir para casa. — Aquele projeto. — A voz de Maya era um fio trêmulo. Ela limpou a garganta, buscando força. — As minhas plantas. Letícia soltou uma risada curta, desdenhosa. — Ah, querida. Não vamos começar com o drama da estagiária, vamos? Você fez um rascunho. Eu desenvolvi. Eu refinei. Eu vendi. É assim que o mundo funciona. — Você usou as minhas palavras. Os meus traços. Cada linha ali... — Cada linha ali foi feita sob minha supervisão, com recursos da Croft & Co. — Letícia avançou, a voz baixando para um silvo venenoso. O verniz de mentora se estilhaçou, revelando o aço por baixo. — Você tem talento, Maya, admito. Mas talento sem poder não é nada. É só matéria-prima. E eu sou a arquiteta. Um calor agudo subiu por trás dos olhos de Maya. Ela engoliu em seco, a fúria transformando a dor em uma bigorna no peito. Não na frente dela. — Eu confiei em você. — E esse foi o seu primeiro erro profissional. — Letícia ajeitou o blazer, encerrando o assunto. — Agora, se me dá licença, tenho um contrato para celebrar. Ela começou a se afastar. — Eu vou contar a ele — a ameaça saiu desesperada, patética aos seus próprios ouvidos. Letícia parou. Virou-se lentamente, e o olhar que lançou sobre Maya era o de quem esmaga um inseto sob o sapato. Frio, impessoal, final. — Contar a *ele*? A Ethan Croft? — Ela riu de novo, um som feio no corredor estéril. — E quem você acha que ele vai ouvir? A arquiteta sênior que acabou de garantir um contrato de milhões ou a estagiária que ninguém sequer sabe o nome? Ela se aproximou, o perfume caro sufocando o ar. — Uma estagiária não tem voz aqui, Maya. Você é uma peça substituível. Um rascunho que a gente joga fora. O queixo de Maya tremeu, mas ela sustentou o olhar. — Um dia... — Não haverá 'um dia' para você nesta empresa. — A voz de Letícia era gelo puro. — Considere seu estágio encerrado. Imediatamente. Justa causa: insubordinação e tentativa de apropriação de propriedade intelectual da empresa. O chão sumiu. Demitida. A palavra ecoou, destruindo seis meses de sacrifício. — Você não pode... — Eu já fiz. — Letícia se afastou, o som dos saltos no piso polido martelando o prego final. Ela nem olhou para trás quando chegou à porta. — Seu crachá será desativado em cinco minutos. Sugiro que esvazie sua gaveta. Maya ficou paralisada. O zumbido em seus ouvidos era agora um rugido. Do outro lado da porta, ouviu uma risada, o tilintar de taças. A celebração do roubo de sua vida. Letícia parou no umbral, a silhueta recortada contra a luz da festa. Sem se virar, ela lançou as últimas palavras por cima do ombro, uma sentença final que ficou pairando no ar frio do corredor. — E um conselho, querida. Aprenda seu lugar. Você está na rua.
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