O bipe verde do crachá de estagiária foi o som mais solitário que Maya já ouvira. O segurança no portão do canteiro de obras a observou com indiferença, liberando a catraca. Por um descuido do RH, ela ainda tinha acesso ao lugar onde sua carreira acabara de ser incinerada. O caminho até o contêiner-escritório era um campo minado de memórias e lama, resquício da chuva da noite anterior.
Lá dentro, o cheiro de pó e café requentado agora parecia o odor do fracasso. Seus pertences eram poucos, anônimos dentro de uma única gaveta de metal: um carregador, um livro de bolso, um agasalho. Sobre a prancheta, porém, estava o que importava. Sua pasta pessoal, com os esboços originais que Letícia nunca vira, e o iPad com o backup de tudo. A prova de que ela não era um fantasma. Maya agarrou a pasta e o tablet contra o peito, um escudo frágil contra um mundo que desabava.
A porta do contêiner se abriu e a voz de Letícia, untuosa e triunfante, a atingiu como um golpe físico.
— ... e a luz do poente vai incidir diretamente aqui, transformando o mármore em ouro líquido — dizia ela, gesticulando para uma imensa placa de pedra italiana, coberta por uma lona.
Ao seu lado, Clara, a cliente, examinava as unhas com ar entediado. E atrás delas, a silhueta alta e imponente de Ethan Croft. Ele não olhava para Letícia nem para o mármore. Seus olhos percorriam a ossatura da mansão, a cabeça levemente inclinada, o maxilar tenso em concentração. O mestre do universo no seu habitat natural.
O ar fugiu dos pulmões de Maya. Sair. Ela precisava sair dali sem ser vista. Recuou um passo, mas o movimento foi sua ruína. O tédio no rosto de Clara se metamorfoseou em desprezo.
— O que é isso? — a voz dela era fina como um estilete. — A faxina já chegou?
O olhar de Letícia a encontrou. Seus olhos se estreitaram, um flash de irritação pura, antes de se compor num sorriso condescendente. Ethan ainda não a vira.
Maya baixou a cabeça, o sangue zunindo nos ouvidos, e tentou contornar o grupo em direção ao portão. A lama agarrava-se às suas botas, tornando cada passo um esforço.
— Ei, você aí — perseguiu-a a voz de Clara. — Mais devagar com o enterro. Isso é um canteiro de obras, não uma pista de corrida.
Num gesto teatral para chamar a atenção de Ethan, Clara deu um passo para trás sem olhar. Seu salto agulha enterrou-se na terra fofa. Ela oscilou, o corpo projetando-se para a frente.
Por puro reflexo, Maya estendeu o braço para ampará-la.
— Não me toque! — gritou Clara, afastando-se como se a mão de Maya estivesse em chamas. No movimento, sua bolsa de grife escapuliu e o fecho de metal pesado atingiu a borda da placa de mármore. Um estalo seco, agudo. Um risco prateado, fino como um fio de cabelo, agora profanava a alvura da pedra.
Silêncio.
O rosto de Clara, antes pálido, se tingiu de uma fúria pálida e venenosa. Os olhos faiscaram e cravaram em Maya.
— Sua incompetente! — o grito ecoou. — Olhe o que você fez! Você me empurrou!
— Eu não... eu só tentei ajudar — a voz de Maya era um fio, quebrado.
— Ajudar? Você sabe quanto custa um único centímetro desse Carrara? — Clara se virou para Ethan, o drama em sua potência máxima. — Eu exijo que essa garota seja multada! Demitida!
Uma onda de calor subiu pelo pescoço de Maya, queimando-lhe o rosto. Os poucos operários próximos haviam parado. Letícia assistia, um brilho de puro deleite nos olhos. E então, o olhar dele. Pela primeira vez, Ethan Croft realmente a via. Seus olhos cinzentos, duros como granito, a esquadrinharam da cabeça aos pés. Nenhuma emoção. Apenas análise fria.
— Foi um acidente — a voz dele soou baixa e controlada, dirigida a Clara. — Nós vamos resolver.
— Resolver? Eu quero essa criatura fora da minha propriedade. Agora!
— Isso não será um problema — disse Letícia, aproximando-se com a suavidade de um predador. — Ela já foi demitida. Não é mesmo, estagiária?
Estagiária. A palavra a chicoteou. Raiva e humilhação travaram sua garganta. Ela apertou ainda mais a pasta e o iPad contra si. Sua única defesa. Sua única verdade.
— Foi ela quem tropeçou — Maya conseguiu dizer, a voz rouca, olhando diretamente para Ethan, numa súplica silenciosa por justiça.
Antes que ele pudesse esboçar reação, Letícia agiu. O olhar dela fixou-se na pasta que Maya protegia como a própria vida. E com um movimento curto, rápido e brutalmente preciso, ela chutou.
A pasta voou. O iPad escorregou dos braços de Maya, caindo com um baque oco na terra úmida. A pasta se abriu no ar e seus desenhos — sua alma, suas noites em claro — se espalharam, pousando como folhas mortas sobre uma poça de lama escura.
O mundo ficou mudo. As linhas de grafite, os traços precisos, as anotações, tudo se desfazia, sangrando na água suja.
O músculo da mandíbula de Ethan se contraiu. Ele abriu a boca, mas Clara, cega pela própria fúria, o atropelou.
— Ai, meu sapato! Lama no meu sapato! — gritou ela. Em seu chilique, deu um passo e seu salto agulha desceu com todo o peso sobre a tela do iPad.
*CRAC.*
O som de vidro se partindo — agudo, definitivo, como um osso quebrando — arrancou Maya do transe. Um soluço seco escapou de sua garganta. Ela caiu de joelhos na lama, as mãos pairando sobre os papéis arruinados, sem saber o que salvar primeiro. Estava tudo perdido.
— Já chega — a voz de Letícia era uma lâmina de gelo. Ela fez um sinal para o segurança. — Tire-a daqui.
Maya ergueu o rosto, as lágrimas finalmente vencendo, quentes e inúteis. Seu olhar cruzou com o de Ethan. Por uma fração de segundo, ela viu algo ali — não pena, mas uma análise tensa, um desconforto. Ele não se moveu. Ele apenas assistiu.
O segurança a agarrou pelo braço com força desnecessária. Ela foi arrastada, as botas chafurdando na lama, passando a centímetros dos sapatos caros dele. Ele não desviou o olhar. Apenas observou-a ser expulsa como lixo.
O portão de metal se fechou com um barulho pesado, final. Trancada para fora.
Uma gota de chuva atingiu sua testa. Depois outra. Uma chuva fria e súbita começou a lavar a poeira da calçada. Através das grades, Maya viu Letícia colocar a mão no ombro de Clara, consolando-a. Viu Ethan virar-se e retomar sua análise da fachada, o assunto encerrado. Ela já era passado.
Lágrimas e chuva se misturavam em seu rosto. Lentamente, como se seus ossos doessem, ela se ajoelhou na calçada molhada. Um de seus esboços, o da claraboia, ficara preso na grade. Com os dedos trêmulos, ela tentou puxá-lo. A tinta do grafite borrou sob seu toque, transformando a linha genial em uma mancha escura, irreconhecível. Uma ferida aberta no papel.