Os Olhos que Fingem Não Ver
Cap. 2 de 22 · 5%

A Fachada Quebra

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O peso da faca de prata na mão de Sayuri era uma afronta. Estava acostumada com o aço funcional dos talheres da padaria, com a urgência de comer em pé entre uma fornada e outra. Ali, sentada em veludo cor de vinho sob um lustre que valia mais que a dívida da sua família, o papel de noiva parecia uma fantasia mal ajustada, pinicando em cada ponto de contato. Do outro lado da mesa farta, Ren Takeda era a própria personificação da calma. Ele inclinou a cabeça levemente, como se seguisse um som distante, uma performance para o único espectador que importava. A farsa da cegueira era impecável. Ele não se movia como um homem na escuridão, mas como um predador que fizera dela o seu território de caça. — O chef insiste no robalo — disse ele, a voz um barítono que cortava o murmúrio polido do restaurante. — Mas talvez você prefira algo... menos sutil. A lagosta pode ser trazida à mesa para sua aprovação. Viva, claro. Era uma isca. Brilhante, cara e óbvia. Ele esperava o deslumbre da garota pobre, a ganância surgindo em seus olhos. A confirmação de que ela era exatamente quem ele pensava. Sayuri pousou o cardápio sobre a toalha de linho engomado. O objeto parecia pesado como uma lápide. — Robalo está ótimo. — Sua voz saiu fria, um escudo contra a opulência que a sufocava. Seu estômago estava um nó cego. A transferência bancária havia sido confirmada. Aquele era o único prato que lhe importava, e seu sabor era o de alívio e cinzas. O silêncio que se instalou foi diferente. Ren não o preencheu. Apenas tamborilou os dedos sobre a mesa, um ritmo lento e irritante que parecia medir o tempo da paciência dela. — Você parece distraída — disse ele, parando o movimento. O sorriso em seus lábios não tocava os olhos, escondidos atrás das lentes escuras. — Se o ambiente não agrada, podemos ir a outro lugar. As reservas em Paris para o fim de semana são fáceis de conseguir. A provocação a atingiu onde doía: no orgulho. Ele a pintava como uma alpinista social entediada, já de olho no próximo luxo. O cabo da faca gelou em sua mão, os nós dos dedos ficando brancos. — O lugar é agradável — respondeu ela, forçando os ombros a relaxarem. — Eu só estava pensando no trabalho. O fornecedor de farinha aumentou o preço em quinze por cento. Um absurdo sem negociação. A atmosfera mudou. Foi uma pausa de meio segundo, um vácuo onde antes havia sarcasmo. Ele esperava reclamações sobre sapatos, e ela lhe dera o balanço de um insumo básico. O sorriso de Ren se alargou, agora tingido de escárnio puro. — Fascinante. Meus gestores de aquisição adorariam suas estratégias. — O veneno pingava de cada sílaba. — Mas você não precisa mais se preocupar com o preço da farinha, Sayuri. Preocupe-se com a cor de um vestido. Com a lista de convidados. Coisas de noiva. — A padaria é importante para mim. A frase escapou, mais afiada do que pretendia. Um erro. Uma rachadura em sua armadura. Ele se inclinou para a frente, o sorriso morrendo em seus lábios. — A padaria foi o preço. — disse, a voz baixa e cortante. — A moeda da nossa transação. Não a confunda com nada mais. A verdade daquelas palavras a deixou sem ar. Foi como um soco no estômago, tirando o fôlego e deixando uma dor quente e amarga na garganta. Ela engoliu em seco, recusando-se a desviar o olhar. Não lhe daria essa satisfação. Foi então que aconteceu. A mão de Ren, que pairava perigosamente perto da taça de vinho, crispara-se. Um espasmo calculado, um movimento brusco que pareceu um acidente perfeito. A haste de cristal tombou, batendo na porcelana com um estalo agudo. O vinho tinto se espalhou como sangue sobre a brancura da toalha, uma mancha que florescia em direção a ele. O garçom mais próximo enrijeceu, iniciando um movimento treinado. Mas Sayuri foi mais rápida. Não houve pensamento, nem cálculo de aparências. Houve apenas o instinto de uma vida inteira passada contendo danos, limpando as próprias bagunças. Antes que Ren pudesse soltar seu suspiro ensaiado de contrariedade, ela já estava debruçada sobre a mesa, pegando guardanapos e pressionando-os sobre a mancha que avançava. — Cuidado — sua voz era um sussurro focado. — Vai manchar sua calça. Sua mão se moveu para firmar a taça caída e seus dedos roçaram os dele, que permaneciam imóveis na cena do crime. A pele dele estava fria. Por um segundo, seus olhos se encontraram — os dela, focados e genuinamente preocupados; os dele, um abismo inexpressivo atrás das lentes escuras. Ren Takeda não se moveu. Ele via tudo. Ele vira a velocidade, a ausência de hesitação. Ela não chamara um serviçal. Não recuara com nojo. O primeiro reflexo dela, puro e não ensaiado, fora proteger. Conter o problema. Resolver. Ele esperava desprezo, um enfado impaciente. Recebeu eficiência silenciosa. — Desculpe — disse ele. E pela primeira vez na noite, a voz não era uma performance. Soou rouca, quase incerta. Sayuri ergueu os olhos do desastre, o rosto a centímetros do dele. Havia uma pequena mancha de vinho em seu pulso, escura contra a pele clara. Ela apenas assentiu, recuando quando o garçom chegou, todo mesuras e desculpas, trocando a toalha e os talheres com uma eficiência que apagava o incidente. Ela voltou à sua postura ereta, a fachada de volta no lugar. Mas a dinâmica havia se quebrado. O ar entre eles vibrava com algo novo. Ren não via mais a alpinista social que ele próprio criara. Via a mancha de vinho no pulso dela. Via o instinto que não se comprava. Ele a observou tomar um gole de água, a mão firme, o queixo erguido. O jogo dele havia falhado. Ou talvez, tivesse acabado de começar. Ren endireitou-se na cadeira, um movimento lento, ponderado. O silêncio se estendeu até se tornar quase insuportável. Quando ele falou de novo, a provocação havia desaparecido, substituída por uma curiosidade afiada e perigosa. — Sayuri. Qual o nome da sua padaria?
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